Contas externas em observação

Na segunda feira, dia 24 de março, está prevista a divulgação, pelo Banco Central (BC), dos números do balanço de pagamentos referente ao mês de fevereiro. É o documento no qual são contabilizadas as transações do Brasil com o resto do mundo.

Apesar do esperado déficit recorde de cerca de R$ 85 bilhões no período de 12 meses com despesas relacionadas ao pagamento de juros, dividendos e remuneração de serviços, as demais contas devem registrar saldos positivos expressivos. O resultado final é o aumento do saldo das aplicações em moeda estrangeira, contabilizado na conta de reservas internacionais no conceito caixa.

Os dados das reservas internacionais são divulgados em intervalos menores e os valores até 19 de março já estão disponíveis. Desde 31 de dezembro aumentaram em quase R$ 6 bilhões. Foi uma das maiores altas nos últimos meses e sinaliza que, talvez, a pior fase da crise de confiança do mundo com o Brasil pode ter ficado para trás.

No entanto, para voltar à situação anterior às turbulências, o BC precisa quitar as operações de swap cambial. São derivativos financeiros que representam um passivo equivalente a US$ 84 bilhões.

As barras do gráfico abaixo mostram a evolução das reservas internacionais, considerando as operações de swap do BC. A linha vermelha representa a cotação média mensal do dólar, conforme divulgadas no código Ptax.

image

Para conter a alta do dólar o BC realizou diversos leilões de swap cambial a partir de junho de 2013. O recuo do dólar foi acompanhado pela redução das reservas internacionais, quando considerados os derivativos.

O desafio do BC é manter a cotação do dólar equilibrada e, ao mesmo tempo, reduzir o estoque de swaps no mercado. São dois indicadores que merecem um acompanhamento cuidadoso ao longo dos próximos meses.

Um BC mais ativo pode aumentar os riscos dos investimentos

A coluna do jornalista Cristiano Romero, do Valor, publicada no dia 19 de março, chama a atenção para o fato de o Banco Central (BC) brasileiro ter sido o que mais mudou a taxa básica de juros nos últimos três anos, na comparação com outros países.

Também foram mais alterações na taxa Selic do que nos dois mandatos anteriores, do presidente Lula. O ativismo, definitivamente, parece ser a marca do governo Dilma na economia.

O gráfico abaixo mostra que em 88% das vezes o comitê de política monetária (Copom) comandado por Alexandre Tombini decidiu modificar a taxa Selic que estava em vigor antes do encontro. Durante o período de Henrique Meirelles a mudança ocorreu em 66% das reuniões.

image

Em economia, os exercícios para estimar o que teria acontecido se outras decisões tivessem sido tomadas são sempre sujeitos a erros e imprecisões. Portanto, é difícil apontar se o BC agiu da maneira mais eficiente.

Em finanças, os cálculos são significativamente mais fáceis. Basta avaliar o comportamento do preço histórico de um ativo e contabilizar os ganhos e perdas em diferentes momentos, tendo em vista as diversas decisões possíveis.
 
As simulações mostram que é mau negócio tentar entrar e sair do mercado frequentemente, visando potencializar os ganhos com a alta do preço dos ativos e evitar as perdas nos períodos de baixa. O melhor é definir uma estratégia e seguir os objetivos traçados.

Os fundamentos para a boa gestão da política monetária são completamente diferentes daqueles usados na administração dos investimentos. No entanto, uma coisa é certa: idas e vindas da taxa de juros aumentam a volatilidade e diminuem o apetite para o risco.

A consequência é que, para diminuir a incerteza, os investidores tendem a dar preferência para as aplicações atreladas à taxa Selic ou indexadas à inflação. Por esse ponto de vista, o ativismo atrapalha o desenvolvimento do mercado.

Corte da nota do Brasil pode ter efeito moderado em juros

As notas de crédito atribuídas pelas agências de classificação de risco têm impacto relevante sobre o custo da dívida de empresas e países. Quanto melhor a classificação, menor tende a ser o desembolso com os juros dos financiamentos, e vice-versa.

A S&P (Standard & Poor’s) está reavaliando a economia brasileira. A expectativa é que o Brasil não perca o grau de investimento, mas o conceito do país pode cair. As taxas dos títulos públicos de longo prazo, negociados no mercado secundário, já incorporam essa possibilidade.

O gráfico abaixo compara a remuneração das NTN-B (Notas do Tesouro Nacional Série B) para 2024 e 2035 com a evolução do risco Brasil, segundo os critérios da S&P. A nota “BBB-” é a mínima para que os títulos sejam considerados investimentos seguros.

RiscoBrasil

Desde 1994, início da estabilização da economia, a S&P e as demais agências de risco vêm aumentando a nota do Brasil. O grau de investimento veio em 30 de abril de 2008.

Em 17 de novembro de 2011, a S&P subiu novamente a nota do Brasil, para a atual classificação “BBB”. É uma margem mais segura em relação ao grau de investimento.

As taxas de juros das NTN-B fizeram caminho oposto. Em agosto de 2005, quando a nota do Brasil era “BB-“, a NTN-B com vencimento em 2024 remunerava inflação mais 9% ao ano. Na época, a taxa Selic (juro básico) era de 19,75% ao ano.

No período em que o país conseguiu a classificação mínima para o grau de investimento, a remuneração dos papéis ficou em cerca de 6% ao ano. A Selic no período oscilou de 8,75% a 13,75% ao ano.

A melhora seguinte da nota de risco contribuiu para queda mais acentuada da taxa dos títulos. Tanto a NTN-B para 2024 quanto a para 2035 passaram a oferecer remuneração de cerca de 4% ao ano.

O Banco Central também conseguiu reduzir a Selic ao menor nível histórico, 7,25% ao ano, no período de outubro de 2012 a abril de 2013.

Mais recentemente, porém, as taxas de juros voltaram a subir. Entre os fatores que aumentaram a aversão ao risco dos investidores em relação aos títulos brasileiros está a possibilidade de rebaixamento da nota pelas agências.

A política monetária também foi impactada. A Selic está em 10,75% ao ano e muitos analistas acreditam que continuará a subir.

Desde que o governo mostre capacidade de reação para corrigir os rumos da política econômica, a revisão da nota para “BBB-” pode ter um impacto moderado nas taxas dos títulos.

O temor, no entanto, é que os ajustes fiquem apenas para depois das eleições. Um cenário que aumentaria o custo financeiro do país.

Parâmetros para negociar debêntures da Vale

Os mais de 2 mil investidores que compraram as debêntures incentivadas da Vale, com rendimento isento de imposto de renda (IR), contabilizaram ganho de capital de 4% em poucas semanas. Quem não conseguiu adquirir os títulos na oferta inicial avalia, agora, a atratividade das cotações no mercado secundário.

A principal vantagem do papel é proporcionar, para os investidores sujeitos ao IR, ganhos maiores do que a remuneração das NTN-Bs de prazo equivalente. Se negociadas com a mesma taxa de juros, a isenção de imposto das debêntures incentivadas representa ganho de aproximadamente dois pontos percentuais em relação à remuneração após IR dos títulos públicos.

As debêntures da primeira série foram emitidas com taxa de juros de 6,46% ao ano mais a variação do IPCA. Na mesma data, a NTN-B com vencimento em 15 de agosto de 2020 era negociada com taxa de 6,64% ao ano.

Para avaliar a conveniência do investimento nas cotações atuais é preciso reunir informações relevantes para desenvolver as análises. Apesar de complexo, o site http://www.debentures.com.br, administrado pela Anbima, disponibiliza referências importantes.

A Anbima agrega as informações dos títulos de renda fixa negociados na Cetip, sistema privado de custódia e liquidação financeira de ativos. Os negócios são acordados diretamente entre as partes, sem a intervenção de terceiros, num modelo conhecido como mercado de balcão. É um mecanismo diferente das transações em bolsas de valores, em que as cotações são públicas e passíveis de interferência dos demais investidores.

Visando dar maior transparência para a formação dos preços e aumentar a segurança dos aplicadores, Cetip e Anbima disponibilizam dados referentes aos preços de liquidação dos negócios, cotações indicativas e características dos papéis.

No mercado de renda fixa, o parâmetro de referência para as negociações é a taxa de juros do ativo. No entanto, a liquidação financeira ocorre pelo preço unitário (PU) do papel. E conciliar taxa de juros com PU nem sempre é tarefa fácil. Para calcular o preço de um título de renda fixa corrigido pela inflação é necessário dispor de duas informações básicas: o valor nominal atualizado (VNA) do ativo e um calendário que indique o número de dias úteis entre a compra e a data do pagamento de cada cupom de juros e amortizações. Esse é o primeiro passo para calcular a taxa de retorno do investimento.

Para os profissionais do mercado, a Anbima oferece uma calculadora específica. Para os demais investidores, a saída é contar com uma assessoria especializada para evitar erros que possam gerar prejuízos. Se isso não for possível, é prudente consultar as cotações de, pelo menos, duas instituições financeiras de confiança.

Com base nas informações reunidas pela Anbima, é possível verificar que as debêntures da primeira série da Vale, negociadas na Cetip com o código VALE18, tiveram valorização expressiva, o que fez com que as taxas de retorno recuassem para até 5,52% ao ano.

O gráfico abaixo compara a taxa de retorno da VALE18 com a remuneração da NTN-B 2020 desde 12 de fevereiro. Fica evidente que parte da valorização do preço de mercado da debênture ocorreu devido à queda das taxas de retorno da NTN-B 2020 e outra parte foi gerada pelo aumento da diferença entre o rendimento dos dois títulos.

Vale18

A acentuada demanda pelos papéis da Vale, que derrubou as taxas de retorno em um primeiro momento, pode ser justificada pela vantagem da isenção do IR. No entanto, é importante definir parâmetros objetivos para evitar decisões precipitadas. Afinal, como mostra o gráfico, as cotações tendem a apresentar maior oscilação que o título público.

Existe um risco elevado ao comprar um título privado com prazo de vencimento tão longo. Se for preciso se desfazer do ativo em um momento ruim do mercado, a alternativa é vender para investidores qualificados, que possuem regra diferente para o recolhimento do IR. É importante acompanhar a evolução do mercado para identificar boas oportunidades de compra. E evitar armadilhas, reunindo a maior quantidade de informações possíveis.

Diversificação de acordo com Berkshire Hathaway

Os entusiastas das estratégias de investimento que enfatizam a busca ativa por maiores retornos com certeza foram surpreendidos com o teor da última carta de Warren Buffett, endereçada aos acionistas de sua companhia, a Berkshire Hathaway.

Um extrato da carta foi publicado na última semana de fevereiro. Considerado o investidor mais bem sucedido do mundo, Buffett sempre defendeu princípios simples para embasar as decisões de investimento. Mas, desta vez, parece ter radicalizado.

O argumento é que ninguém precisa ser um especialista em finanças para fazer boas aplicações. No entanto, para quem não tiver condições de entender detalhadamente as características da transação, o melhor é confiar nos produtos indexados a índices de mercado.

A recomendação para quem quer investir em ativos de risco, então, é comprar fundos atrelados ao S&P 500, índice que reúne 500 ações de empresas americanas. O fato de o indicador estar próximo à cotação recorde é irrelevante e nem sequer foi mencionado no texto.

Desde que a taxa de administração seja baixa, indexar é a melhor alternativa. A característica de um fundo de ações passivo é dar ao investidor a possibilidade de participar de diversos bons negócios, que foram duramente testados ao longo dos anos. Esse grupo de empresas merece um voto de confiança, pelo menos no mercado americano.

Buffett tem faro para fazer bons negócios. Cita o exemplo de dois investimentos pequenos em comparação à sua fortuna para enfatizar a importância de conhecer bem o terreno onde se pisa. Ele admite que comprou uma fazenda sem entender o funcionamento do setor agropecuário e um prédio de escritórios sem nunca ter visitado o imóvel. Mas ressalva que analisou detalhadamente o potencial de geração de caixa dos empreendimentos e acreditava que o preço era suficientemente baixo para produzir bons retornos. O que aconteceu.

O ponto de Buffett é que ele conseguiu atingir o sucesso porque desenvolveu seu método durante uma longa carreira. E foi hábil em aprender com os erros. Para o investidor que não tem tempo ou interesse de fazer experiências, a melhor decisão, portanto, é indexar a carteira.

E essa foi a recomendação que deu aos administradores da parte de sua herança que será destinada à mulher. Sugeriu aplicar 90% em um fundo com baixa taxa de administração vinculado ao S&P 500 e 10% em ativos com liquidez imediata.

O argumento de que investir em ações é mais rentável do que aplicar em títulos de renda fixa faz sentido do ponto de vista conceitual. Afinal, se as companhias não conseguirem gerar lucros acima dos juros de mercado, a tendência é de fecharem as portas. No Brasil, essa dinâmica relativamente simples ainda não deslanchou, pelo menos conforme capturado pela baixa popularidade dos fundos atrelados ao Ibovespa, principal indicador da bolsa brasileira. Desde 2007 até 2013, o índice teve ganho equivalente a 2,12% ao ano. O S&P 500, em comparação, rendeu 3,85% ao ano no mesmo período.

Hoje, a preferência dos aplicadores brasileiros é pelos fundos com gestão ativa, até por conta dos custos geralmente elevados com as taxas de administração das carteiras indexadas. A expectativa de quem aplica na bolsa passou a ser de ganhar mais do que o Ibovespa.

A maior distorção no Brasil continua sendo os altos juros. Mesmo na fase recente, em que a Selic se aproximou do patamar de um dígito, a rentabilidade de uma carteira composta por títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional foi de 11,21% ao ano, quase cinco vezes mais do que o Ibovespa.

Os títulos de renda fixa americanos, segundo o índice “Barclays Capital US Aggregate Bond Index”, renderam 4,91% ao ano entre 2007 e 2013. Mas foi um período excepcional, em que as taxas de juros caíram até níveis extremamente baixos devido à política monetária praticada nos EUA. Quando os juros de mercado caem, os títulos de renda fixa já emitidos se valorizam.

Buffett

Outra diferença entre os mercados nos EUA e no Brasil é que o S&P 500 representa melhor o conjunto da economia americana do que o Ibovespa em relação ao total das empresas brasileiras. Por essa razão, os investidores americanos têm mais facilidade para indexar a carteira de ações.

Mesmo assim, os alertas de Buffett podem ser adaptados ao ambiente brasileiro. Identificar bons negócios é sempre tarefa difícil e aplicar nesses empreendimentos envolve a gestão de uma série de riscos que podem, eventualmente, pulverizar o retorno esperado.

Em contrapartida, comprar e vender ativamente ações na bolsa é tarefa simples e realizada de forma cada vez mais eficiente. O problema dessa estratégia é que não há nenhuma garantia de que as apostas serão lucrativas. Pelo contrário. Diversos estudos apontam que a negociação constante aumenta acentuadamente os custos do investidor, que acaba tendo lucro inferior à média de mercado.

De qualquer forma, com a internacionalização do mercado de capitais, uma nova oportunidade parece aberta aos investidores brasileiros que preferem indexar as aplicações: comprar títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional e ações de companhias americanas que fazem parte do S&P 500.

Debêntures da Vale isentas de IR têm demanda expressiva

O sucesso da captação de R$ 1 bilhão de debêntures emitidas pela mineradora Vale colocou em xeque o senso comum de que o investidor brasileiro possui apenas visão de curto prazo. O vencimento dos títulos varia de 7 a 15 anos e a empresa usará os recursos para financiar a expansão das atividades operacionais. Quase 90% do volume da emissão foi comprado por mais de 2 mil pessoas físicas.

O desejo de conseguir proteção contra a inflação, a vantagem de não pagar Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos da aplicação e o alto grau de reconhecimento da companhia foram os fatores decisivos para o sucesso da operação. Uma demanda crescente por papéis indexados aos índices de inflação vem sendo criada devido às dúvidas sobre a real capacidade do governo em manter a alta dos preços em patamares controlados. A oferta da Vale preencheu justamente essa lacuna.

Além disso, é consenso entre os aplicadores de que o imposto de renda que incide sobre o rendimento das operações financeiras é um assunto complexo. A forma de tributação, com várias alíquotas que mudam conforme o prazo da operação, confunde e atrapalha o investidor que busca a alocação mais eficiente para o seu capital.

Desse modo, em vez de concentrar seus esforços para manter a composição mais eficiente de sua carteira, o aplicador também precisa administrar o prazo decorrido de cada título. Por isso, devido à simplicidade, as alternativas isentas de IR vêm ganhando popularidade.

E como a Vale é uma das maiores empresas do país, passou pelo processo de privatização e possibilitou que os trabalhadores pudessem comprar ações usando parte do saldo depositado no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), terminou construindo uma sólida reputação entre os investidores.

A combinação desses fatores fez com que a companhia conseguisse captar recursos com taxas mais baixas do que as oferecidas pelo Tesouro. O parâmetro de referência para a operação foram as Notas do Tesouro Nacional da série B (NTN-B), que são corrigidas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e rendem também mais uma taxa prefixada de juros.

A emissão foi dividida em quatro séries. A primeira foi vendida com taxa de 6,46% ao ano. A remuneração da segunda série foi de 6,57% ao ano, a taxa da terceira chegou a 6,71% ao ano e o retorno da quarta série alcançou 6,78% ao ano. Para todas as séries, além das respectivas taxas, a remuneração total é acrescida da variação do IPCA.

No dia 10 de fevereiro, data da publicação do anúncio de início da distribuição, o rendimento das debêntures de cada uma das séries estava aproximadamente 0,1 ponto percentual abaixo das NTNs-B de prazo equivalente.

No entanto, considerando o efeito do IR sobre os rendimentos dos títulos públicos e comparando o retorno das duas modalidades, as debêntures acabam levando vantagem. Assim, o rendimento líquido dos papéis das três séries mais curtas superava em 1,6 ponto percentual a NTN-B equivalente. E o ganho relativo da série mais longa era de 1,2 ponto percentual.

DebVale

Um ponto importante a ser acompanhado é a liquidez dos títulos. Como o incentivo das pessoas físicas foi a isenção do IR, os papéis saíram sem o prêmio sobre o risco de crédito. É pouco provável que os investidores institucionais, que não têm o benefício fiscal, comprem títulos da Vale com rentabilidade inferior aos papéis públicos. O volume de transações no mercado secundário, então, tende a ser pequeno.

De qualquer forma, o sucesso da emissão da Vale mostra que as boas alternativas de investimento estarão sempre no radar dos aplicadores e com potencial para atrair o interesse de milhares de brasileiros.

Mercado de ações difícil nos últimos anos

Por qualquer parâmetro que se avalie, o desempenho das ações brasileiras nos últimos anos foi muito ruim. Desde 31/10/2010, data da eleição da presidente Dilma, até o fim de fevereiro de 2014 a rentabilidade do Ibovespa foi de -33%, o IBrX perdeu 17%, o índice Midlarge Cap (que acompanha as maiores empresas) caiu 10% e o Small Cap (focado nas companhias de menor porte) registrou baixa ainda maior, de quase 20%.

Houve exceções. Quem aplicou R$ 1 mil distribuídos igualmente entre Ambev, Cielo e Telefônica mais do que dobrou o capital no período, acumulando R$ 2.267. Mas quem escolheu Gerdau, BM&FBovespa e Oi saiu no prejuízo, resgatando apenas R$ 689.

É razoável que o retorno das aplicações em renda variável apresente forte oscilação e muita dispersão entre os diferentes papéis. Isso ocorre por duas razões principais.

A primeira é que existe muita incerteza sobre a capacidade de qualquer empresa conseguir manter o mesmo patamar de rentabilidade ao longo dos anos. Na busca de pistas sobre o desempenho futuro, os resultados trimestrais são avaliados minunciosamente assim que divulgados. O efeito colateral é que muito ruído de comunicação acaba sendo produzido, aumentando as incertezas.

O segundo motivo é que fatores específicos podem afetar uma companhia de maneira diferente de sua concorrente. A melhor capacidade de gestão, o acesso mais eficiente à modalidades de financiamentos ou a ênfase na pesquisa de novas tecnologias podem garantir uma real vantagem para determinada empresa, valorizando as cotações acima da média do mercado.

De qualquer forma, o cenário macroeconômico tem um impacto fundamental no resultado das empresas. E os últimos anos foram particularmente atribulados no Brasil.

O gráfico abaixo resume uma das facetas das idas e vindas da política econômica nos anos recentes. A linha azul mostra a evolução da taxa Selic e a linha vermelha indica a inflação acumulada em períodos de 12 meses, medida pelo Índice Nacional e Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

image

No início do mandato da presidente Dilma, a taxa Selic estava fixada em 10,75% ao ano e a inflação acumulada em 12 meses girava em torno de 6%. Após diversas tentativas implantar mudanças no modelo econômico para diminuir a diferença entre juros e inflação, a taxa básica está atualmente em 10,5% ao ano e O IPCA acumula 5,6%.

Essa sensação de que o país não evoluiu de maneira significativa nos últimos anos pode ser uma das explicações para o fraco desempenho da bolsa no período.

Não significa que os investidores devam descartar esse tipo de investimento. Mas é preciso cautela.

Para lidar com prejuízos em títulos públicos

Nenhum investidor questiona ter feito um bom negócio quando comprou um título de renda fixa com taxa de 7% ao ano e viu, em seguida, juros caírem a 3%.

O lucro patrimonial provocado pela chamada “marcação a mercado” é refletido na valorização do título. O aumento da cotação aumenta a sensação de riqueza do aplicador. A tendência é de a confiança crescer e estimular aquisições dos mesmos papéis, para repetir, indefinidamente, a fórmula de sucesso.

Mas quando ocorre o inverso, poucos admitem ter feito um mau negócio. O mais frequente é o investidor assumir que o valor de mercado é meramente uma referência contábil, quase irrelevante a quem vai manter o título até o vencimento.

O conselho mais comum é ter paciência, não se desfazer da aplicação e evitar materializar o prejuízo. Ao investir em um título público, existe a certeza de que o valor do principal sempre será pago no fim do prazo, com juros e correção.

Os especialistas em finanças comportamentais, campo de estudo que trabalha com as armadilhas da mente, estudam esse tipo de assimetria. O excesso de confiança aparece após ganhos excepcionais e justifica o aumento de posições nas estratégias que foram lucrativas no passado.

Mas a dor da perda é maior do que o prazer do lucro. Quando as coisas dão errado, nossa mente cria cenários para justificar decisões equivocadas e insistir em aplicações que estão gerando prejuízos.

O arrependimento também exerce uma função importante sobre as estratégias. Como sempre existe a possibilidade de que perdas sejam eliminadas devido à valorização dos títulos, postergar as ações parece ser, em muitos momentos, a decisão mais sensata.

Para evitar entrar em uma espiral que, no fim das contas, impeça a escolha do melhor caminho a ser seguido, o ideal é tentar analisar os fatos da maneira mais objetiva possível. E a comparação dos dados históricos é um dos instrumentos que podem ajudar a sair do impasse.

Do dia 24 de janeiro de 2013 até 7 de fevereiro de 2014, as Notas do Tesouro Nacional da Série B Principal (NTN-B Principal), títulos corrigidos pela inflação e com pagamento de principal e juros apenas no vencimento, tiveram perdas expressivas. O título com vencimento em 2024, por exemplo, perdeu mais de 20%.

Uma aplicação hipotética de R$ 100 no início do período valeria hoje apenas R$ 78. Já são 261 dias úteis, equivalentes a pouco mais de um ano, com retorno no território negativo.

NTNBemDoisMomentos

A queda no valor de mercado dos títulos públicos desde o início de 2013 foi impressionante. E também inédita. Em seu conjunto, as NTN-Bs geraram prejuízo de quase R$ 100 bilhões aos investidores. E os títulos prefixados chegaram a perder R$ 20 bilhões no período de pouco mais de 30 dias, a partir da última semana de maio de 2013.

A discussão se o valor das perdas é meramente contábil ou se é um prejuízo efetivo acaba sendo irrelevante para o sentimento geral. Principalmente porque a desvalorização na fase atual foi praticamente constante, ao contrário do que aconteceu na crise de 2007 e 2008.

Naquele momento, o preço de mercado da NTN-B Principal com vencimento em 2024 oscilou de forma semelhante a um “W”: quedas expressivas foram seguidas por períodos de rápida recuperação.

Mesmo com as medidas adotadas pelos governos dos países centrais para tentar debelar a crise financeira, existiam dúvidas sobre se os problemas seriam resolvidos. As incertezas provocavam muita oscilação no preço de ativos.

Em uma visão retrospectiva, o sobe e desce de 2007 a 2008 acabou provocando menos desconforto para os detentores de títulos públicos. Como a correção dos preços era forte e rápida, havia estímulo para segurar as posições.

Mesmo assim, foram 387 dias úteis, cerca de um ano e meio, até que a cotação da NTN-B Principal de 2024 voltasse aos patamares de antes da crise. O investidor precisou de sangue frio para manter os papéis.

O desconforto atual com a queda do preço da NTN-B Principal está associado a uma corrida pela proteção contra a inflação. Como o governo passou a indicar que um pouco mais de inflacão não era um problema desde que o país apresentasse taxas de crescimento mais elevadas, houve aumento da procura por refúgio contra a alta dos preços.

Mas, contraditoriamente, os ganhos excepcionais com as NTN-Bs ocorreram porque a inflação se estabilizou e os juros caíram. Muitos acertaram pelos motivos errados.

Mesmo que a intenção seja levar os títulos até o vencimento, é importante avaliar se a oscilação do preço de mercado é compatível com a tolerância a perdas do investidor. Por melhor que seja o planejamento financeiro, ninguém pode dizer com certeza quando irá precisar dos recursos aplicados.

A queda dos preços da NTNB-Principal pode ser uma boa oportunidade de compra, desde que o risco do investimento seja compatível com os objetivos traçados.

Ninguém segura a poupança

Em janeiro de 2014, a captação líquida da caderneta de poupança caiu 24% em relação ao mesmo período do ano passado. E o número de dias que registraram resgates maiores do que aplicações foi duas vezes maior do que os dias com captação positiva, igualando o pior desempenho para o mês, ocorrido em 2012.

Mesmo assim, os dados apontam que o volume mensal de depósitos foi de R$ 128 bilhões, o que representa crescimento de 13% sobre janeiro de 2013. E o saldo da aplicação chegou a R$ 603 bilhões, aumentando 20% no período.

image

Com esses números iniciais e as turbulências do mercado, é possível que a poupança caminhe para um novo recorde de captação em 2014. Se é uma notícia boa ou ruim para o financiamento da dívida pública, ainda é um assunto em aberto.

Mas se os juros continuarem altos, os fundos DI devem superar o rendimento da caderneta, mesmo consideranddo o Imposto de Renda.

Comida de tubarão

Existem 14 mil fundos de investimentos no Brasil, mas ninguém sabe dizer ao certo quantas carteiras estão efetivamente disponíveis para receber aplicações dos investidores. Os rankings dão algumas pistas.

Reportagem de Luciana Seabra, do Valor, listou os fundos com gestão ativa que conseguiram retorno de dois dígitos no ano passado. No total foram 41 carteiras.

Comparar a rentabilidade passada dos fundos de investimento é pouco eficiente para escolher a modalidade com maior potencial no futuro. Afinal, o desempenho histórico não garante os ganhos daqui para frente.

Mas esse tipo de levantamento possui uma vantagem: torna familiar alguns nomes. Isso é particularmente relevante em um mercado exageradamente pulverizado e que possui como característica a falta de anúncios e publicidade dos gestores.

Além disso, é importante conhecer as razões que fizeram com que algumas carteiras ficassem de fora do ranking. Na listagem da reportagem, foram eliminados os fundos com menos de 100 cotistas e patrimônio líquido inferior a R$ 50 milhões em 31 de dezembro de 2013.

É um critério arbitrário e que pode causar injustiças. Mas evita constrangimentos. Por exemplo, determinado fundo de um bom gestor que teve ótimo desempenho no ano passado não entrou na relação porque a carteira era muito pequena.

Apesar da rentabilidade acumulada de cerca de 20% no ano passado, o fundo deu prejuízo para a maioria dos cotistas. Desde o início até hoje, a perda foi de R$ 2 milhões.

Isso ocorreu porque a rentabilidade foi alta enquanto o patrimônio era baixo. No momento em que o montante da carteira começou  crescer, o desempenho piorou.

O gráfico abaixo ilustra a captação acumulada, no eixo da esquerda, e o rendimento total acumulado da carteira, no eixo da direita. Depois de receber aportes de mais de R$ 40 milhões, o fundo passou a sofrer com a queda da rentabilidade. Em curto período, as perdas chegaram a R$ 4 milhões.

image

No atual ambiente extremamente volátil, é prudente escolher bem as aplicações em fundos para escapar de, involuntariamente, transformar os investimentos em ração para os grandes tubarões do mercado.