O que justifica a valorização das ações no Brasil

No fim deste mês o Ibovespa pode estabelecer uma marca pouco comum. Se o índice fechar acima dos 60 mil pontos, alcançará o quinto trimestre consecutivo de rentabilidade positiva. Atualmente é negociado no patamar de 65 mil pontos.

A última vez que isso ocorreu foi no intervalo entre janeiro de 2009 até março de 2010. A alta acumulada naquele período foi de 87% e corrigiu parte das perdas contabilizadas desde 20 de maio de 2008, ainda hoje o ponto mais alto da série histórica do indicador.

No ano passado o Ibovespa subiu 39%. Petrobras e Vale, duas das principais empresas que fazem parte da carteira do índice, mais do que dobraram de valor.

Fim da recessao

A alta no preço das commodities no mercado internacional justificou grande parte do otimismo com a bolsa brasileira e refletiu na cotação das duas gigantes nacionais. O resgate de ambas empresas da ingerência política que contaminou os negócios das companhias, especialmente no caso da Petrobras, também ajudou na recuperação das cotações.

A esperança que embasa a alta das ações no Brasil é que a economia mundial volte ao ciclo de crescimento econômico. Com a maior demanda por parte dos países industrializados, a tendência é de valorização dos preços de insumos industriais e produtos agrícolas.

Além de beneficiar diretamente as empresas envolvidas nessas atividades, é possível vislumbrar outros ganhos para a economia brasileira. Um dos mais palpáveis é o clima de otimismo em relação aos investimentos produtivos.

O expressivo volume de investimentos estrangeiros diretos no Brasil no ano passado corrobora essa tese. Os dados do balanço de pagamentos divulgados pelo Banco Central apontam para entradas líquidas de mais de 70 bilhões de dólares em 2016.

Mesmo que boa parte dos recursos registrados nessa rubrica seja direcionado para a aquisição de negócios já existentes, o montante de investimentos estrangeiros é significativo. Podem representar, também, uma adequação do balanço de ativos e passivos das companhias, reduzindo o endividamento e dando novo fôlego aos negócios.

Mantendo o clima de otimismo, o Ibovespa acumula alta de quase 10% em 2017. Mas os motivos, agora, parecem um pouco diferentes. Avaliando o comportamento das ações integrantes do IBrX-100, um índice semelhante, mas que engloba quantidade maior de ativos, é possível identificar algumas tendências.

De acordo com o padrão de classificação das empresas por áreas de atuação, conforme definido pela Morningstar, é possível segmentar setorialmente as companhias que fazem parte do IBrX-100. A vantagem é que essa classificação obedece uma metodologia global, aplicável em todos os mercados mundiais.

Existem três grandes grupos de setores de atividade: cíclicos, defensivos e sensíveis. A lógica dessa classificação é agrupar as empresas conforme a influência sobre os negócios, de acordo com as condições gerais da economia.

Fatores específicos podem afetar o desempenho das ações de uma companhia em particular, tais como desenvolvimento de novos produtos, fusões com outras empresas, aquisições de concorrentes ou exploração de novos mercados. No entanto, empresas com atuação no mesmo setor tendem a se comportar de maneira semelhante.

A principal característica das empresas dos setores cíclicos é serem muito afetadas pelas oscilações da economia. Num ambiente de expansão as empresas tendem a ir muito bem, mas se há uma recessão, as companhias enfrentam dificuldades.

Exemplos de setores cíclicos são a indústria química, papel e celulose, varejistas, restaurantes, setor financeiro e imobiliário.

As empresas dos setores defensivos são, de certa forma, imunes ao comportamento econômico. Isso porque os produtos comercializados possuem demanda aproximadamente estável.

Os exemplos são os fabricantes de bebidas, alimentos processados, serviços de educação, saúde e provedores de água, luz e gás.

Já as companhias dos setores sensíveis tendem a ser afetadas pelos altos e baixos da economia, mas de forma menos intensa do que as companhias cíclicas. Como exemplos estão os serviços de comunicação, o setor de energia, aeroespacial, aviação, engenharia e tecnológico.

Nesse primeiro trimestre o setor de consumo cíclico apareceu como destaque. A rentabilidade média das ações deste segmento e que fazem parte do IBrX-100 foi mais de duas vezes superior ao Ibovespa.

Esse conjunto inclui varejistas, empresas de incorporação imobiliária e operadores de viagens. São negócios fortemente afetados pela conjuntura econômica doméstica.

A aposta atual na bolsa é que a economia brasileira sairá rapidamente da atual recessão. Entretanto, é um risco que deve ser administrado com cuidado.

Formas de escolher entre diferentes tipos de investimento

Considere que, após fazer um teste para avaliar o seu perfil de investidor, você tenha a opção de aplicar em três carteiras com características diferentes: conservadora, moderada ou agressiva.

A carteira conservadora engloba títulos atrelados ao CDI, papéis prefixados e fundos multimercados. A moderada inclui, além das opções da carteira conservadora, ativos indexados à inflação e ações negociadas no Brasil. Já a carteira agressiva reúne, também, ações negociadas no mercado internacional.

A participação de cada modalidade de ativo no total varia conforme o perfil da carteira. Na conservadora o peso dos títulos atrelados ao CDI é equivalente a 85% do total do patrimônio. Na carteira agressiva, o percentual cai para apenas 10%.

Já a participação das ações negociadas no mercado local é inexistente na carteira conservadora, representa 5% na carteira moderada e sobe para 15% na agressiva. O peso de cada classe de ativo nas três carteiras está ilustrado no gráfico.

Chassi

Por trás dessa distribuição está a ideia de que quanto mais conservadora a carteira, mais previsível será a rentabilidade, se medida como um percentual da variação do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI).

Em contrapartida, quanto mais agressiva, mais distante será o retorno em relação ao CDI. Preferencialmente no território positivo, mas não há garantia de que isso vá acontecer.

No mercado financeiro brasileiro o CDI é considerado como sendo a taxa livre de risco. Significa que para ganhar mais do que o indicador é preciso arriscar.

Existem dois tipos de risco que o investidor pode assumir para tentar aumentar a rentabilidade dos investimentos. Um é chamado de risco de crédito e outro de risco de mercado.

O risco de crédito é ilustrado por uma opção comumente oferecida pelas corretoras. São os títulos emitidos pelos chamados bancos de segunda linha. Geralmente a modalidade tem a vantagem adicional de ter os rendimentos isentos do imposto de renda.

Para tornar as operações mais seguras e minimizar eventuais problemas de inadimplência, a recomendação é não ultrapassar o limite de garantia oferecido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Essa instituição é uma espécie de seguradora que garante depósitos bancários até o limite de R$ 250 mil, sob certas condições.

Ainda como opção, no mercado de capitais existem os títulos de empresas vendidos em ofertas públicas. Geralmente são papéis emitidos por empresas renomadas, comercializados respeitando os critérios da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e com classificação de risco atribuída por agências de “rating”.

No setor de gestão de recursos, a alternativa são os fundos DI com crédito privado. Os administradores das carteiras criam estruturas profissionais para escolher os títulos de emissores potencialmente mais rentáveis, respeitando critérios de segurança.

Em relação ao risco de mercado, as principais opções são os fundos multimercados, os títulos prefixados ou atrelados à inflação e os chamados ativos de renda variável, tais como ações negociadas em bolsa ou fundos de ações.

A diferenciação entre as composições das carteiras conservadora, moderada e agressiva possui uma lógica relacionada ao tamanho do risco de mercado assumido.

A participação de cada classe de ativo nas carteiras é estabelecida de acordo com três fatores: o grau de variabilidade da rentabilidade histórica, a expectativa de retorno para o futuro e a tendência de apresentarem comportamento similar ou oposto quando analisadas em conjunto. O objetivo é atingir a melhor combinação possível de acordo com o patamar de risco estabelecido.

É por essa razão que a carteira agressiva possui a maior participação em ativos de renda variável. E carteira moderada fica numa faixa intermediária.

Existe uma forma alternativa para montar uma carteira com maior risco de mercado. A estratégia é concentrar as aplicações em um ativo principal que seja o mais seguro possível e participar de uma série investimentos satélites extremamente mais arriscados com pesos aproximadamente iguais.

A imagem é a de um grande planeta rodeado por diversos satélites. Ou a de uma barra de levantamento de pesos: o peso de uma das pontas representa o investimento conservador e os pesos da outra ponta representam os ativos mais arriscados, sem nada no meio.

A despeito da forma escolhida para montar a carteira, é importante estabelecer um plano de investimento. E ter segurança de que as aplicações são compatíveis com as metas definidas.

A maneira ideal para diversificar as aplicações financeiras

O cenário de bolsa subindo com juros e dólar caindo é um forte incentivo para sair das tradicionais aplicações indexadas ao Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI).

Bancos e corretoras tem sido ágeis em oferecer aos investidores opções para diversificar a carteira. Mas, muitas vezes, as ofertas são caras ou complexas.

Entre as diversas alternativas, as que mais têm chamado a atenção no momento são as aplicações em ações, títulos de renda fixa, fundos de investimento com estratégias agressivas e modalidades envolvendo os Certificados de Operações Estruturadas (COE).

Mas é preciso cautela para compreender os perigos envolvidos em cada opção. O simples aumento do risco da carteira não implica, necessariamente, maior rentabilidade.

Como regra geral, a diversificação das aplicações financeiras é positiva. Isso porque tem o potencial de proporcionar maior retorno e, ao mesmo tempo, diminuir a oscilação dos ganhos.

A ideia é que se determinado investimento tiver prejuízo num certo período, a rentabilidade dos demais ativos compensará aquela perda. Ao longo do tempo, a média do rendimento do conjunto das aplicações tenderá a ser favorável.

No entanto, para que estratégia funcione, é preciso evitar ativos cujas cotações subam e desçam todas ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. No jargão de mercado, os ativos devem ter correlação baixa.

Suponha que você queira diversificar investindo em dois fundos de investimento multimercado que sigam, rigorosamente, o “kit Brasil”. Significa que ambos possuem partes da carteira comprada em títulos prefixados, vendida em dólar e aplicada em bolsa.

Como os dois fundos seguem a mesma política de investimento, não há diversificação. Se um fundo tiver prejuízo, o outro também registrará perdas.

Nesse caso hipotético é preferível concentrar a carteira, escolhendo somente um fundo. A diversificação produz apenas complexidade para o controle das operações.

Outra vantagem da diversificação é estabelecer alocações estratégicas, visando alcançar os objetivos de longo prazo. Um exemplo é a poupança para a aposentadoria.

É razoável manter parte dos investimentos destinados à aposentadoria em aplicações atreladas ao índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Isso garante a manutenção do poder de compra no futuro.

Ao destinar parcela da poupança para títulos tais como as Notas do Tesouro Nacional da série B (NTN-B) o investidor garante que o capital será corrigido pela inflação mais uma determinada taxa de juros. É uma forma de tentar atingir a independência financeira de maneira mais segura.

A diversificação também é interessante para aproveitar oportunidades de curto prazo. No jargão, essa forma de investir é chamada de alocação tática.

Considere o cenário atual de queda de juros e alta da bolsa que vem ocorrendo a despeito de todos os problemas políticos e econômicos do país. Apesar das incertezas envolvendo conjecturas sobre o potencial de crescimento dos lucros das empresas e a sustentabilidade da queda dos juros, existe uma oportunidade de ganhos no curto prazo.

Para tentar lucrar nesse ambiente mais otimista, a recomendação é investir em títulos prefixados e em ações negociadas na Bovespa.

Nos últimos meses o retorno tem compensado os riscos. O gráfico ilustra a rentabilidade e a volatilidade dos principais indicadores de mercado nos últimos 12 meses.

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Além do CDI, estão destacados outros quatro indicadores. O IRF-M e o IMA-B são índices que medem o comportamento de uma carteira de títulos públicos prefixados e uma cesta de NTN-Bs, respectivamente. A variação do dólar em relação ao Real e o desempenho do Ibovespa também estão assinalados no gráfico.

O retorno é medido no eixo vertical e o risco no eixo horizontal. A leitura do gráfico indica que, no período analisado, os ativos mais arriscados tiveram rentabilidade mais elevada. A exceção foi o dólar.

Em termos práticos, o investidor possui duas maneiras de diversificar os investimentos: por meio de bancos ou de corretoras.

Nos bancos, a tendência é que o investidor encontre pacotes fechados, sem muita possibilidade de ajustes das alocações para atender necessidades específicas. Além disso, os custos das alternativas oferecidas tendem a ser mais elevados.

Nas corretoras, é possível montar uma carteira individualizada. Mas é preciso possuir conhecimentos sobre as operações para evitar armadilhas e prejuízos.

Dependendo do perfil do investidor, ambas as possibilidades são recomendáveis.

“Kit Brasil” pode voltar a dar ganhos expressivos em 2017

Após um intervalo de cinco anos, a estratégia de operar comprado em bolsa, vendido em dólar e apostando na queda dos juros voltou a dar lucro no ano passado. Essa combinação ficou conhecida como kit Brasil e deu excelentes resultados no período de oito anos entre 2003 e 2010.

Conforme calculado pelo sistema Morningstar Direct, uma carteira teórica formada por uma posição equivalente a um terço do patrimônio investido no índice Bovespa, um terço vendido na variação do dólar Ptax, um terço aplicado no índice que reflete o comportamento de uma carteira de títulos públicos prefixados com vencimento acima de um ano (IRF-M1+) e o restante do capital atrelado ao CDI registrou uma boa relação de risco e retorno em 2016.

A rentabilidade desse investimento hipotético teria sido de 40% no ano passado, com volatilidade de 15%. O retorno excedente em relação ao CDI foi de 22,7% e o índice de Sharpe, 1,5. A premissa é que o peso das posições foi ajustado mensalmente ao longo do ano.

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O índice de Sharpe é uma medida para avaliar se o retorno adicional em relação à taxa livre de risco – nesse caso o CDI – compensou o risco assumido. O indicador busca comparar a eficácia das diversas estratégias de investimento possíveis.

A ideia é que, a despeito da rentabilidade final conseguida, o investidor sempre prefere o ganho máximo possível para um determinado nível de risco. Essa é a razão para avaliar o lucro das posições como proporção da volatilidade dos rendimentos.

Para 2017 é possível que o kit Brasil continue oferecendo resultados acima do CDI. Isso porque, devido ao otimismo em relação aos ajustes das contas públicas, as projeções indicam que o Brasil voltará a entrar num longo ciclo de queda dos juros, com a taxa de câmbio valorizando e a bolsa avançando, apesar de toda a incerteza causada pelo atual ambiente econômico desfavorável.

Mas os ganhos potenciais com a estratégia estão longe de serem favas contadas. É fundamental que ocorram melhoras concretas nos principais indicadores macroeconômicos do país.

A análise da composição da carteira de 5 de janeiro do IRF-M1+ exemplifica os desafios. A taxa média dos títulos que compõem o indicador era de 11,14% ao ano. Para que o índice termine 2017 com ganhos acima do CDI, será preciso que os juros médios dos papéis de longo prazo continuem caindo.

Para a taxa de juros de curto prazo, as projeções são de queda. A mediana das estimativas coletadas pelo Banco Central (BC) indica que a taxa Selic chegará em dezembro de 2017 no patamar de 10,25% ao ano. Atualmente a taxa básica está em 13,75% ao ano.

Os juros de curto prazo influenciam a remuneração dos títulos de longo prazo. Mas nem sempre essa relação é direta.

Já houve situações em que os juros de longo prazo subiram, apesar da queda da taxa Selic. Isso tende a ocorrer quando o corte da taxa básica de juros não é acompanhado pela queda da projeção para a inflação.

Hoje a estimativa para inflação em 2017 é de 4,81%, menor do que há quatro semanas quando era de 4,90%. No entanto, as projeções ainda estão acima do centro da meta de 4,5% perseguida pelo BC, o que gera incertezas sobre o ritmo de queda dos juros.

A cotação do dólar é mais difícil de ser prevista. A mediana das estimativas divulgadas pelo BC indica que a taxa será de R$ 3,45 em dezembro de 2017, acima da cotação atual de aproximadamente R$ 3,20.

Entretanto, tendo em vista a redução expressiva do resultado negativo das contas correntes do balanço de pagamentos do Brasil, que saiu de déficit de 104 bilhões de dólares em 2014 para perdas de cerca de 20 bilhões de dólares em 2016, é provável que as projeções sejam revistas.

Além disso, o volume elevado de reservas internacionais e a queda marcante do consumo das famílias indicam que é pouco provável que o dólar suba se não houver graves incertezas políticas.

Já a bolsa tem mostrado sinais discrepantes. O ambiente de negócios continua difícil e as projeções para os lucros das companhias continuam baixos. Em contrapartida, o aumento do preço das commodities e a reorganização da governança da Petrobras refletiram positivamente no índice Bovespa em 2016 e podem continuar sendo um fator de alta para 2017.

Adicionalmente, o volume de investimentos estrangeiros diretos na economia continua em patamares elevados, indicando uma aposta na recuperação do resultado das empresas brasileiras.

Tudo ponderado, e apesar das incertezas, uma carteira balanceada e com risco controlado, apostando no kit Brasil, tende a proporcionar ganhos nos próximos 12 meses.

Reforma da previdência: equilíbrio atuarial, mas ainda longe do justo

Ao estabelecer a idade mínima de aposentadoria e vincular o cálculo dos benefícios ao tempo de contribuição, o projeto de reforma da previdência resolve os potenciais desequilíbrios estruturais do sistema. Mas é preciso avançar para equacionar as distorções que continuarão afetando trabalhadores e empresas.

Pela proposta, se uma pessoa começasse a trabalhar hoje aos 30 anos, com rendimentos mensais de R$ 1,5 mil e contribuísse por 35 anos para o INSS, teria direito a aposentadoria de 86% do salário a partir dos 65 anos de idade. A premissa desta simulação é que não ocorrerão ganhos salariais reais – acima da inflação – durante toda a carreira.

Assim, a contribuição previdenciária do trabalhador seria de 8% sobre os rendimentos e a empresa desembolsaria outros 20%. Assumindo, por hipótese, que as contribuições previdenciárias fossem segregadas em aplicações financeiras com rendimentos de 2,5% ao ano acima da inflação, no fim do período de 35 anos o montante acumulado atingiria R$ 280 mil.

Com esse valor, seria possível financiar o resgate mensal de R$ 1.290 que o trabalhador receberia como aposentadoria até que completasse 89 anos. Como a expectativa de vida de uma pessoa que chega aos 65 anos hoje no Brasil é de 85 anos, o sistema de previdência administrado pelo INSS tenderia a registrar um superávit atuarial.

Com juros maiores, o sistema seria ainda mais superavitário. Hoje a remuneração dos títulos públicos com prazo de vencimento de 33 anos é de cerca de 6% ao ano. Nessa taxa, as reservas atingiriam o montante de R$ 580 mil e poderiam financiar a aposentadoria indefinidamente, apenas com o resgate dos juros, sem redução do principal.

Com o problema de solvência do governo potencialmente solucionado, é preciso avaliar os impactos da reforma para trabalhadores e empresas. Um primeiro ponto é ter em perspectiva que o salário tende a subir ao longo da carreira.

Considerando a mesma remuneração inicial de R$ 1,5 mil do exemplo anterior, mas assumindo aumentos anuais contínuos de 3,6% acima da inflação, o salário atingiria R$ 4.993 após 35 anos, a valores de hoje.

O cálculo da aposentadoria leva em conta a média das contribuições. No caso específico, 86% sobre esse montante médio resultaria num benefício de R$ 2.506. O valor é igual a 50% do último salário.

Portanto, uma primeira consideração que o trabalhador deve fazer é que o benefício da aposentadoria somente ficará próximo aos salários dos últimos anos caso não ocorram aumentos expressivos de remuneração ao longo da carreira.

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Considere, agora, o cenário em que o salário inicial é de R$ 2,5 mil e cresce à taxa de 6% ao ano acima da inflação até atingir o teto de contribuição do INSS, de pouco mais de R$ 5 mil. Isso ocorreria depois de 12 anos. Assuma, também, que o crescimento salarial a partir do 13º ano é mais lento, de 2% ao ano acima da inflação. Após 35 anos o salário seria de R$ 7,8 mil.

Ao atingir o teto do INSS, a contribuição previdenciária do trabalhador é congelada em R$ 570, equivalente a 11% do valor estabelecido como base. No entanto, a parcela descontada da empresa continua sendo de 20% sobre o salário total.

Na prática isso gera uma aumento dos recursos à disposição da previdência sem contrapartida no acréscimo das obrigações. É excelente para o equilíbrio atuarial do INSS, mas ocorre em detrimento da parcela da contribuição da empresa que não é revertida ao trabalhador.

Em termos numéricos, considerando a capitalização das contribuições da empresa e do trabalhador a juros reais de 2,5% ao ano, o valor acumulado após 35 anos atingiria R$ 960 mil. É um montante suficiente para financiar a aposentadoria de R$ 4 mil, equivalente a 51% do último salário, por 93 anos.

Se as reservas fossem capitalizadas a juros de mercado, o valor chegaria a quase R$ 2 milhões e a folga do INSS seria desproporcionalmente elevada.

Um cenário de crescimento ainda mais rápido do salário realça a distorção do sistema proposto. Partindo de um salário de R$ 2,5 mil com aumento de 10% ao ano por 7 anos e 5% ao ano daí em diante, a contribuição total capitalizada a juros reais de 2,5% ao ano atingiria R$ 1,4 milhão depois de 35 anos.

A aposentadoria do INSS seria de pouco mais de R$ 4 mil, equivalente a 23% do último salário de R$ 18 mil. O montante acumulado seria suficiente para pagar a aposentadoria até os 105 anos com folga.

Os números sugerem que a proposta de reforma da previdência é injusta com as empresas e trabalhadores do setor privado.

Rumo à privatização da aposentadoria

As regras propostas para a reforma da previdência realçam a necessidade de poupar ao longo da vida ativa para complementar o valor da aposentadoria no futuro. Conforme o projeto em discussão, para ter direito à aposentadoria integral igual ao valor do salário da ativa, o trabalhador que recebe rendimentos de até R$ 5.190 – o teto do INSS – teria que começar a trabalhar aos 25 anos, contribuir por 49 anos e se aposentar aos 74 anos. É uma hipótese irrealista.

Considerando um cenário otimista, se o contrato de trabalho começasse aos 25 anos e o trabalhador decidisse se aposentar aos 65 anos após contribuir por 40 anos, o valor do benefício seria equivalente a 91% do salário. E numa simulação mais realista, caso a contribuição seja de 35 anos, dos 30 até os 65 anos de idade, o montante da aposentadoria seria igual a 86% do salário.

Isso assumindo, para simplificar a análise, que o rendimento do trabalhador será constante desde o começo da vida ativa até a aposentadoria. Quanto mais o salário for subindo ao longo do tempo, maior a defasagem entre o valor da aposentadoria – calculado a partir da média das contribuições – e da última remuneração.

A conclusão é que para conseguir rendimento integral na aposentadoria, o trabalhador terá que se preocupar em poupar parte do salário em aplicações financeiras ou estruturas de previdência complementar. Assumindo expectativa de vida de 85 anos, a diferença entre o valor da aposentadoria do INSS e o rendimento almejado terá que ser coberto por saques desses investimentos.

No cenário otimista, o valor da poupança acumulada aos 65 anos deveria ser de R$ 320 mil para cobrir a diferença de 9% entre o salário hipotético de R$ 5.190 e o valor da aposentadoria. No caso realista, a poupança teria que ser de R$ 375 mil.

Assumindo que o trabalhador economize mensalmente parte do salário para acumular recursos para o futuro, no cenário otimista ele precisaria guardar o equivalente a 5,2% dos rendimentos para atingir seu objetivo. No cenário realista, o esforço de poupança mensal seria de 7,4% do salário. Para os casos de salários acima do teto do INSS, a necessidade de poupança é maior.

A premissa para os cálculos é de rendimento dos investimentos de 2% ao ano real, acima da inflação, tanto no período de acumulação quanto no de desembolso. Isso acaba revelando outro complicador.

O trabalhador interessado em poupar periodicamente para complementar a aposentadoria precisa contornar o fato de que, para valores de aplicação pequenos, as taxas cobradas nos produtos financeiros são elevadas.

Nos planos de previdência, por exemplo, é comum comissão de carregamento de 3% sobre as contribuições e de taxa de administração de 3% ao ano sobre o montante investido. Com esses custos, é difícil atingir o objetivo de rentabilidade de 2% ao ano acima da inflação, conforme usado nas simulações.

Assim, além da reforma macroeconômica da previdência, seria importante o governo avaliar os ajustes microeconômicos que poderiam ser feitos para tornar um pouco menos difícil a vida do trabalhador.

Regras INSS        
         
Teto do INSS 5.190      
período mínimo de contribuição (anos) 25      
% do teto INSS com período mínimo de contribuição 76%      
Adicional do % do teto por ano adicional de contribuição 1%      
Idade mínima de aposentadoria 65      
         
                                        Cenários
Premissas Irrealista Otimista Realista Pessimista
Idade de início da contribuição 25 25 30 25
Idade após período mínimo de contribuição 50 50 55 50
Idade de término do contrato de trabalho 74 65 65 60
Idade da aposentadoria 74 65 65 65
Contribuição adicional (anos) 24 15 10 5
Período total de contribuição (anos) 49 40 35 30
% teto com período total de contribuição 100% 91% 86% 81%
Expectativa de vida (anos) 85 85 85 85
         
                                       Cenários
Simulação Irrealista Otimista Realista Pessimista
Poupança para garantir a renda desde o término do contrato de trabalho até a idade mínima para aposentadoria 0 0 0 318.006
Poupança para garantir o complemento integral da aposentadoria do INSS 0 99.287 154.447 209.607
Valor total da poupança 0 99.287 154.447 527.613
Necessidade de poupança mensal em relação ao salário ao longo do período de atividade 0,0% 2,4% 4,6% 15,6%

 

Situação específica para ganhos acima do teto do INSS        
Salário 10.380 100% acima do teto do INSS
Renda mensal almejada na aposentadoria 8.304 80% do salário da ativa
Renda suplementar acima do terto do INSS 3.114      
         
         
                                    Cenários
Premissas Irrealista Otimista Realista Pessimista
Idade de início da contribuição 25 25 30 30
Idade após período mínimo de contribuição 50 50 55 55
Idade de término do contrato de trabalho 74 65 65 60
Idade da aposentadoria 74 65 65 65
Contribuição adicional (anos) 24 15 10 5
Período total de contribuição (anos) 49 40 35 30
% teto com período total de contribuição 100% 91% 86% 81%
Expectativa de vida (anos) 85 85 85 85
         
         
         
                                  Resultados
Simulação Irrealista Otimista Realista Pessimista
Poupança para garantir a renda desde o término do contrato de trabalho até a idade mínima para aposentadoria 0 0 0 508.810
Poupança para garantir o complemento integral da aposentadoria do INSS 0 99.287 154.447 209.607
Poupança para garantir o suplemento da aposentadoria do INSS 396.177 661.916 661.916 661.916
Valor total da poupança 396.177 761.203 816.363 1.380.332
Necessidade de poupança mensal em relação ao salário ao longo do período de atividade 3,6% 9,3% 12,1% 25,2%

Como aproveitar as relações entre os ativos financeiros

Após disputarem 12 partidas, cada uma com duração média de seis horas, uma vitória para cada lado e dez empates, o dinamarquês Magnus Carlsen e o russo Sergey Karjakin decidirão hoje, numa série de partidas rápidas, o novo campeão mundial de xadrez.

Se tanto Carlsen, o atual campeão, quanto Karjakin, o desafiante, estivessem jogando contra um computador, o confronto já estaria resolvido. Com a evolução dos programas aprendizagem automática (“machine learning”, em inglês) tornou-se impossível para um humano, hoje, derrotar os computadores no xadrez.

O conceito de “machine learning” tem sido utilizado em diversas áreas, inclusive no mercado financeiro. O objetivo é identificar e lucrar com fatos aparentemente desconexos e difíceis de serem percebidos.

Na segunda-feira o Ibovespa subiu 2,1% mesmo com o acirramento da crise política brasileira. Na véspera, em pleno domingo, o presidente Temer tinha sido obrigado a convocar uma entrevista coletiva com as participações dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado para acalmar os ânimos.

O motivo da alta da bolsa, apesar do momento político conturbado, foi atribuído ao aumento do preço do minério de ferro no mercado mundial. E essa valorização ocorreu mesmo com as incertezas geradas pelo programa de governo do presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump e a perspectiva, cada vez mais segura, de elevação dos juros pelo Fed, o banco central americano.

Outro exemplo de correlações intrincadas entre os mercados aconteceu no começo do ano. Desde meados de fevereiro até o fim de julho o Ibovespa subiu cerca de 40%. A valorização ocorreu em linha com a recuperação dos preços do petróleo no mercado internacional, que saiu de US$ 30 para US$ 45 por barril.

PetroleoIbovespa

Na época, e ainda hoje, a economia mundial não dava sinais de recuperação marcante. A alta do petróleo não foi acompanhada pelo aumento acentuado do consumo mundial ou redução marcante dos estoques.

Os métodos tradicionais de análise de dados envolvem mapear as possíveis relações entre os diversos fatores capazes de influenciar determinado fenômeno. A partir daí é estabelecido um modelo estatístico e os resultados práticos são testados.

É razoável supor que a quantidade de fertilizante usada para adubar uma área tenha impacto direto sobre a safra colhida. Outros fatores, especialmente o clima, podem ter participação no resultado final. Mas a tendência é que quanto maior o investimento em insumos, mais produtiva será a terra.

Para tentar estabelecer o montante do investimento ideal na melhoria da terra, um agricultor pode recorrer aos testes estatísticos tradicionais. A premissa é que existe um modelo de distribuição dos dados que defina a quantidade de insumos e a safra colhida. Após estabelecida essa relação, as projeções podem ser feitas com alguma margem de segurança.

Os métodos de “machine learning” assumem que as tendências podem ser identificadas unicamente a partir da análise dos dados que estão sendo estudados. Assim, não é preciso construir um modelo teórico para o comportamento das relações, basta analisá-las.

No caso do xadrez, a melhor resposta ao lance do adversário é aquela que irá oferecer a maior possibilidade de vitória, sem se descuidar da defesa das peças. No fundo, os programas de “machine learning” atuam exatamente como um humano abordaria o problema, mas com maior precisão e capazes de fazer análises em espaço de tempo muito mais curto.

No Brasil, alguns fundos de investimento já começam a utilizar modelos quantitativos para fazer a gestão de recursos. Muitas estratégias visam usar as possíveis correlações de curto prazo entre a variação de preços de determinados ativos.

A principal tática empregada por esses gestores é vender alguns ativos que podem cair de preço e, simultaneamente, comprar outros com potencial de alta. Entretanto, nem todos são adeptos dos métodos de “machine learning”.

As “fintechs”, empresas que usam a tecnologia para oferecer produtos e serviços financeiros, também tentam atrair clientes e massificar o atendimento com métodos quantitativos. O principal apelo é a agilidade nas mudanças da composição da carteira.

A despeito de todo o avanço tecnológico, a análise tradicional ainda merece atenção dos investidores. A economia brasileira continua em recessão, os juros reais estão em patamares elevados, mas as contas externas estão ajustadas.

Certamente ainda existe espaço tanto para o bom senso nas análises de mercado quanto para a admiração pelo xadrez jogado por humanos.