Mesmo com opções, escolhas seguem difíceis para o investidor

A variação dos principais índices de referência do mercado financeiro brasileiro foi largamente positiva nos últimos 12 meses encerrados em janeiro de 2018.

A rentabilidade acumulada no período do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI) foi de 9,40%. O CDI tem uma estreita relação com a Selic, atualmente fixada em 6,75% ao ano.

Já o IMA Geral – indicador que mede o ganho de uma carteira diversificada de títulos públicos – subiu 12,79% em 12 meses. Boa parte do rendimento foi ocasionado pela valorização dos papéis devido à queda dos juros para as operações de longo prazo.

E o Ibovespa, principal referência para o desempenho das ações negociadas na bolsa brasileira, teve alta de 31,3% no período. A melhora da economia e a queda do custo de capital para as empresas foram os fatores que fundamentaram o bom desempenho das ações.

Nesse ambiente altamente positivo seria natural esperar que a rentabilidade geral dos fundos de investimento, especialmente os mais agressivos, superasse com alguma folga os indicadores de referência do mercado. No entanto, não foi isso que aconteceu.

ArteCaminhos

A avaliação de uma listagem de fundos das categorias multimercado e ações disponibilizados nas principais plataformas de distribuição realça a dificuldade dos aplicadores para encontrar boas alternativas de investimento quando as ofertas são muito extensas.

As plataformas de distribuição são estruturas administradas por bancos ou corretoras que buscam oferecer uma ampla variedade de opções para o investidor. Na teoria, a diversidade proporciona maiores ganhos.

Assumindo que os distribuidores selecionam os melhores produtos disponíveis no mercado, o esperado seria que, dentro deste universo, qualquer escolha que fosse feita pelo investidor teria boas chances de produzir bons resultados.

Uma forma para testar o argumento é verificar se a mediana da rentabilidade das carteiras oferecidas nas plataformas de distribuição foi superior aos índices de referência do mercado.

A mediana é um indicador que divide uma amostra em duas metades. No caso de uma lista de fundos, acima da mediana ficam a metade dos fundos com melhor desempenho. Abaixo da mediana, os fundos com pior rendimento.

A média de uma amostra, especialmente da rentabilidade de ativos financeiros, sempre pode ser influenciada por algumas poucas carteiras com desempenho muito positivo ou negativo. A mediana tende a minimizar o efeito de valores extremos.

Para entender o conceito, imagine que um investidor escolheu quatro fundos em uma plataforma de distribuição. Numa situação normal, o esperado é que o investidor aplique em dois fundos com rendimento acima da mediana e dois com rendimento abaixo.

Se nenhum desses quatro fundos hipotéticos tiver desempenho excepcional, para cima ou para baixo, a expectativa é que o investidor consiga rentabilidade próxima da mediana.

Listando todos os fundos das principais plataformas de distribuição e fazendo efetivamente todos os cálculos, é possível constatar que a mediana da rentabilidade dos fundos multimercado ficou acima do CDI, mas foi menor do que o IMA Geral. E a mediana da rentabilidade dos fundos de ações foi inferior ao Ibovespa.

Isso significa que são grandes as chances de um investidor aplicar numa carteira de fundos mais agressivos e terminar com rendimento menor do que uma alternativa mais conservadora e que busque apenas seguir determinado parâmetro de referência. Especialmente se o investidor fizer essa seleção por sua conta e risco, sem ajuda de uma assessoria mais especializada.

No extremo oposto, se o investidor ficar assustado com a quantidade de alternativas disponíveis e optar apenas pelas opções mais conservadoras, pode perder a chance de obter um relevante ganho adicional.

O interessante é que esse padrão ocorreu num período com uma certa tendência de alta dos mercados, apesar das turbulências devido a quedas abruptas provocadas por fatores que estavam fora do radar dos especialistas.

Os números parecem indicar que ter acesso a uma boa plataforma de distribuição de fundos e demais produtos financeiros é importante, mas não suficiente para ter bons rendimentos. É fundamental selecionar as opções disponíveis com critério.

Opções para jovens: poupança, previdência, bitcoin ou robôs?

Uma preocupação corriqueira dos adultos é orientar financeiramente os menores, especialmente sobre a importância de respeitar um orçamento de tal forma a gastar menos do que o total das receitas. Ainda mais no ambiente atual, em que as ofertas de produtos para facilitar o consumo são muitas.

Os meios de pagamento eletrônicos têm evoluído constantemente e hoje um jovem com celular pode pedir comida, baixar um jogo, escolher uma música, se locomover para onde quiser ou comprar ingresso para um espetáculo sem a preocupação imediata com o custo. A fatura vem depois, na conta do cartão de crédito.

Por seu turno, os aplicativos para facilitar a abertura e movimentação da conta bancária, fazer investimentos e acompanhar as oscilações do mercado também têm avançado em ritmo acelerado. Daí surge a dúvida se é melhor sugerir que o jovem invista de forma conservadora ou estimular para que experimente as modalidades arrojadas.

Como regra geral, mais importante do que cálculos padronizados sobre a relação entre idade e possibilidade de recuperação de perdas ou de avaliações subjetivas sobre o perfil de risco, é importante que o jovem conheça o processo de investimento. É uma forma de entender que o resultado final da aplicação, apesar de incerto, não está vinculado somente a uma questão de sorte ou azar.

Mesmo com todos os avanços tecnológicos, os produtos financeiros conservadores continuam figurando entre os mais populares. Devido à sua longa tradição, a principal aplicação financeira no Brasil é a caderneta de poupança.

Essa preferência pela poupança não deixa de ser surpreendente. Isso porque o rendimento da aplicação depende do cálculo da Taxa Referencial (TR), da Taxa Básica Financeira (TBF), de um redutor e de um percentual da Selic. Tudo muito difícil de explicar.

A maior vantagem do investimento na caderneta é o reconhecimento institucional. Apesar de praticamente ninguém se atrever a conferir os cálculos do rendimento mensal, o jovem investidor logo aprende que o fato de os ganhos serem divulgados pelo Banco Central (BC) e creditados a todas as contas gera muita confiança.

Além disso, a aplicação se tornou a porta de entrada, com custo reduzido, para o sistema bancário tradicional. A conta poupança aceita depósitos e os saques e transferências podem ser efetuados nos caixas eletrônicos.

O segundo lugar em popularidade é ocupado pelos planos de previdência destinados a menores. Apesar de também apresentarem uma estrutura complexa, o produto possui um forte apelo emocional, sobretudo para os pais.

A ideia é guardar uma quantidade de recursos relativamente pequena todos os meses. No fim de certo período, o jovem terá acumulado um patrimônio que poderá ser usado para financiar um curso superior ou, talvez, um intercâmbio no exterior.

O jovem que investe num plano de previdência acaba se familiarizando com o conceito de disciplina ao investir. E com o poder dos juros compostos.

Além disso, ao fazer as contas mais detalhadamente poderá perceber que os impactos dos custos operacionais não são desprezíveis. A taxa de administração e taxa de carregamento podem reduzir significativamente o resultado final do investimento.

A contrapartida é ter que conhecer os meandros do nosso complexo sistema tributário, em que os rendimentos podem ser isentos ou tributados numa alíquota de até 35%. Tudo irá depender da escolha do tipo de plano e do prazo de permanência no produto.

Uma terceira alternativa que entrou no radar dos investidores mais antenados é a compra de bitcoins (ou outras criptomoedas). A lógica do investimento é ensinar ao jovem que ele pode manter uma posição de investimentos dividida entre ativos sólidos e conservadores e outra parte em ativos extremamente agressivos e voláteis. O fundamental é fazer corretamente esse balanceamento.

Se, por infelicidade, a carteira virtual de bitcoins for “hackeada” ou roubada, o jovem pode aprender a dar valor a um sistema institucionalizado de proteção ao investidor. E compreender a importância do papel da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do BC.

Uma quarta opção são as carteiras administradas por robôs de investimento. Nessa modalidade um algoritmo estabelece a composição ideal de uma cesta de ativos indexados a diversos índices de taxas de juros e ações, de tal forma a maximizar o retorno para dado nível de risco.

O investimento é útil para aprender os conceitos da teoria das finanças e diversificação do portfólio. E em quais situações as premissas do modelo podem não corresponder à realidade.

O leque de ofertas para o jovem investidor é grande.

Fatos, números e projeções para 2018

O julgamento do ex-presidente Lula em segunda instância no dia 24 de janeiro é o primeiro fato concreto que poderá estabelecer um rumo para o mercado financeiro brasileiro em 2018. A razão para isso é a possibilidade de eliminação de um relevante fator de incerteza.

A alta de mais de 10% do índice MSCI Brazil desde 13/12/2017, o dia em que foi estabelecida a data do julgamento, está relacionada com a expectativa de confirmação da condenação decidida em primeira instância. Como consequência, o pré candidato mais conhecido entre os eleitores poderá ficar fora da disputa eleitoral.

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O aspecto racional revelado pela valorização do preço dos ativos financeiros decorre da possibilidade de que, durante a campanha para presidente da República, haja uma discussão mais profunda dos problemas relevantes para o país.

O Brasil possui reservas internacionais de cerca de US$ 380 bilhões que, na prática, vêm funcionando como um seguro contra as turbulências locais e internacionais. Em contrapartida, devido à diferença entre os juros praticados aqui e no mundo, o custo financeiro para manter as reservas é elevado.

Outro fator que pesa no orçamento do Tesouro Nacional é o tamanho da dívida bruta do setor público, equivalente a 74,4% do PIB. Para reduzir a dívida de maneira consistente são necessárias uma série de reformas que precisam do apoio da população para serem implantadas.

Adicionalmente, a economia ainda luta para se recuperar da recessão que levou o índice do nível de utilização da capacidade instalada para 74,5% e provocou o desemprego de 12% da população economicamente ativa. O aspecto positivo é que a inflação de 2017 fechou abaixo de 3%.

A visão otimista é que a campanha eleitoral poderá envolver a discussão de propostas concretas e objetivas para o país. Isso evitaria a repetição em 2019 da falta de rumo vivenciada na disputa que marcou a reeleição da ex-presidente Dilma.

Entretanto, a Copa do Mundo de futebol que ocorrerá entre os dias 14 de junho e 15 de julho sinaliza para a redução do passo da atividade econômica no período, devido à interrupção da produção nos dias de jogos. E o início do calendário eleitoral acena para a retração das decisões de investimento.

O prazo máximo para registro das candidaturas é 15 de agosto e o começo da propaganda eleitoral no rádio e televisão é 31 de agosto. Primeiro turno ocorre em 7 de outubro e o segundo turno, se necessário, será no dia 28 de outubro.

Tradicionalmente, o período eleitoral tende a frear o ímpeto empreendedor e adiar o ritmo de desembolsos para a aquisição de máquinas e equipamentos.

Apesar das dificuldades, as projeções para 2018 são otimistas. No Brasil a inflação ficará sob controle, os juros permanecerão baixos e o crescimento do PIB será superior a 2,5%.

No cenário externo a expectativa é que o mundo continue crescendo em ritmo acelerado. O consenso de mercado é que a economia dos países desenvolvidos crescerá 2,1% em 2018 e 1,9% em 2019. Já entre os emergentes, as projeções são de aumento de 4,9% em 2018 e 5,1% em 2019.

Esse ambiente é favorável para as aplicações mais agressivas. No entanto, existem riscos.

O mais grave e difícil de ser estimado é a consequência de uma crise global nos moldes da que aconteceu após os atentados terroristas de 2001 ou do estouro da bolha financeira de 2008. Naqueles momentos ocorreu uma parada súbita das operações de fusões e aquisições, bem como dos demais fluxos de financiamentos externos.

Outra possibilidade é uma combinação envolvendo a perda de confiança na condução da política econômica brasileira com um momento positivo para a economia mundial. Nesse caso os fluxos de capitais sairiam do Brasil, provocando forte desvalorização dos ativos financeiros locais.

E, finalmente, existe a possibilidade de um surto inflacionário local que obrigue o Banco Central a aumentar os juros para amenizar a retomada da economia. Isso poderia acontecer devido à recomposição das margens de lucro das empresas, do crescimento potencial limitado devido à impossibilidade de reincorporar o nível de ociosidade à produção ou de um choque mais acentuado nos preços das commodities.

Em 2018 será fundamental acompanhar o passo a passo dos principais acontecimentos.

Cenário para 2018 é de “kit Brasil” capenga

A recuperação dos preços do petróleo e das commodities agrícolas no mercado internacional parece indicar que a economia global continuará aquecida no ano que vem, mesmo com a possibilidade, cada vez mais concreta, de aumento dos juros nos Estados Unidos.

E a Selic ainda alta no Brasil em comparação com os juros praticados no exterior sugere a perspectiva de que recursos externos continuem entrando no país. Essa combinação de fatores tende a pressionar para baixo a cotação do real em relação ao dólar em 2018.

A aposta na valorização do real é um dos três componentes do chamado “kit Brasil”. Os demais são posições visando tirar proveito da alta da bolsa e da queda dos juros de longo prazo.

Hoje é quase consenso que a possibilidade de valorização do Ibovespa e redução ainda mais acentuada dos juros irá depender do resultado das eleições de 2018. E, por consequência, das escolhas sobre o ritmo de condução das reformas que o país irá executar.

O problema é que o grau de incerteza do cenário eleitoral hoje é muito grande. Por exemplo, o próximo evento relevante será o julgamento, marcado para janeiro de 2018, que poderá confirmar, ou não, a condenação do ex presidente Lula e a subsequente decisão de seguir ou abandonar a disputa.

Como não existe nem mesmo uma concordância de quais são os candidatos competitivos, fica impraticável identificar as plataformas e programas de governo que poderiam consolidar a ainda tímida recuperação econômica. Nesse ambiente, a tradicional aposta no “kit Brasil” parece excessivamente arriscada.

Isso porque, apesar das boas chances de valorização do real em relação ao dólar, a alta da bolsa e a queda mais acentuada dos juros se mostram muito atreladas aos desdobramentos da corrida eleitoral. Em 2018, uma alternativa de investimento que pode ganhar força para os investidores com acesso aos produtos oferecidos no segmento de alta renda dos bancos e das plataformas de distribuição são os fundos internacionais com proteção cambial.

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Tratam-se de carteiras que possuem como política de investimento específica a aplicação dos recursos captados em outros fundos negociados no exterior. Estes, por sua vez, têm por objetivo comprar ativos negociados no mercado global.

Os fundos internacionais podem ser compostos por ativos de renda fixa (bonds), renda variável (ações) ou uma combinação de ambos (multiestratégia). As carteiras podem ser amplas ou restritas a ativos de determinados países, regiões, categoria de emissores ou moedas.

Para cada tipo de carteira existe um parâmetro de referência específico. Por exemplo, se o fundo de renda fixa operar no mercado americano, o índice de referência pode ser o Bloomberg Barclays Aggregate Bond TR USD.

Já se for um fundo de ações global, denominado em dólares mas sem as empresas que são negociadas no mercado americano, o índice de referência pode ser o MSCI All Countries World Index ex USA.

Uma característica importante que o investidor brasileiro precisa ficar atento ao escolher um fundo internacional é que existem milhares de índices de referência calculados por dezenas de provedores diferentes à disposição dos gestores. Geralmente o parâmetro escolhido pelo administrador do fundo é indicado no prospecto e nos demais materiais de divulgação.

A despeito da estratégia de investimento estabelecida, para o investidor brasileiro existe o risco da valorização cambial que, dado o cenário para o próximo ano, é alto. Para medir o impacto da valorização do real, considere no ano de 2016 em que o S&P 500 teve valorização de 11,96%. Entretanto o dólar caiu 16,54% em relação ao real, o que teria eliminado os ganhos para o investidor local com aplicação no fundo internacional.

Para solucionar esse problema, as gestoras internacionais passaram a oferecer os fundos no exterior atrelados à uma proteção cambial. Significa que, na prática, o ganho do investidor brasileiro é a variação do certificado de depósito interfinanceiro (CDI) mais a variação do fundo internacional menos o custo da proteção.

Com o objetivo de baratear o custo da proteção e deixar o fundo internacional mais atraente, a operação de proteção é feita no exterior. Nessa estrutura, é como se o investidor brasileiro estivesse fazendo o investimento internacional com um empréstimo. O ganho final da aplicação é a diferença entre o rendimento da carteira internacional menos a taxa “Libor” mais o “spread” de proteção. Isso tudo somado à variação do CDI.

Estratégias de investimento para depois do Copom

Existe consenso de que a taxa Selic será novamente reduzida na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) marcada para semana que vem.

O grande desafio, entretanto, é estimar por quanto tempo os juros permanecerão baixos e tentar estabelecer, com alguma segurança, as estratégias de investimento mais adequadas para o futuro. Para essa tarefa, o investidor pode buscar pistas avaliando as notas das reuniões do Copom, as projeções divulgadas no boletim do Focus e os indicadores do mercado de juros.

Essas três fontes de informação reúnem, respectivamente, a visão da autoridade monetária, as projeções dos economistas das instituições financeiras e as apostas dos operadores para o comportamento do preço dos ativos de renda fixa. A avaliação conjunta desses diferentes pontos de vista aumenta as chances de se conseguir uma boa rentabilidade para as aplicações.

Sem destino certo

Evolução da taxa Selic entre novembro/07 e outubro/17

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Fonte: Banco Central

A última comunicação do Banco Central diz, resumidamente, que a economia está operando com alto grau de ociosidade, o cenário econômico internacional é estável, a inflação corrente está controlada e as projeções para a inflação futura estão abaixo da meta. São essas as razões que tem orientado os cortes na taxa Selic nos últimos meses.

Por seu turno, a média da opinião dos economistas reunida no mais recente boletim Focus aponta para inflação de 4,02% em 2018, com crescimento econômico de 0,73% neste ano e de 2,58% no ano seguinte. No setor externo, as projeções são de saldo ligeiramente deficitário nas transações correntes, mas com superávit comercial e entradas significativas de investimentos estrangeiros diretos no país em 2017 e 2018.

Se o cenário previsto pelos economistas se concretizar, a taxa Selic continuará baixa e a cotação do dólar frente ao Real tende a ficar estável. O esperado crescimento econômico é positivo para o mercado de ações.

E para avaliar as apostas dos operadores, a Anbima, a associação das instituições financeiras, calcula e divulga o que no jargão de mercado é chamado de estrutura a termo das taxas de juros.

Trata-se de um modelo estatístico que tem como objetivo estimar a remuneração esperada para operações prefixadas e indexadas ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em diversos prazos. O parâmetro utilizado é o rendimento de mercado dos vários títulos públicos em circulação.

Os resultados encontrados são transformados em uma equação e representados graficamente. Devido ao formato curvo da linha do gráfico que relaciona cada período com o respectivo rendimento, a estrutura a termo das taxas de juros também é chamada de curva de juros.

Em função dos prazos de vencimento dos títulos, a estimativa para operações prefixadas está limitada a 2.268 dias úteis, que é equivalente a nove anos, assumindo que um ano possua 252 dias úteis. Já para as aplicações indexadas ao IPCA, as estimativas chegam até a 9.324 dias úteis, ou 37 anos.

Os cálculos para as taxas prefixadas descrevem uma linha decrescente e depois ascendente conforme o prazo da aplicação. Os juros são de 7,26% ao ano para resgate em até 21 dias úteis, caem para 6,70% ao ano para vencimentos de 126 dias úteis e começam a subir até atingir 8,23% ao ano para operações de dois anos, 9,15% ao ano para três anos e 10% ao ano para cinco anos.

Já para as aplicações indexadas, a taxa começa em IPCA mais 2,36% ao ano para negócios com resgate em um ano, IPCA mais 4,18% ao ano para vencimento em 3 anos e 4,78% ao ano para cinco anos. Para 10 anos a taxa é de IPCA mais 5,21% ao ano e permanece aproximadamente neste patamar para todos os demais vencimentos.

Outro parâmetro fornecido pela curva de juros é a chamada inflação implícita. Trata-se da diferença entre a taxa prefixada estimada para um determinado período e o juro dos títulos em IPCA com o mesmo prazo de vencimento.

A ideia é comparar a inflação implícita com as estimativas dos economistas. Conforme o caso, é mais rentável investir nos títulos prefixados ou indexados ao IPCA.

Nos últimos 10 anos, entre dezembro de 2007 e novembro de 2017, a taxa Selic oscilou entre a mínima de 7,25% ao ano até a máxima de 14,25% ao ano. No período entre julho de 2008 e maio de 2015, a variação acumulada do CDI em períodos de cinco anos foi menor que 10% ao ano, o atual patamar da taxa prefixada.

Todos esses cálculos possuem um objetivo comum: fornecer os parâmetros para avaliar o potencial de ganhos e perdas das estratégias de investir em títulos atrelados ao CDI, indexar as aplicações ao IPCA ou arriscar no prefixado ou na renda variável.

Conforme o cenário e a tolerância ao risco de cada investidor, as estratégias mais eficientes podem ser estabelecidas.

Maior risco não pressupõe retorno mais elevado

Se tudo acontecer conforme o esperado, daqui a cinco semanas o Comitê de Política Econômica do Banco Central deverá fixar a taxa Selic em 7% ao ano, o menor nível da série histórica iniciada em 1996. A principal dúvida, agora, é estimar por quanto tempo a taxa permanecerá em patamar tão baixo.

O fator determinante para a duração do futuro período de juros reduzidos será o comportamento da inflação. Hoje as previsões apontam para variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,1% para 2017 e 4,0% para 2018. Se a inflação nos próximos anos permanecer nesse patamar, a Selic tende a continuar baixa.

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A queda do IPCA foi consequência, em larga medida, da maior e mais prolongada recessão da economia brasileira. Segundo cálculos do Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace), o período de retração começou no segundo trimestre de 2014 e terminou no último trimestre de 2016, provocando queda acumulada de 8,6% do PIB.

Com a recessão houve aumento do desemprego, diminuição dos salários e redução dos gastos empresariais com investimentos. Nesse ambiente, foi difícil reajustar preços ou tentar recompor as margens de lucro.

A recessão também contribuiu para acelerar o ajuste das contas externas. Isso porque a redução da demanda por produtos fabricados no exterior possibilitou ao país continuar acumulando reservas internacionais, o que provocou a queda da cotação do dólar em relação ao real. O dólar mais baixo foi um componente relevante para a queda da inflação.

A consequência negativa do ciclo recessivo foi o desequilíbrio das contas públicas e uma crise política de difícil solução.

É nesse clima que a equipe econômica tenta aprovar as reformas consideradas essenciais para recolocar o país numa trajetória de crescimento sustentável a longo prazo. E manter a inflação controlada, mesmo com a economia crescendo.

Para os investidores o atual cenário é de juros reais, acima da inflação, mais baixos. Se a Selic estacionar em 7% ao ano e a variação do IPCA não ultrapassar 4% ao ano, o ganho real será de aproximadamente 3% ao ano. É uma queda significativa em relação aos 8,8% ao ano registrados nos últimos 12 meses.

A queda dos juros tem estimulado a busca por ativos de risco. A bolsa subiu, os fundos multimercado registram captações expressivas, os negócios envolvendo Certificados de Operações Estruturadas (COE) deram um salto e os fundos imobiliários voltaram a entrar no radar dos investidores.

A premissa por trás desse movimento é que, para ganhar mais, é preciso correr mais risco. De fato, a avaliação empírica do comportamento das diversas classes de ativos financeiros mostra que ganhos maiores estão associados a oscilações maiores.

Tome o caso dos fundos de ações, a categoria mais rentável no ano. Todos registraram perdas expressivas no dia 18 de maio, quando foi divulgado o conteúdo da delação dos principais executivos do grupo JBS.

Houve casos de prejuízos de até 30% no dia que demoraram quatro meses para serem recuperados. No entanto, passada a pior fase, a rentabilidade acumulada no ano é altamente positiva.

A observação descuidada do desempenho dos ativos financeiros pode passar a ideia de que basta assumir mais risco para conseguir retorno mais elevado. Na edição de agosto / setembro de 2017 da revista Morningstar, Paul D. Kaplan desmistifica essa ideia.

Para o especialista a origem da confusão é a interpretação equivocada dos resultados obtidos nos modelos de otimização de carteira. A base teórica para encontrar a combinação mais eficiente entre risco e retorno é fundamentada nas ideias desenvolvidas por Harry Markowitz, considerado um dos mais importantes teóricos de finanças.

A hipótese é que, dada a rentabilidade passada e a oscilação do preço de cada ativo financeiro, é possível estabelecer as combinações mais eficientes entre todas as opções disponíveis. A única premissa é que, para um dado nível de retorno, o investidor sempre irá preferir a alternativa menos arriscada.

A partir daí é possível criar conjuntos de carteiras com o maior retorno possível para cada patamar de risco. No entanto, como os dados são calculados com base na variação histórica dos ativos, não é possível fazer uma extrapolação direta para o comportamento futuro.

Essa sensibilidade é fundamental. Para ter retorno mais alto é preciso correr mais riscos. Mas simplesmente investir em ativos mais arriscados não é garantia de maior retorno.

Controlando atalhos mentais e mantendo a racionalidade

Nem sempre as pessoas agem de maneira racional, ponderando cuidadosamente todos os pontos positivos e negativos antes de tomar uma determinada decisão. Com esse argumento simples, Richard H. Thaler conseguiu abalar muitos alicerces da teoria econômica e suas pesquisas lhe garantiram o prêmio Nobel de economia deste ano.

Thaler e Daniel Kahneman, outro vencedor da condecoração, desenvolveram conceitos e procuraram explicar as situações em que tendemos a agir de forma quase irracional. Com o passar do tempo, as ideias dos pesquisadores acabaram sendo incorporadas nas práticas do mercado financeiro.

A premissa é que sofremos de um problema cognitivo toda vez que precisamos tomar uma decisão que está fora do nosso escopo de habilidades. Ou, então, nos momentos em que não temos muito tempo para analisar profundamente o assunto.

Significa que quando estamos diante de certas situações, apesar de sermos inteligentes e buscarmos sempre a melhor configuração entre custos e benefícios, avaliando os diversos pontos de vista de maneira fria e lógica, acabamos nos perdendo no meio do caminho. A consequência é que nos embrenhamos por atalhos mentais que levam a resultados danosos.

MedoGanancia

Os exemplos de vieses comportamentais elencados pelos especialistas são sempre divertidos e provocam empatia. Thaler, por exemplo, descreve o alívio geral quando retirou da mesa um pote de castanhas que seus convidados não conseguiam parar de comer, apesar de terem a consciência de que a atitude acabaria com o apetite para o jantar. Kahneman, por sua vez, usa o exemplo dos torcedores que incentivam o jogador de basquete que acertou quatro cestas de três pontos consecutivamente a tentar mais uma jogada, a despeito de sabermos o quanto é improvável cinco lances seguidos no alvo.

Esses tipos de comportamento são inerentes ao ser humano e podem ser explicados psicologicamente. A criatividade dos pesquisadores foi unir esse arcabouço teórico ao funcionamento da economia e das finanças.

Thaler deu um passo além ao propor ações pragmáticas. Já que não temos condições de analisar minuciosamente todas as alternativas, é natural imaginar que precisamos de um empurrãozinho para tomar as decisões mais acertadas.

Nessa linha, nos países com tradição mais liberal, foram criados grupos de trabalho para desenvolver ações que incentivassem as pessoas a fazerem a coisa certa.

Vem daí a ideia de adotar como padrão a opção do trabalhador de participar de um fundo de previdência oferecido pela empresa. Ou de colocar as frutas na altura dos olhos das crianças na cantina escolar, deixando os salgadinhos fora da vista.

No Brasil, devido à nossa tradição mais intervencionista, esse tipo de discussão sobre a regulamentação acaba tendo interesse mais teórico do que prático. Afinal, nos planos de previdência oferecidos pelas empresas, se não houver uma certa adesão mínima dos funcionários, os aportes corporativos não são dedutíveis do imposto de renda da pessoa jurídica. Outro exemplo é o FGTS, em que o trabalhador e a empresa são obrigados por lei a investir no fundo, mesmo com a remuneração sofrível.

A crítica mais contundente aos modelos desenvolvidos pelos teóricos da economia comportamental refere-se ao argumento de que o arcabouço está relacionado a um conjunto de técnicas de persuasão.

A argumentação é que os vieses cognitivos existem para serem explorados. Especialmente no mercado financeiro, onde os produtos são naturalmente complexos.

Tome o caso de um consórcio e tente avaliar até que ponto deve-se contar com a sorte para ser contemplado com o bem mais rapidamente. Ou do título de capitalização, onde existe a chance ganhar um bom dinheiro a partir de depósitos mensais pequenos.

Não fica bem certo quem deve dar um empurrão para as pessoas comprarem ou evitarem determinados produtos financeiros.

Mesmo as modalidades mais sofisticadas estão sujeitas a avaliações que podem ser carregadas de vieses. O que dizer do desempenho futuro de um fundo de investimento que conseguiu quatro trimestres consecutivos de ganhos acima da média? É o caso de aplicar mais recursos ou realizar os ganhos?

Em diversas situações é tentador apelar para os vieses cognitivos e tentar provar que o investidor comum não é capaz de entender todas as nuances do produto financeiro proposto.

Na dúvida, é prudente apelar ao bom senso. Se você não entende o funcionamento de uma determinada modalidade de investimento, não compre. Mas sempre vale a pena investir para conhecer. Até mesmo contratando um especialista independente para fazer as análises.