Os incentivos para você cair numa pirâmide financeira

Se você quer aprender a investir na bolsa, que tal acompanhar os passos de uma jovem que ficou milionária aos 22 anos, partindo de uma modesta aplicação inicial quando era adolescente?

Ou então, para iniciar uma carreira bem sucedida como “trader”, a alternativa é ter acesso diário às melhores ideias de uma renomada equipe de analistas que se propõe a vasculhar o mercado em busca de oportunidades de curto prazo e com potencial de ganhos de pelo menos R$ 300 mil por ano.

Se você gostou das opções anteriores mas está sem tempo, uma solução é delegar a função de escolher as melhores oportunidades para o gerente de seu banco ou a um agente autônomo de investimento (AAI) bem informado. No limite, se você não quiser ter a chateação de acompanhar os detalhes das transações executadas, basta dar liberdade total ao seu corretor ou gestor de investimentos e combinar com ele que irá acompanhar os resultados obtidos apenas uma vez por mês.

A diferença entre as alternativas acima é o grau de risco que você pretende correr. E, nos casos extremos, o limite entre a informalidade e a legalidade.

Na prática, sua escolha acaba sendo determinada pelo quanto você é persuadido por cada oferta. Para o psicólogo social Robert Cialdini existem seis maneiras de exercer a influência sobre alguém.

A primeira é a reciprocidade. Se uma pessoa se dispõe a contar os segredos de como ficou milionária, a sua tendência é tentar retribuir de alguma forma, talvez consumindo os produtos e serviços que ela recomende.

A segunda forma é apelar para o seu compromisso e coerência. Se você foi suficientemente persistente para assistir integralmente a apresentação de um novo serviço, é quase uma obrigação fazer a contratação e partir para a ação.

A terceira é a prova social: se você tem interesse pelo mercado de ações, é natural que adote uma postura arrojada e busque retornos superiores às aplicações conservadoras. Afinal você faz parte de um grupo diferenciado.

A quarta é a simpatia. É difícil ignorar os conselhos de um jovem que se mostra genuinamente interessado pelo patrimônio que você irá usufruir na velhice.

A quinta é autoridade, que se manifesta quando um analista que aparenta ser altamente qualificado faz uma análise abrangente sobre o mercado e chega à conclusão de que você deve tomar uma determinada decisão de investimento.

A última maneira para exercer a persuasão é apelar para a escassez. Como as boas oportunidades invariavelmente acabam, é fundamental agir rapidamente.

Acompanhar o passo a passo de uma investidora bem sucedida parece ser uma atividade divertida e inocente. Já delegar a gestão de seu patrimônio para um AAI é altamente perigoso, além de ser ilegal.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é o órgão regulador do mercado brasileiro e tem uma clara implicância com o que é convencionalmente chamado de “marketing agressivo”. Um gestor de fundos de investimento, por exemplo, não pode fazer propaganda de sua performance caso a carteira tenha menos de seis meses de histórico. Prometer rendimento futuro está fora de questão.

A preocupação é que as ofertas mais persuasivas podem acabar pavimentando o caminho para golpes e pirâmides financeiras. De fato, a história mostra que diversos profissionais de sucesso acabaram trilhando o caminho da vigarice e terminaram lesando diversos investidores.

Os argumentos de venda podem estimular a auto confiança do investidor e minimizar a avaliação dos aspectos relacionados aos riscos. Entretanto, dependendo do produto ou serviço oferecido, a estratégia de divulgação bem humorada acaba não sendo um problema, desde que a prática esteja submetida a algum tipo de fiscalização externa.

Essa é a razão para a CVM tentar supervisionar todas as atividades relacionadas com a venda de produtos, serviços, informações e recomendações financeiras. Parece um excesso de burocracia e uma excessiva intervenção em assuntos privados, mas tem uma lógica de prevenção às fraudes.

Em muitos aspectos, a regulamentação governamental pode ser substituída por arranjos alternativos, sob a supervisão das associações profissionais ou de participantes do mercado. É consenso que alguns freios e o controle da alavancagem promovem a eficiência do sistema financeiro.

O fato é que se você contratar um bom assessor financeiro, que tenha efetivamente uma preocupação com sua saúde financeira, ele irá alertá-lo sobre os riscos e as oportunidades dos investimentos.

Mas se você for ganancioso e pouco criterioso, pode acabar nas garras de um especialista mal intencionado e cair numa pirâmide financeira.

XP, BTG e aumento da importância dos ativos intangíveis

Está em andamento uma disputa judicial entre XP e BTG que atinge as respectivas redes de agentes autônomos de investimentos (AAI). É por meio da interação com esses profissionais que muitos clientes tomam suas decisões de investimento.

A XP foi pioneira na montagem de uma malha de AAIs independentes, mas vinculados aos produtos oferecidos pela corretora. Isso proporcionou uma ampla vantagem em relação aos concorrentes no mercado de distribuição de produtos financeiros para pessoas físicas.

O pano de fundo do embate entre as duas instituições financeiras pode ser entendido a partir do contexto descrito pelos economistas Jonathan Haskel e Stian Westlake no livro “Capitalism without Capital” (Capitalismo sem Capital, em tradução livre).

Para os autores, na economia moderna, a vantagem competitiva de países e empresas está atrelada, cada vez mais, aos investimentos em ativos intangíveis. São os esforços empreendidos na pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, design das mercadorias, conceito da marca, aspectos relacionados à organização da forma de execução das tarefas para a entrega dos serviços, qualidade do software utilizado pelas companhias e maneiras de como os dados do negócio são explorados.

Os investimentos em ativos tangíveis tais como prédios, galpões, máquinas e computadores continuam importantes, mas já não proporcionam grande diferenciação entre os empreendimentos.

Os investimentos em intangíveis possuem quatro características principais. A primeira delas é chamada de escalabilidade. É a propriedade de que os resultados de um determinado esforço possam ser reaproveitados repetidas vezes.

Um exemplo concreto é o software desenvolvido pelo Uber. Depois de pronto, o aplicativo pode ser usado em qualquer cidade do mundo em que a companhia tenha operações. É um flagrante contraste com as antigas empresas de rádio taxi que tinham capacidade para operar apenas em determinados bairros e regiões.

A segunda característica é que os custos envolvidos na criação de um ativo intangível são irrecuperáveis. Para entender, compare o resultado final de dois empreendimentos fracassados. Num caso, uma startup que investiu no desenvolvimento de um medicamento, mas não conseguiu a licença para comercialização. Em outro, um centro de distribuição que não atingiu o movimento mínimo para que o negócio se tornasse viável.

No caso da startup, o valor residual dos investimentos feitos ao longo de todo o período é próximo de zero, já que a maior parte foi direcionada às pesquisas que deram em nada. Já no centro de distribuição, o valor residual é o imóvel onde fica o galpão, que pode ser eventualmente reaproveitado em outra atividade. Além da possibilidade de venda dos equipamentos remanescentes.

A terceira característica dos intangíveis é que o conhecimento gerado por certa atividade ou empresa pode ser aplicado em outras áreas. E é difícil que o dono original da ideia tenha algum controle sobre a nova utilização. Um exemplo é o design do iPhone, que foi imitado com sucesso por outros fabricantes de telefones celulares.

Por último, os intangíveis são potencialmente geradores de sinergias. O exemplo dos autores do livro é o Epipen, um antialérgico comercializado na forma de uma caneta, simples de aplicar e associado a um marketing que realça os benefícios do produto.

Existem diversos desafios nesse novo ambiente dominado pelos investimentos em intangíveis. O mais aplicável no caso da disputa entre XP e BTG é a possibilidade de que a propriedade dos ativos intangíveis possa ser contestada.

Apesar de os AAIs atualmente vinculados à XP serem livres para cortar os laços com a corretora e buscarem novos parceiros, houve reconhecidamente um esforço desprendido ao longo do tempo para a construção dessa rede. Do ponto de vista da XP, o conjunto de AAIs formam um ativo intangível, mesmo sem ser efetivamente formalizado.

O BTG, por sua vez, busca adaptar a experiência acumulada pela XP no desenvolvimento da rede de AAIs para melhorar ainda mais o negócio e atrair alguns desses profissionais para baixo de seu guarda-chuva. É uma ambição legítima.

Já os AAIs, por serem independentes, buscam se associar às instituições que julguem capazes de lhes trazer maiores benefícios.

Os investidores devem encarar essa disputa sob o ponto de vista pragmático. Se a mudança do AAI de uma instituição para outra acrescentar em termos de segurança, diversificação e rentabilidade para suas aplicações financeiras, é um incentivo para mudar de conta. Caso contrário, o melhor é trocar de AAI.

Brasil se mantém descolado do cenário internacional

A percepção dos especialistas internacionais é que o mundo está entrando num ciclo de redução do endividamento de governos, empresas e consumidores, desencadeado pelo aumento dos juros nos Estados Unidos.

Apesar de a elevação das taxas administradas pelo Fed, o banco central americano, ter começado há mais de um ano, foi apenas no quarto trimestre de 2018 que os mercados mundiais sentiram o baque.

O S&P 500 teve a maior queda trimestral desde o terceiro trimestre de 2011. Os ativos globais de renda variável e as commodities caíram ao redor de 13% em dólares. O petróleo recuou 35%.

O impacto desses ajustes foram pouco percebidos no Brasil, que vive um outro momento do ciclo econômico após dois anos de forte recessão. O Ibovespa subiu 10% e o real valorizou cerca de 3% entre outubro e dezembro do ano passado.

No exterior, a despeito da alta dos juros de curto prazo, as taxas de longo prazo caíram. É um movimento pouco comum. O retorno médio dos títulos públicos americanos com prazo de vencimento entre sete e dez anos caiu de 3% ao ano para 2,66% ao ano no intervalo de três meses. Tradicionalmente, a razão para a ocorrência dessa dicotomia é a intuição de que uma recessão econômica está a caminho.

Como a retração tende a provocar queda no preço dos ativos, redução do emprego e queda da inflação, mais cedo ou mais tarde o banco central acaba sendo forçado a reduzir novamente os juros. Assim, a estratégia é antecipar as decisões para evitar as perdas nos investimentos de renda variável e alongar as aplicações em renda fixa.

A grande discussão entre os analistas é se o ajuste atual é apenas conjuntural ou se existem razões estruturais mais sérias para arrastar as economias globais para um período recessivo mais prolongado.

No curto prazo, o principal temor é com a gestão do endividamento. Segundo estimativas de Karen Fang, diretora do Bank of America Merrill Lynch em um painel no Fórum Econômico Mundial em Davos, a dívida global de governos, empresas e consumidores saiu de US$ 100 trilhões em 2008 para US$ 170 trilhões em 2018. Em termos relativos, a dívida passou de 170% do PIB mundial para 232%.

É mais relevante avaliar a dívida em termos relativos. Para os governos, em relação ao PIB; para as empresas, como proporção do fluxo de caixa; e para os consumidores, em relação à renda disponível.

O ajuste do endividamento é sempre mais fácil nos momentos de crescimento econômico. Vem daí a preocupação com a possibilidade de desaceleração mais forte dos negócios.

Um ponto positivo é a opinião dominante de que os bancos globais estão atualmente em uma posição mais sólida do que estavam antes da crise financeira de 2008. Isso reduz drasticamente o risco de uma paralisação sistêmica.

A contrapartida é que as regras prudenciais em vigor impedem que as instituições financeiras absorvam eventuais choques momentâneos de excesso de oferta de títulos de dívida no mercado secundário.

Hoje, os maiores detentores de títulos corporativos são fundos soberanos, países com superávit no comércio internacional, fundos mútuos e negociados em bolsa (ETFs), companhias de seguros e fundos de pensão. Em caso de venda generalizada dos títulos, a perspectiva é que a volatilidade no mercado aumente, mas sem desencadear uma crise com raízes mais profundas.

A discussão estrutural sobre os percalços da economia mundial está focada numa eventual expulsão da China da cadeia de produção global. Nessa linha, a guerra comercial capitaneada pelos Estados Unidos preocupa.

Segundo a economista Jin Keyu, da London School of Economics, a economia chinesa responde por cerca de 30% do crescimento econômico mundial, apesar da recente desaceleração. E a China começa a se transformar em um consumidor líquido de produtos, contribuindo para o aumento da demanda agregada.

Ela é otimista em relação aos problemas decorrentes do excesso de endividamento chinês e acredita que o tema pode ser resolvido com reformas para tornar a economia mais competitiva. E considera que o governo tem demonstrado poder de reação.

O Brasil aparece fora de todas essas discussões e vai surfando uma onda de recuperação interna. A grande dúvida é o quanto das turbulências internacionais podem atrapalhar a nossa retomada do crescimento.

A procura pelas estratégias mais lucrativas para 2019

Com expectativa de taxa Selic estável ou alta de no máximo meio ponto percentual, possibilidade concreta de recuperação da atividade econômica e o governo com uma agenda de reformas pró-mercado, 2019 tende a ser um ano de busca por maiores retornos no mercado financeiro brasileiro.

O cenário estimula a aplicação em diversos tipos de investimentos alternativos. Especialmente aqueles relacionados a ativos com maior oscilação de preços, tais como ações de companhias abertas, contratos nos mercados futuros de moedas, commodities ou índices financeiros e operações mais sofisticadas envolvendo opções, swaps e demais derivativos.

Dada a característica de volatilidade do retorno desses ativos, é importante manter uma disciplina para entrar e sair das posições. No jargão de mercado, a atividade é conhecida como “trading”.

A tendência é que investidores profissionais e amadores desenvolvam estratégias originais para surfar o momento. A consequência é uma corrida para estabelecer os métodos mais eficazes de identificação dos pontos de compra e venda, arbitragem entre ativos e descoberta de “pérolas” entre os papéis menos líquidos.

Nesse ambiente, o desafio é não ser tão arrojado para tomar posições que possam gerar perdas muito grandes, nem tão conservador para deixar passar as boas oportunidades.

Segundo Alex Preda, pesquisador do King’s College em Londres e que esteve no Brasil em novembro do ano passado participando da conferência Ciências Comportamentais e Educação do Investidor, organizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o trading é uma atividade social.

Mais do que apenas ganhar dinheiro, tanto os profissionais do mercado quanto os “traders” amadores compram e vendem ativos para testar suas teses e convicções. E com o desenvolvimento da tecnologia aplicada ao mercado financeiro, a atividade ficou acessível para praticamente qualquer pessoa.

O interessado encontra feiras, seminários, cursos, “newsletters” e grupos de estudo para ensinar e incentivar a negociação de diversos ativos financeiros. Basta pesquisar na internet e encontrar a alternativa mais adequada.

Os economistas chamam o trading de jogo de soma zero. Isso porque o sucesso de uma posição depende do fracasso de outra realizada por uma contraparte.

Para entender, imagine uma situação na qual você compra uma ação ao preço de R$ 100 e vende logo em seguida por R$ 110, apurando um ganho de R$ 10. Esse lucro só foi conseguido às custas do prejuízo de alguém que vendeu a ação por R$ 100 e recomprou por R$ 110.

Com base nesse conceito os economistas avançam na argumentação racional: se você fizer transações de compra e venda repetidas vezes, de forma mecânica, em alguns casos terá lucro e em outros prejuízos. Estatisticamente, se as chances de ganhar ou perder forem ambas de 50%, no fim de um determinado período estará no zero a zero.

Mas os “traders” mais bem sucedidos conseguem desenvolver métodos de negociação que aumentam suas chances de ganho. Pelo menos agem com a confiança de que a estratégia pode dar certo por determinado período de tempo.

Caso não fosse assim, o volume de negociação no mercado secundário seria muito menor do que efetivamente acontece e as compras e vendas estriam restritas às pontas interessadas em adquirir ou se desfazer dos ativos. Um turista que voltou de viagem e outro que ainda vai viajar no mercado de câmbio, por exemplo.

Apesar de o sucesso de uma posição depender do fracasso de outra, existe muita colaboração entre os “traders”, especialmente os amadores. Diversos grupos são criados para discutir o comportamento do mercado e refinar as melhores estratégias.

Muitas vezes o acesso a esses grupos é facilitado por corretoras, distribuidoras e demais participantes do mercado financeiro.

Dependendo da quantidade de horas que o investidor decida alocar à atividade de negociação de ativos, as tarefas dentro de um grupo podem se tornar complexas. Em alguns casos, o trabalho é dividido de forma semelhante ao que é feito nos grandes bancos de investimento.

De toda forma, é importante o investidor ter em mente que qualquer estratégia de negociação demanda algum tempo para ser adaptada e se tornar lucrativa. Portanto, é natural que existam momentos de perdas e é preciso estar financeiramente preparado para encarar os revezes.

O ambiente atual do mercado no Brasil é desafiador para quem quiser assumir mais riscos.

Educação financeira tem papel relevante na redução do spread

A atividade bancária no Brasil é lucrativa e arriscada. O retorno sobre o capital, que mede a relação entre o lucro e o patrimônio líquido, registrado pelos cinco maiores bancos brasileiros está entre os mais elevados de um conjunto composto pelas maiores instituições que operam em 12 mercados emergentes e desenvolvidos.

Entretanto, apesar de lucrativa no país, é uma atividade difícil de alavancar. Significa que reproduzir o negócio não é simples. Essa é uma das razões que explicaria a concentração recente do mercado bancário nacional em poucos participantes e a saída de diversas instituições estrangeiras da operação no varejo.

Os bancos no Brasil estão sujeitos a uma série de obrigações operacionais, tributárias, administrativas e legais que encarecem as operações. E causam incertezas, na medida em que as regras podem ser modificadas.

Para os tomadores de recursos, a consequência palpável desse arcabouço é o alto custo dos empréstimos. Em 2016, a diferença média entre a despesa de captação dos bancos nacionais e a taxa de juros dos financiamentos foi de 22% ao ano. A mediana de uma amostra de 12 países foi de 4% ao ano, menos de 20% em relação ao Brasil.

Comparação do spread em países selecionados (% ao ano)   clip_image002

 
                                                                                                                                                                                                                                              fonte: Como fazer os juros serem mais baixos no Brasil      

A diferença entre custo de captação e taxa de empréstimo é chamada de spread, no jargão dos especialistas. O spread elevado causa uma série de consequências: o crédito custa caro para o tomador, o volume de financiamentos em relação ao PIB é baixo e a inadimplência é alta. Tudo isso dificulta o crescimento econômico.

É um círculo vicioso que a Febraban, a federação dos bancos, se propõe a interromper. Um diagnóstico foi publicado no livro “Como fazer os juros serem baixos no Brasil”. O trabalho contém propostas para tornar a operação bancária no país mais eficiente.

No capítulo 3, o livro aponta a inadimplência como o maior vilão do spread bancário. Os bancos afirmam que precisam cobrar juros mais altos dos bons pagadores para compensar as perdas causadas pelos inadimplentes.

É um argumento surpreendente e contraintuitivo. A impressão para o leigo é que o lucro da atividade é apropriado pelos acionistas dos bancos e os prejuízos são repartidos entre os demais tomadores de empréstimos, num cenário que desestimula as instituições a serem mais eficientes.

Seria mais natural que os bancos investissem na melhoria dos controles de concessão de crédito para evitar os calotes. A consequência seria o alijamento do mercado dos maus pagadores e juros menores como um todo.

Ao longo do texto os bancos explicam que até tentam ser mais eficientes, mas diversas amarras legais os impedem de atingir o objetivo.

O cadastro positivo, que facilita o acesso às informações financeiras dos brasileiros, precisa ser aperfeiçoado; as execuções dos bens dados em garantia precisam ser mais intempestivas; e o uso da tecnologia deve ser direcionado para a criação de modernos instrumentos que facilitem a representação e negociação do crédito.

Para financiar a carteira de crédito, as instituições captam recursos no mercado. Mas se os recursos captados não puderem ser livremente aplicados, isso representa um custo de oportunidade.

Os depósitos compulsoriamente recolhidos ao Banco Central e os empréstimos obrigatoriamente direcionados a determinados setores ou atividades são empecilhos para que os bancos emprestem livremente para os clientes que considerem mais rentáveis. Portanto, acabam aumentando os custos operacionais e impactando o spread.

O livro também faz críticas aos altos impostos incidentes sobre a atividade bancária. Se a tributação fosse menor, o spread poderia ser reduzido.

O capítulo 6 que aborda o cheque especial e o cartão de crédito é o mais interessante sob o ponto de vista da educação financeira e da relação entre as pessoas e os bancos.

No passado, para os bancos, a principal função do cheque especial era facilitar as compras parceladas com cheques pré-datados. Atualmente esse papel passou a ser exercido pelo cartão de crédito, que se tornou um dos meios de pagamento mais importantes na economia brasileira.

Tanto o cheque especial quanto o cartão de crédito têm uma atribuição para os bancos diferente daquilo que a maioria das pessoas acredita.

Os juros do cheque especial são mais um complemento da tarifa bancária, desde que a pessoa fique no negativo por dois ou três dias. Já o cartão de crédito é um instrumento para facilitar as vendas, especialmente do varejo.

Portanto, apesar do nome, é fundamental entender a real utilidade dos instrumentos financeiros para evitar as armadilhas dos juros exagerados que levam ao superendividamento.

Desafios para educação financeira no Brasil ainda são grandes

A educação financeira é fundamental para o desenvolvimento pessoal e o progresso econômico do país. Na medida em que aprendemos o valor do dinheiro no tempo, somos capazes de tomar decisões mais embasadas e que levam a maior satisfação no longo prazo. Conjuntamente, as escolhas financeiras individuais terminam por impactar o bem estar de toda a população.

Opções tais como consumir hoje, poupar para o futuro, assumir um endividamento com prazo determinado e estratégia clara para a quitação, estabelecer um plano de investimentos com objetivos específicos ou administrar um negócio ficam mais fáceis de serem avaliadas se o conhecimento financeiro for alto.

A prática, no entanto, revela que a transmissão de conhecimento financeiro não é tarefa simples. Alguns programas de educação financeira acabam sendo mais bem sucedidos do que outros.

O assunto foi tema do seminário Novas Tendências em Educação Financeira e da conferência Ciências Comportamentais e Educação do Investidor. Os eventos foram realizados entre os dias 12 e 14 de novembro em São Paulo e contaram com a organização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Um dos motivos para um programa de educação financeira não atingir o resultado esperado é a desconexão com o público alvo. Por exemplo, ao não levar em conta a variabilidade das receitas daquela população que se deseja impactar.

O assunto foi abordado pelo professor Jonathan Morduch, autor do livro “The financial diaries” (“Os diários financeiros”, numa tradução livre). A obra de Morduch é resultado do acompanhamento financeiro semanal de um grupo de 235 famílias americanas com renda anual pouco acima da linha da pobreza. Esse público é representativo de uma parcela significativa da sociedade.

A motivação para a pesquisa foi a sensibilidade de que, apesar de a renda anual de muitas famílias ser suficiente para oferecer um padrão de vida minimamente confortável para os parâmetros americanos, a variabilidade dos ganhos no mês a mês acarretava impactos relevantes.

Nessa linha, os aconselhamentos tradicionais de que é preciso poupar parte da receita para os momentos difíceis e separar outro tanto para a aposentadoria são sugestões pouco factíveis para esse público.

Ao longo do período de um ano, uma parcela do superávit orçamentário conseguida nos meses bons é necessariamente consumida nos meses ruins. A gestão financeira das contas da família se torna muito mais complexa.

A situação exige sólidos fundamentos de administração do capital de giro, liquidez dos investimentos e gestão de passivos. Além de um bom relacionamento com as instituições financeiras.

Como essa sofisticação é difícil de atingir, o estudo de Morduch buscou entender e tentar generalizar as alternativas usadas por esse público. As conclusões podem servir de embasamento para as políticas públicas.

A realidade brasileira é semelhante. Alexandre Comin, do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), destacou no seminário a sazonalidade dos pequenos negócios. E as dificuldades que os empreendedores têm com as inovações financeiras.

Muitas vezes, com a expectativa de melhorar o fluxo de caixa, pequenos comerciantes acabam assumindo endividamento muito oneroso devido à facilidade para antecipar os recebíveis. Isso pode acabar se refletindo no descontrole das contas e causar inadimplência.

A Plano CDE, empresa brasileira especializada em pesquisa e avaliação de impacto nas famílias nas famílias das classes C, D e E do Brasil, também abordou o assunto com um estudo parecido com o de Morduch. Em parceria com a Fundación Capital, um empreendimento social, e o Guia Bolso, uma startup financeira, fez uma espécie de diário financeiro digital identificando o perfil financeiro das famílias das classes mais baixas.

Entre as principais constatações está a observação de que as famílias possuem múltiplas fontes de renda e que essas receitas são variáveis. Como consequência dessa dinâmica, aparecem conflitos entre o orçamento de casa e as despesas individuais.

Os gastos em espécie são proporcionalmente maiores do que os das famílias de maior renda e existe uma desconfiança generalizada no sistema financeiro. De uma forma geral, as famílias das classes C, D e E preferem manusear o dinheiro do que efetuar transações eletrônicas por meio de aplicativos.

É fundamental que os programas de educação financeira atuem em linha com os valores e objetivos de cada parcela da população.

Padrões de avaliação de informações influenciam decisões de investimento

Qualquer investidor que já tenha se deparado com um prospecto de emissão de um título ou valor mobiliário ficou com pelo menos duas impressões iniciais.

A primeira foi positiva, dado o grau detalhamento sobre as operações da companhia. A segunda foi negativa, devido ao desafio de encarar a enorme quantidade de informações disponíveis.

Tanto empresas que buscam captar recursos para financiar suas atividades quanto reguladores que fiscalizam as operações no mercado de capitais possuem um objetivo comum. É preciso transmitir informações relevantes para que o investidor tome a decisão de investimento da forma mais embasada possível.

No entanto, existem controvérsias sobre a melhor forma de atingir essa meta.

Do ponto de vista da racionalidade econômica, é melhor ter mais informações do que menos. Isso porque, no fim, tudo ganha o devido peso e acaba incorporado ao preço de mercado do ativo.

Mas a percepção é de que o excesso de informação é contraproducente. Um exemplo emblemático é a seção de riscos de alguns prospectos, em que os pontos elencados chegam a ser risíveis.

Existem explicações psicológicas para o sentimento de desconforto que surge quando nos deparamos com o exagero de dados. Como a atenção é um recurso escasso, não é fácil distinguir entre as informações que são relevantes e as que podem ser descartadas.

Para aprofundar o tema, a pesquisadora Bianca Checon uniu psicologia e contabilidade na tese “Atenção limitada, o uso da informação contábil e seus impactos na tomada de decisão de investimento individual”. O trabalho foi feito para conclusão do curso de doutorado no departamento de contabilidade e atuária da Faculdade de Economia, Administração e Atuária da USP.

Uma das contribuições originais da tese foi buscar identificar quais os padrões de informações contábeis e não contábeis que os investidores brasileiros se apoiam para embasar suas escolhas.

O estudo avaliou o processo de decisão de um conjunto de investidores profissionais e individuais. A técnica utilizada, chamada metodologia Q, procura medir os aspectos subjetivos que influenciam os investidores a levar em conta certas informações em detrimento de outras.

Em entrevistas, a pesquisadora pediu para que os investidores ordenassem, por grau de relevância, 62 itens relacionados a oito grupos de informações.

Os itens foram reunidos por notícias das companhias, fatos relevantes divulgados pelas empresas, dados históricos das ações, informações macroeconômicas, informações contábeis, indicadores contábeis, informações de terceiros e banco de dados de informações.

A premissa da metodologia é que os processos de decisão individuais estudados a partir de uma amostra acabam formando alguns conjuntos significativos com características comuns. A identificação desses padrões é feita estatisticamente e as conclusões podem ser generalizadas.

Para o grupo formado por investidores profissionais (IPs), os resultados indicaram que as decisões são tomadas de uma maneira estratégica. E que os itens avaliados são coerentes e alinhados com a abordagem escolhida.

De uma forma geral, os IPs começam por uma avaliação qualitativa da empresa ou do ambiente de negócios. Depois aprofundam o entendimento analisando aspectos quantitativos. Finalmente, buscam corroborar as conclusões com fontes externas. A pesquisa detectou três abordagens principais.

Na primeira, que poderia ser chamada de “conhecendo a companhia a partir das informações divulgadas”, o passo inicial é entender o modelo de negócios da empresa. Em seguida são avaliadas informações do setor de atuação. E, finalmente, são estudados os indicadores de liquidez das ações e desempenho operacional.

A segunda abordagem tem início na avaliação geral e vai para o particular. A estratégia é começar com o estudo de indicadores macroeconômicos e dados sobre o negócio e o desempenho passado da companhia avaliada. Depois, identificada a oportunidade de investimento, são feitas as demais análises mais aprofundadas da companhia.

A terceira forma adotada pelos IPs pode ser caracterizada como uma combinação das duas primeiras.

A abordagem dos investidores individuais (IIs) difere significativamente da dos profissionais. Para esse grupo foram detectadas quatro maneiras para avaliar as informações.

Em todas os estudos estatísticos indicaram que são considerados um excesso de itens com informações parecidas. Isso indica que os IIs perdem tempo avaliando dados semelhantes.

Outro aspecto relevante é que não existe um consenso entre as abordagens adotadas pelos IIs. Com dificuldades para administrar o excesso de informações, o resultado é que a avaliação de dados quantitativos antecede as análises qualitativas.

Como a abordagem dos IIs é significativamente diferente das dos IPs, a percepção do estudo é que isso leva a resultados piores no longo prazo. Mas esse fato não foi testado.

Do ponto de vista pragmático, o trabalho sugere que os investidores individuais estariam mais bem atendidos caso delegassem seus investimentos para investidores profissionais, mesmo que essa decisão implicasse algum tipo de custo adicional.

Além da possibilidade de atingir uma melhor relação entre risco e retorno, reduziria a complexidade da gestão dos investimentos.