Condicionamento operante para investir no Ibovespa

Mesmo com a crise política, sinais ainda frágeis de recuperação econômica e lucro por ação das companhias abertas abaixo da média histórica, o Ibovespa atingiu o recorde de 76 mil pontos no pregão do dia 18 de setembro.

A aposta predominante é que a queda dos juros, a condução austera da política econômica e a falta de um substituto para viabilizar o possível afastamento do presidente Temer para que as denúncias oferecidas pela Procuradoria Geral da República sejam apuradas levarão a uma transição com relativamente poucos solavancos até a posse do novo governo em 2019.

No ambiente externo, o consenso é que a estabilidade da inflação em patamares muito baixos, mesmo com todo o aumento da oferta monetária promovida pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, continuará postergando a alta das taxas de juros pelo mundo. E a ameaça nuclear da Coreia do Norte ainda é vista com certo desdém.

Neste cenário menos racional e mais emocional, os aspectos psicológicos ganham importância para explicar o rumo dos investimentos no mercado financeiro. O risco, em contrapartida, é surgir um certo condicionamento para aceitar que a alta das bolsas e demais ativos de risco seria um fenômeno natural e inevitável.

Um dos campos da economia comportamental é o estudo de como os estímulos influenciam nossas atitudes. Esse tipo de análise é usado, principalmente, para identificar e tentar prever o comportamento do consumidor.

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A ideia é que para um determinado estímulo, existirá uma resposta que poderá ser reforçada por um outro estímulo. Isso ocorre de forma planejada com o objetivo de, por exemplo, aumentar a eficácia das vendas.

O pesquisador Gordon R. Foxall desenvolveu um arcabouço teórico que chamou de modelo de perspectiva comportamental, BPM na sigla em inglês. A base da argumentação é que é possível influenciar o comportamento do consumidor por meio do desenvolvimento de diversas relações que, na psicologia, se chama de condicionamento operante.

Resumidamente, a teoria descreve que por meio de uma combinação de estímulos chamados de reforços e punições, positivos e negativos, é possível moldar um determinado comportamento.

Para entender o conceito, imagine que o objetivo de uma determinada ação seja fazer com que as pessoas dirijam de maneira segura. O reforço positivo é a recompensa que a pessoa recebe se agir conforme o objetivo proposto.

Nesse exemplo, a economia de combustível que será conseguida se o motorista respeitar as velocidades sugeridas será um reforço positivo. É um ganho financeiro palpável.

Já o reforço negativo é a eliminação de algo desagradável caso a atitude correta seja tomada. No exemplo isso ocorre quando o motorista afivela o cinto de segurança e o som desagradável do apito disparado pelo sistema de segurança do veículo é eliminado.

A punição positiva é quando uma multa é aplicada por excesso de velocidade. E a punição negativa acontece quando a carteira de motorista é cassada após uma série de infrações graves e a pessoa fica proibida de dirigir.

A partir da aplicação destes conceitos, os especialistas em economia comportamental desenvolveram uma série de análises para definir modelos de comportamento. Muitas delas podem ser aplicadas ao mercado financeiro.

A recente alta do Ibovespa, de quase 100% desde 31 de janeiro de 2016 pode ser encarada como um reforço positivo. A rentabilidade passada das aplicações tem um forte poder de atração de novos recursos e de alimentar novas altas do mercado.

Um exemplo de reforço negativo é o fim da restrição para aplicação em um fundo rentável. Isso ocorre principalmente nos fundos multimercados, quando carteiras que estavam fechadas para aplicações reabrem ou quando produtos antes restritos a clientes institucionais passam a ser oferecidos nas plataformas de varejo dos distribuidores.

O investidor que sacou recursos da bolsa nos momentos de baixa do mercado tende a encarar a alta recente como uma punição positiva, já que amargou uma perda que poderia ter evitado.

E quando o Banco Central reduz a taxa Selic, a queda da remuneração das aplicações indexadas aos juros de curto prazo (CDI ou Selic) pode ser vista como uma punição negativa. O investidor deixa de ter a possibilidade de obter ganhos elevados e com baixo risco.

Nesse atual ambiente de incertezas, é prudente tomar cuidados extras e delegar parte da gestão dos recursos a um administrador profissional. Tentar acertar os altos e baixos do mercado parece excessivamente arriscado.

Alta do Bitcoin realça demais ativos virtuais

Imagine que você acumulou uma pequena fortuna comprando o equivalente a R$ 5 mil em bitcoins em janeiro de 2013 e hoje seu investimento valha cerca de R$ 10 milhões. Qual a melhor estratégia daqui para frente?

Se resolvesse seguir as recomendações de um consultor financeiro, a decisão seria diversificar os investimentos. É essa lógica que começa a movimentar os negócios com ativos virtuais no mundo.

Um mercado vibrante de ofertas iniciais de moedas (ICOs na sigla em inglês) vem sendo desenvolvido progressivamente. Segundo reportagem da revista “The Economist”, montante equivalente a mais de US$ 2 bilhões foi alocado nessas modalidades desde 2013.

As moedas virtuais vendidas em oferta pública são, na verdade, um meio de pagamento que serve para comprar os produtos e serviços comercializados pelas companhias que emitiram esses ativos. São chamadas, também, de “tokens”.

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Para entender a mecânica, considere uma empresa interessada em gerar energia elétrica a partir da utilização de painéis solares. A companhia poderia, em tese, emitir uma moeda virtual, por exemplo o solar, que seria usada apenas para aquisição da energia produzida pela própria empresa.

Se o projeto efetivamente der certo e a demanda por energia renovável subir, o solar tende a valorizar. E os investidores que compraram a moeda na oferta inicial realizariam um lucro expressivo.

Para a empresa, a vantagem é fazer uma pré venda da energia futura que ainda não foi produzida. E usar os recursos captados para financiar a empreitada.

Se a emissão da moeda virtual da companhia elétrica fosse trocada apenas por bitcoins, sem o envolvimento de moedas tradicionais tais como o real ou o dólar, é provável que os órgãos reguladores tivessem pouco poder para regulamentar a transação. Isso ocorreria tanto com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do Brasil quanto a Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA.

Potencialmente, um mundo financeiro diferente, mais acessível e menos regulamentado poderia surgir em decorrência do crescimento do mercado de moedas virtuais. Qualquer investidor que se interessasse pelo projeto de uma determinada empresa poderia comprar ativos virtuais emitidos por essa companhia.

Conceitualmente, a forma de financiamento da operação da companhia elétrica hipotética não é nada inovadora. Estruturas financeiras envolvendo a antecipação de receitas futuras para viabilizar a captação de recursos para o desenvolvimento de um empreendimento são relativamente comuns no mercado de capitais.

O que promete ser revolucionário é a ampliação do acesso a esse tipo de operação para empresas e investidores de maneira generalizada. A expectativa dos futuristas é de um amplo processo de desintermediação institucional.

Isso seria possível a partir da chamada internet dos valores e da tecnologia “blockchain”. Para discutir o assunto, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo organizou o evento “Revolução Blockchain”, no fim de agosto.

O encontro trouxe Don Tapscott, considerado um dos pensadores mais influentes do mundo, que apresentou sua visão otimista sobre os impactos do blockchain. Para o especialista, os governos podem ter um papel ativo na defesa da privacidade dos cidadãos difundindo o uso da nova tecnologia.

Hoje, ao realizarmos qualquer transação na internet vamos deixando rastros pelo caminho. Essas informações são coletadas e apropriadas pelas empresas gigantes do setor de tecnologia, tais como Facebook, Google e Amazon, que lucram com esses dados.

No relacionamento entre governos e cidadãos, o blockchain acena com uma forma mais eficiente e rápida na prestação de contas. Ou mesmo na execução de políticas públicas.

Empresas que processam pagamentos, bancos e demais instituições financeiras estão empenhados em entender e desenvolver aplicações para o blockchain. No mínimo para entender os impactos da nova tecnologia e adaptarem seus negócios a tempo.

Nesse ambiente futurista, otimista e pouco regulamentado, o investidor deve ter cautela com as promessas de ganhos rápidos e estratosféricos com as moedas virtuais. A rentabilidade passada tem sido um forte atrativo para convencer os mais céticos.

A maioria dos investidores perdeu a oportunidade de lucrar com a alta do bitcoin. Agora, a lista de ativos virtuais que se apresentam como alternativas para recuperar o ganho que ficou para trás aumenta dia a dia.

Entretanto é prudente seguir o exemplo dos bancos e, antes de investir em qualquer moeda virtual, entender profundamente os impactos reais do blockchain para os investimentos.

Retorno do investidor é diferente de ganho do fundo

Quase dois terços dos fundos de ações registraram rentabilidade acima do Ibovespa no período de janeiro a julho deste ano, conforme indicado pelos mais variados rankings.

A análise de uma amostra mais específica, reunindo 261 carteiras com um mínimo de 100 cotistas, patrimônio líquido acima de R$ 50 milhões e potencialmente acessíveis aos investidores, indica que a média de ganho dos fundos foi 2,7 pontos percentuais superior à variação do principal indicador da bolsa brasileira.

Apesar do excepcional desempenho obtido pelo conjunto de gestores, uma boa parte dos cotistas desses fundos não conseguiu os mesmos retornos listados nas tabelas de rentabilidade. De forma surpreendente, o ganho percebido por diversos investidores foi menor do que o apresentado pelas carteiras.

Do ponto de vista prático, quando analisaram os extratos dos investimentos, muitos perceberam que o desempenho das aplicações foi inferior ao que foi divulgado pelo fundo. A falta de entendimento sobre essa defasagem pode gerar insegurança a respeito da conveniência de manter a aplicação.

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A explicação para a diferença de rendimentos está relacionada com o momento em que o investidor tomou a decisão de aplicar em determinada carteira. Como a rentabilidade passada é um forte chamariz para atrair mais investidores, um volume grande de aplicações tende a ocorrer após um período de maior rentabilidade do fundo.

Essa é a regra geral. Apesar de todas as ressalvas, o desempenho anterior estimula o aumento da captação de recursos para a carteira.

Imagine o caso prático de um fundo que teve excelente desempenho no primeiro trimestre do ano. Com o destaque conseguido em função da divulgação dos números de rentabilidade, o esperado é que ele atraia mais recursos nos períodos seguintes.

Entretanto, como o desempenho dos gestores tende a ser cíclico, é provável que a rentabilidade no restante do ano acabe sendo inferior àquela que foi obtida no primeiro trimestre, em termos relativos. Nesse caso, para o desconforto dos novos investidores, o pior desempenho acontece justamente durante os meses em que o fundo captou mais recursos.

Boa parte dos investidores fica, então, com a sensação de que tomou a decisão de aplicar no momento errado. Sem parâmetros e na falta de uma análise consistente, há o risco de escolhas erradas.

Existe um padrão para estimar o retorno do investidor em fundos de investimento. Segundo a metodologia usada pela Morningstar, o objetivo é calcular uma taxa de retorno que igualaria o patrimônio final do fundo conforme divulgado nas demonstrações contábeis, a partir do patrimônio inicial e considerando todos os fluxos de captação e resgates.

Feitas as contas para os fundos de ações integrantes da amostra anteriormente definida, constata-se que a diferença média entre o retorno do investidor e a rentabilidade dos fundos no período de janeiro a julho deste ano foi negativa. De fato, os fundos mais rentáveis atraíram mais recursos, mas não conseguiram manter o bom desempenho após o aumento do patrimônio.

A média da diferença entre o retorno do investidor e o ganho dos fundos foi de -3,9 pontos percentuais. A mediana, uma estatística que busca amenizar os efeitos extremos, foi de -2,1 pontos percentuais.

O fato de o retorno do investidor ser menor do que o desempenho do fundo no período completo não é, necessariamente, negativo. Desde que os ganhos totais do investidor superem os principais índices de referência do mercado, esse custo pode ser suportável.

Mas não foi o que aconteceu no período analisado. A diferença entre a média do retorno do investidor e a rentabilidade do Ibovespa foi de -1,2 pontos percentuais.

De forma intrigante, apesar da média do retorno dos fundos ter superado com folga o rendimento do Ibovespa, o retorno médio do investidor em fundos foi inferior ao indicador.

A maneira consistente de encarar a diferença entre o retorno do investidor e o ganho dos fundos é reavaliar periodicamente os objetivos do investimento. Além de escolher um bom fundo de um gestor confiável, é fundamental manter bem definido o motivo daquela aplicação financeira.

É natural que os fundos mais rentáveis acabem se destacando e chamando a atenção. Mas em vez de admirar a capacidade do gestor, mais importante é identificar como aquele fundo pode ser útil para compor a estratégia global da carteira.

Bitcoin e “blockchain” desafiam os investidores

O ativo financeiro virtual mais famoso da internet é o bitcoin. Por meio de uma tecnologia chamada “blockchain”, todas as transações envolvendo bitcoins são registradas eletronicamente numa espécie de livro caixa criptografado.

A principal característica do mecanismo é que o registro dos negócios não é centralizado ou administrado por uma única instituição. O histórico das transações é armazenado em blocos que somente se encaixam se for utilizada certo tipo de chave.

E para haver a efetiva liquidação das operações, a cadeia de transações deve ser validada pelos demais participantes do mercado, que precisam confirmar a veracidade da chave divulgada. O desenvolvimento dessa intrincada engrenagem é atribuído a uma pessoa – ou a um grupo – que usou o pseudônimo de Satoshi Nakamoto.

Na prática a tecnologia do “blockchain” implica mudança significativa na forma como a internet pode ser utilizada. Em vez de distribuir e compartilhar informações, passa ser possível a transferência eletrônica da propriedade de ativos.

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Por essa razão, a expectativa é que, no futuro próximo, será construída uma internet dos valores. Nesse novo ambiente, ao enviar um arquivo contendo determinado código, a propriedade do bem será automaticamente transferida.

É possível imaginar diversos usos para a tecnologia, tais como operações no mercado financeiro, transações de comércio internacional e a compra e venda de imóveis.

Concretamente, hoje já existem 16,5 milhões de bitcoins no mercado. Por construção, o estoque máximo de bitcoins emitidos será de 21 milhões.

Até que o número limite seja atingido, os verificadores das transações, chamados no jargão do mercado de mineradores, podem criar bitcoins conforme o volume de cálculos executados. A rede de mineradores é que garante o processamento das transações e o crescimento do mercado.

Ninguém foi capaz, pelo menos por enquanto, de invadir o sistema para criar bitcoins falsos. Isso tem garantido a confiança na segurança da estrutura e atraído novos participantes.

Nas operações bancárias tradicionais, o banco é a instituição responsável pelo controle do livro caixa das transações. E cobra tarifas por esse serviço.

Por exemplo, para enviar um TED ou DOC, o banco exige o pagamento de determinada remuneração. O mesmo acontece para manter a conta corrente ativa e emitir extratos.

As operadoras de cartão de crédito também cobram para processar as transações entre lojistas e consumidores. O mesmo acontece com as bolsas de valores e de mercadorias para administrar a posição de cada investidor.

Em algumas transações os custos podem ser tão altos a ponto de inviabilizar as operações de pequeno montante, como no caso das transferências internacionais de valores financeiros.

Uma das ideias do bitcoin, portanto, é baratear os custos das transações. A consequência pode ser o aumento no volume de negócios.

Por exemplo, um desenvolvedor de softwares no Brasil pode contratar os serviços de um programador na Ucrânia e pagar pelo trabalho por meio da transferência de bitcoins. Nessa situação o bitcoin é usado como um meio de troca.

Considerando que a atual estrutura da internet já viabiliza a troca de arquivos sem barreiras geográficas, o uso em larga escala do bitcoin teria o efeito de estimular o comércio global de bens e serviços.

Dado que o bitcoin possui cotação tanto em dólares quanto nas demais moedas mundiais, o programador ucraniano do exemplo poderia optar por manter parte de sua remuneração recebida do desenvolvedor brasileiro em bitcoins, como uma poupança. Nesse caso o bitcoin também teria a função de reserva de valor.

Por fim, a decisão do programador ucraniano poderia ser a de gastar parte dos bitcoins na compra de produtos e serviços para serem consumidos no dia a dia.

Mas, nesse caso, a tarefa seria mais complicada. Apesar de existirem formas de se gastar os bitcoins, a incerteza em relação ao valor real de um produto ou serviço com preço denominado em bitcoins é muito alta. Por isso, o bitcoin ainda não serve como uma unidade de conta.

Mesmo não sendo uma moeda, o bitcoin possui um valor especulativo. A cotação de um bitcoin saltou de pouco menos de US$ 300 em julho de 2015 para cerca de US$ 2 mil em julho deste ano.

Para negociar os bitcoins, vale o alerta: como em todo investimento especulativo, é fundamental conhecer os riscos envolvidos e ficar atento para não ser o último a sair.

Como usar fundos de investimento para aumentar o retorno

Desde junho de 2013, o Brasil vive ciclos de instabilidade política, manifestações populares e as consequências das investigações no âmbito da operação Lava Jato.

No lado real da economia, o país entrou na pior recessão da história e registra taxas recordes de desemprego. Nesse período de turbulências, a variação dos principais ativos financeiros foi intensa.

Após oscilar na faixa entre R$ 2,14 e R$ 2,40 até outubro de 2014, o dólar atingiu a máxima de R$ 4,12 em setembro de 2015. A cotação voltou a cair até a mínima de R$ 3,08 em fevereiro de 2017 e agora a moeda é negociada no patamar de R$ 3,30.

Já o Ibovespa, o principal indicador da bolsa, oscilou na maior parte do tempo entre 45 mil e 55 mil pontos até chegar à mínima de 38 mil pontos em janeiro de 2016. Depois, marcou a máxima de 68 mil pontos em fevereiro de 2017 e atualmente está no patamar de 62 mil pontos.

A taxa Selic, por sua vez, subiu de 8% ao ano para 14,25% ao ano até outubro de 2016, quando o Banco Central iniciou o período de redução dos juros. A taxa básica atualmente está em 10,25% ao ano e a previsão é de mais cortes pela frente.

Longe dos Emergentes

Nesse ambiente extremamente volátil, é natural que o investidor busque ajuda dos profissionais do mercado financeiro para ter maior segurança em suas decisões. No entanto, mais importante do que correr atrás da rentabilidade, é fundamental estabelecer uma estratégia consistente.

Para exemplificar como a instabilidade afeta os ativos financeiros, considere o desempenho dos fundos de investimento classificados na categoria multimercado. As carteiras possuem ampla liberdade para escolher os ativos potencialmente mais rentáveis. Os gestores trabalham com as variações da taxa de juros, Ibovespa e dólar, além de ativos negociados no exterior.

Entre junho de 2013 e junho de 2017, a rentabilidade de uma aplicação indexada à variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) foi de 58%. Essa é a modalidade mais tradicional do mercado e acessível a praticamente todos os investidores, com diferenças de remuneração conforme a instituição ou o produto financeiro selecionado.

Já a mediana do retorno dos principais fundos multimercado com histórico completo para o período foi um pouco maior, de 59%. Na linguagem do mercado, a mediana do retorno dos fundos foi de 102% do CDI. Os dados são da Morningstar e incluem o total de 217 carteiras.

A dispersão de rentabilidade foi grande. O melhor fundo multimercado teve rentabilidade de quase 100%, equivalente a 172% do CDI. O pior apresentou rendimento de 33% no período, pouco menos de 60% do CDI.

Avaliando o desempenho passado, é possível concluir que além de habilidade ou sorte para escolher as melhores carteiras, o investidor precisou manter a calma e o sangue frio. Todos os melhores fundos passaram por períodos relativamente longos de rentabilidade sofrível.

Entre os fundos de ações a história não foi muito diferente. A rentabilidade do Ibovespa foi de apenas 14% no intervalo analisado, aproximadamente igual à mediana do retorno de 237 fundos de ações.

A diferença para os multimercados é que a dispersão da rentabilidade dos fundos de ações foi maior. A pior carteira teve prejuízos de 30% e a melhor teve ganhos de 80%. Foram desconsiderados os fundos que foram liquidados ao longo do período.

A lição que fica é que não basta correr mais risco para, necessariamente, obter mais retorno no longo prazo. O período de quatro anos é relativamente longo e ainda assim muitas carteiras arriscadas tiveram prejuízo.

Outro aspecto relevante é que, muitas vezes, o desempenho de fundos da moda acaba se mostrando inconsistente ao longo do tempo. O argumento de que um gestor brilhante decidiu montar sua própria “asset” independente e o investimento é uma oportunidade única deve ser avaliado com cautela.

Por uma série de razões que não tem relação com a capacidade individual, fundos de bons gestores podem não conseguir a rentabilidade almejada. Na dúvida, é recomendável agir com prudência.

O ponto positivo é que os fundos de investimento que possuem uma estratégia sólida e possível de ser compreendida são excelentes oportunidades de diversificação. Mas para identificar um bom fundo, o investidor precisa ter a sua própria estratégia.

O primeiro passo é estabelecer o horizonte de investimento. Em seguida, definir o percentual da carteira que será alocado em renda fixa ou variável. Depois, elencar os tipos de ativos e indexadores que farão parte do investimento.

A partir daí é possível selecionar os fundos mais adequados para a execução da política de investimento estabelecida.

Investir se tornou negócio mais arriscado após Lava Jato

A forte alta do dólar em relação ao real e a queda expressiva do preço das ações e dos títulos públicos brasileiros em 18 de maio, um dia depois que o presidente Michel Temer foi envolvido em acusações pela JBS, marcou o ápice de uma marcha que começou em março de 2014.

Desde que a Operação Lava Jato inaugurou a fase ostensiva, investir no Brasil passou a ficar cada vez mais arriscado.
Uma das maneiras de estabelecer o risco dos ativos financeiros é medir o grau da oscilação diária dos preços.

Ao aplicar hoje num título de renda fixa vinculado aos juros de curto prazo, por exemplo, a expectativa é que no fim de um ano a rentabilidade atinja por volta de 8,6%. A variação diária é bem pequena e, no fim, a acumulação das taxas tende a garantir o retorno próximo ao esperado.

Já o investimento na Bolsa é muito menos previsível. A rentabilidade diária do Ibovespa, o principal índice do mercado brasileiro, pode facilmente ultrapassar a marca de 1%, para cima ou para baixo.

A consequência é que, no fim do período de um ano, o rendimento total da aplicação em ações pode ser muito diferente do que foi originalmente imaginado. O risco está associado à dificuldade de prever a rentabilidade futura.

Os especialistas do mercado financeiro desenvolveram um método para estimar o risco dos ativos, conhecido no jargão como volatilidade. Por esse critério, é possível comparar diferentes riscos nos mais variados mercados.

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Até o começo de 2014, a volatilidade do mercado de ações no Brasil era, em média, 50% maior do que nos demais países emergentes. Desde março de 2014, essa diferença vem aumentando e atingiu o pico de sete vezes em 18 de maio. Além da intensificação da Lava Jato, houve uma eleição apertada, o impeachment e a troca do governo nesse período.

A redução do risco político é fundamental para reduzir as surpresas com os ganhos das aplicações financeiras.

Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo

Impacto das perdas do dia 18 de maio nos investimentos

Em finanças, um evento considerado raro, mas que após um período acaba acontecendo com frequência maior do que o anteriormente imaginado, é chamado de “cisne negro”. O professor e investidor Nassim N. Taleb foi o responsável pela popularização do conceito.

Tradicionalmente, a premissa usada para avaliar os ativos financeiros é que existe certa expectativa de retorno associada a uma determinada incerteza, causada por fatores aleatórios.

Por exemplo, ao estudar uma empresa um analista pode concluir que o lucro tende a crescer 10% naquele ano. No entanto, dadas as oscilações intrínsecas do negócio, pode estabelecer que o intervalo de crescimento dos ganhos da companhia ficará entre 0% e 20%, com 95% de confiança nas suas projeções.

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De posse dessa informação, um investidor que possua como alternativa aplicar num título com rendimento garantido de 8% no fim de um ano tem condições de decidir o que é mais vantajoso: arriscar para tentar aumentar o ganho em dois pontos percentuais comprando ações da companhia ou escolher a aplicação segura.

A probabilidade de o lucro da companhia triplicar é considerada remota, para efeitos dessa análise. De forma inversa, a chance de falência da empresa é considerada desprezível.

Nesse ambiente idealizado, as alocações de investimento são feitas considerando o montante de risco que se quer correr visando atingir determinado retorno. Quanto maior o risco assumido, maior será a possibilidade de lucros. A contrapartida é que os prejuízos também podem ser grandes.

Uma política de administração de riscos, então, passa a ser essencial. Existem diversos indicadores usados para medir as incertezas. Um dos mais populares é o chamado VaR, a sigla em inglês para valor em risco.

O objetivo do VaR é estabelecer a perda máxima esperada de uma carteira de aplicações diversificadas em títulos e valores mobiliários, considerando um certo nível de confiança, na hipótese de ocorrer uma queda generalizada dos mercados.

Como parâmetros para o indicador, são considerados a oscilação dos ativos no passado e o grau de correlação entre eles. O risco da carteira é diretamente proporcional à correlação.

O problema é que, muitas vezes, as surpresas são mais intensas do que o originalmente previsto pelos modelos estatísticos. E o prejuízo acaba ultrapassando o que foi estimado.

Um exemplo ocorreu em 18 de maio, o dia seguinte à divulgação da delação dos sócios e executivos da JBS, que enredou a companhia e uma longa lista de políticos em atividades consideradas ilícitas.

No fechamento daquele dia, o IMA Geral – indicador que mede o comportamento dos títulos públicos de renda fixa – caiu 3,6%, o Real desvalorizou quase 9% e o Ibovespa perdeu 8,8%. O tamanho dos prejuízos foi surpreendente.

Considerando como referência o VaR de 1 dia, com 99% de confiança e a volatilidade registrada entre 2 de janeiro e 17 de maio de 2017, a queda do IMA Geral no dia 18 de maio foi 12,4 vezes superior ao que seria esperado. Pelos mesmos critérios, a desvalorização cambial foi 5,5 vezes maior e o prejuízo do Ibovespa foi 3,4 vezes acima do previsto.

A queda acentuada e surpreendente dos indicadores teve reflexos nos fundos de investimento, principalmente os das categorias ações e multimercado.

Entre os fundos de ações com patrimônio acima de R$ 10 milhões e mais de 50 cotistas, 88% registraram queda entre 3 a 6 vezes superior ao respectivo VaR de 1 dia e com 99% de confiança. Apenas 5% perderam mais do que 6,0 vezes o VaR. O restante perdeu até 3,0 vezes o VaR. Os dados são da Morningstar.

Já entre os multimercados, usando o mesmo corte, o desempenho foi mais disperso e pode ser dividido em três grupos com quantidades iguais de carteiras. O primeiro grupo contabilizou perdas de até 3,0 vezes o VaR. O segundo, registrou perdas entre 3,0 e 9,0 vezes o VaR. E o terceiro amargou perdas superiores a 9,0 vezes o VaR.

Perdas como as que ocorreram no dia 18 de maio tendem a se repetir com alguma frequência. Especialmente porque quanto menor a volatilidade em determinado período, maior tendem ser as apostas.

Daí a ideia de Taleb de apostar nos cisnes negros e nos chamados ativos “antifrágeis”, outro conceito desenvolvido pelo professor e investidor. O ideal seria buscar alternativas que produzam ganhos com eventos extremos.

Os gestores de fundos possuem uma série de argumentos para justificar o desempenho das carteiras que administram. Do ponto de vista pragmático, para o investidor, o mais importante é entender as estratégias que serão adotadas daqui por diante. E manter, como regra geral, as aplicações da forma mais simples possível.