Um passo além da “arquitetura aberta”

A possibilidade de o cliente de um banco comprar fundos de investimento sob gestão de um concorrente é chamada de “arquitetura aberta”. No mercado brasileiro, essa estrutura é um sucesso entre as carteiras classificadas na categoria multimercado.

Atualmente, a soma do patrimônio líquido dos fundos de investimento administrados por gestores independentes que são distribuídos pelos bancos de varejo já é maior do que o montante alocado nos fundos de ações sob gestão daquelas instituições.

Essa marca é significativa. Isso porque, de uma forma geral, os bancos de varejo preferem oferecer produtos mais simples em suas redes de distribuição.

Se o cliente tem interesse em arriscar mais para tentar conseguir maior retorno, tradicionalmente existiam duas opções nos bancos de varejo. Ou os fundos de ações indexados a algum indicador do mercado ou as carteiras compostas apenas por uma ação, como Petrobras ou Vale.

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A premissa por trás dessa estratégia de distribuição é a crença de que é mais simples explicar aos investidores as oscilações inerentes às aplicações mais agressivas se o fundo estiver atrelado a algum índice. Por exemplo, quando o investimento sobe ou cai na mesma proporção que o Ibovespa.

Como as variações dos indicadores de mercado são largamente noticiadas e avaliadas, o investidor pode contar com diversas análises de diferentes fontes para se sentir mais confortável com a aplicação. Esse é um fator que minimiza eventuais danos à reputação do banco.

A instituição quer evitar a imagem de que a recomendação para investir em determinado produto acabou levando o cliente a amargar perdas. Para minimizar esse risco, a solução conservadora é oferecer apenas aplicações indexadas.

Os gestores independentes, por sua vez, são empresas especializadas na administração recursos de clientes que demandam um estilo de gestão sofisticado e mais arriscado. Geralmente oferecem poucos fundos que, devido às características, são classificados nas categorias multimercado ou ações livre.

As carteiras podem investir em praticamente qualquer ativo, sem limites de alavancagem com relação à atuação nos mercado de derivativos e pouca restrição ao risco. Os limites de perdas são estabelecidos e alterados pelo próprio gestor.

Assim, o investimento pode ter boa rentabilidade mesmo quando os principais indicadores de mercado registram quedas. Ou exatamente o contrário, o que gera desconforto e prejuízos aos investidores.

Segundo dados da Anbima, a associação que representa as entidades do setor financeiro, o volume total de recursos aplicados em fundos de investimento no país alcança atualmente aproximados R$ 4 trilhões.

Nos rankings de administradores e de gestores de fundos de investimento elaborados pela associação, as cinco primeiras posições são ocupadas por Banco do Brasil (BB), Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa e Santander. Somados, representam mais de 60% do patrimônio total do mercado.

A explicação para essa destacada liderança decorre, fundamentalmente, da capacidade de distribuição. A ampla rede de agências e a enorme gama de produtos e serviços oferecidos é uma vantagem competitiva.

De acordo com as informações do sistema Morningstar Direct, o volume total de recursos investidos nos fundos de investimento com mais de 250 cotistas dessas cinco instituições acumula cerca de R$ 1 trilhão.

Essa amostra captura as alternativas efetivamente disponíveis para os investidores, deixando de lado as carteiras destinadas aos grandes investidores institucionais.

Desse total, 90% do montante está aplicado em fundos de renda fixa, 8% em fundos multimercado e 2% em fundos de ações.

Praticamente a totalidade dos recursos investidos nas categorias renda fixa e ações é administrada pela gestora do próprio banco.

Mas na parcela de fundos multimercado, as carteiras com gestão da subsidiária do banco representam apenas 31% do total. Os fundos espelho, veículos que aplicam em outros fundos sob responsabilidade de gestores independentes, representam 21% do montante, os fundos multigestores, que investem de forma diversificada em várias carteiras de gestores independentes, somam o equivalente a 42% e 6% são carteiras que espelham fundos que investem no exterior.

O maior patrimônio das carteiras multimercado multigestores parece indicar que, mais importante do que o acesso a bons fundos por meio de uma “arquitetura aberta”, os investidores começam a demandar alternativas mais específicas, na forma de soluções estruturadas.

A conclusão é que um bom método para seleção de fundos é fundamental para atender a demanda dos clientes.

Temas de investimento para os fundos agressivos

Com a proliferação dos canais de distribuição de fundos multimercado e o excelente desempenho em 2017, muitos investidores passaram a acreditar que bastaria delegar a gestão de seus recursos a administradores agressivos para garantir ganhos substancialmente superiores à taxa básica de juros.

De fato, a rentabilidade média da categoria no ano passado, medida pelo índice de hedge funds Anbima (IHFA), foi de 12,41%. A variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) foi de 9,95% no mesmo período.

O ganho superior atraiu investidores. De acordo com o boletim de fundos de investimento da Anbima, a quantidade de cotistas com aplicações em fundos multimercado cresceu incríveis 184% entre janeiro de 2017 e junho de 2018. O número de contas saiu de 500 mil para 1,4 milhão.

A oferta de carteiras também cresceu expressivamente. Houve aumento de 980 fundos no período, que representou 61% do incremento da quantidade total, consideradas todas as categorias.

Mas os últimos três meses mostraram que não basta correr mais risco para obter maior retorno. Entre abril e junho deste ano, o desempenho do IHFA foi de -1,13%. Já o CDI subiu 1,56%.

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Os dados históricos indicam que os ativos mais rentáveis oscilam mais do que as alternativas mais estáveis. Entretanto é sempre bom ter em mente que para ganhar mais, não basta correr mais riscos.

No Brasil, o exemplo mais emblemático de um ativo muito arriscado que acabou provocando grandes prejuízos foram as ações da petroleira OGX. Existem exemplos semelhantes no setor de fundos de investimento, embora em tamanho menor.

O dilema do investidor agora está entre abandonar o risco e voltar para opções mais conservadoras ou insistir na aplicação mais agressiva, apostando na retomada dos lucros. Para isso é fundamental conhecer os temas de investimento dos gestores.

Esse é um aspecto ainda pouco comentado nos relatórios das empresas de gestão de recursos no Brasil. De uma forma geral, as cartas dos gestores abordam tópicos relacionados à macroeconomia.

Os efeitos da guerra comercial entre EUA e China, a estratégia para a normalização das taxas de juros que vem sendo adotada pelo Fed, o banco central americano, as perspectivas de recuperação da economia na zona do Euro e o tamanho do ajuste fiscal que deveria ser promovido pelo próximo governo no Brasil são os assuntos mais discutidos.

A razão para destacar esses pontos é o impacto no chamado “kit Brasil”: a combinação de posições compradas na bolsa, vendidas no dólar e apostas na redução dos juros de longo prazo. Isso porque o cenário mundial mais positivo aliado ao equilíbrio das contas públicas do país tende a favorecer o preço dos ativos brasileiros.

A variação do “kit Brasil” tem influência expressiva no desempenho dos fundos multimercado. Segundo simulações com base nos dados da Morningstar, em 2017 a estratégia teria rendido 20,60% enquanto que nos últimos três meses a rentabilidade teria sido de -9,54%. É uma variação em linha com o IHFA.

No entanto, os temas de investimento podem ser mais variados e uma abordagem sistemática pode, inclusive, proporcionar mais segurança às aplicações. O assunto foi abordado por Jeremy Zhou, analista da FactSet, uma empresa especializada no fornecimento de informações financeiras.

No artigo “Thematic Indexing 2.0”, Zhou faz um paralelo entre os algoritmos usados pelas gigantes de tecnologia tais como Google, Amazon e Netflix, que buscam identificar nossas preferências para sugerir assuntos ou produtos relacionados, com a abordagem de temas de investimento.

A estratégia envolve a identificação de uma tendência geral que pode ser transformada em aplicações financeiras de tal forma a garantir retorno superior aos indicadores de mercado.

Considere, por exemplo, o crescimento do consumo das famílias durante o governo Lula. Naquela época, houve destaque para o desempenho das ações de empresas do setor de consumo.

No mercado global as possibilidades são mais amplas: desenvolvimento dos carros elétricos, transição da China de uma economia exportadora para um mercado doméstico vibrante, uso cada vez mais disseminado da tecnologia e a convergência do desempenho dos mercados emergentes são alguns exemplos.

No mercado brasileiro, além da identificação de companhias ou setores que podem ser beneficiados por um desenvolvimento internacional, alguns temas de investimento estão relacionados com a consolidação de determinados mercados, alavancagem operacional das companhias ou melhoria da governança corporativa.

Para tentar solucionar o dilema entre manter ou sair do investimento, é fundamental conhecer as principais ideias dos gestores.

Pouca representatividade dos políticos impacta os investimentos

Sociólogos e cientistas políticos detectaram uma crise mundial da democracia. A percepção da população é de que, apesar de eleições periódicas e partidos políticos livremente organizados, os candidatos eleitos terminam por não representar os interesses dos cidadãos.

Segundo o pesquisador espanhol Manuel Castells, mais do que o patrimonialismo e a corrupção, a descrença tem a ver com a organização do comércio, da produção e da sociedade em redes globais. Apesar dos vários aspectos positivos, as conexões podem se tornar instáveis ou sujeitas a manipulações.

Para complicar, a importância de cada participante depende de sua contribuição para o sucesso da rede da qual faz parte. Por exemplo, um gestor de recursos com capacidade para operar em todos os mercados globais tem valor alto na sua rede. Já um operário com baixa qualificação que trabalha em uma indústria local decadente tem prestígio muito baixo.

A consequência dessa diferença acaba sendo refletida nos ganhos de cada pessoa ou empreendimento de forma acentuadamente desequilibrada. Atividades mais conectadas abocanham parcela proporcionalmente maior da riqueza do que as menos integradas.

A tendência dos políticos, seguindo os preceitos liberais e da economia de mercado, é estimular o desenvolvimento das redes mais lucrativas. Se a maior parte da população estiver ligada às atividades menos dinâmicas, a partir de certo ponto ocorre uma crise.

Essa dinâmica explicaria a eleição do presidente Trump nos EUA, a saída do Reino Unido da União Europeia ou a eleição do presidente Macron na França. Apesar de contextos diferentes, a busca da população por alternativas fora das redes tradicionais seria a razão para a ruptura.

Na corrida presidencial brasileira não existe, entre os líderes momentâneos, um candidato fora do sistema político. O deputado Jair Bolsonaro (PSL) cumpre seu sétimo mandato e a ex-senadora Marina Silva (Rede) tem longa tradição de militância. Os postulantes neófitos aparecem com percentual irrelevante nas pesquisas de intenção de voto.

O lado positivo da atual configuração da disputa é que a probabilidade de ocorrer surpresas quanto a real intenção de cada candidato após a conquista do poder é baixa. O ponto negativo é a possibilidade de permanência na população do sentimento de falta de representatividade.

Concretamente, o grande fator de instabilidade no mercado financeiro ocasionado pelas eleições atualmente é a falta de clareza sobre como os problemas fiscais brasileiros serão enfrentados.

A administração do presidente Temer conseguiu aprovar a chamada “PEC dos gastos”, que é uma emenda constitucional limitando o crescimento das despesas públicas ao longo dos próximos anos. Entretanto é uma medida muito difícil de ser cumprida se diversas reformas institucionais adicionais não forem feitas e o país não voltar a crescer.

Os candidatos aproveitam essa clara inconsistência para dinamitar a “PEC dos gastos” sem, necessariamente, propor alternativas viáveis. O discurso possui apelo popular, mas gera instabilidade na economia.

Nesse ambiente, ganha relevância acompanhar os sinais que podem antecipar o aumento das incertezas. Um dos principais é a cotação do dólar, que subiu 18% em relação ao real nos últimos cinco meses.

Os países emergentes em geral, e o Brasil em particular, têm um histórico de crises ocasionadas pela parada súbita de financiamentos em moeda estrangeira.

Entretanto, conforme apurou Lucas Hirata, do Valor, a causa da alta do câmbio parece ter sido o incremento das apostas de investidores estrangeiros e fundos de investimento locais no mercado de derivativos. Parte dessa demanda, estimada em US$ 48 bilhões, foi suprida pelo Banco Central, detentor de reservas internacionais no montante de US$ 382 bilhões.

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Outro sintoma das incertezas é o aumento das taxas de juros de longo prazo. O rendimento da Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em janeiro de 2023 subiu de pouco menos de 9% no fim do primeiro trimestre para cerca de 11% atualmente.

Por enquanto o Banco Central parece confiante de que não será necessário aumentar a taxa Selic para debelar uma possível inflação acima da meta.

Um terceiro indicador do aumento das incertezas é a queda do mercado acionário. O Ibovespa recuou 18% nos últimos quatro meses. Todavia, boa parte dessa queda é devido à reversão do otimismo de que um candidato reformista ganharia a eleição com certa tranquilidade.

Pragmaticamente, em relação aos investimentos, é importante acompanhar as oscilações e ficar atento às oportunidades.

Emoção para o investidor na largada das eleições

O dia 6 de abril foi o último para a desincompatibilização. Trata-se do afastamento obrigatório de ocupantes dos principais cargos públicos, tais como ministros, secretários, governadores e prefeitos, que pretendam se candidatar nas eleições de 7 de outubro.

Desde aquela data até o dia 31 de maio, o real perdeu 11% em relação ao dólar, o Ibovespa caiu 10% e o prejuízo médio dos detentores de títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional foi de 1%, conforme o indicador IMA-Geral. Para efeitos de comparação, a variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) foi de 0,94% no mesmo intervalo.

O período, que contou ainda com a greve dos caminhoneiros e a demissão do presidente da Petrobras, também coincidiu com turbulências no mercado internacional. O rendimento dos títulos de 10 anos emitidos pelo Tesouro dos EUA subiu do patamar de 2,70% ao ano para a faixa entre 2,90% ao ano e 3,10% ao ano.

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Esse aumento da taxa de retorno dos títulos americanos desencadeou uma série de ajustes nas posições dos investidores globais. Como resultado, praticamente todas as moedas perderam valor em relação ao dólar.

A cotação média das principais divisas dos países desenvolvidos recuou cerca de 4%. A desvalorização foi mais acentuada entre os emergentes. O peso argentino perdeu 20%, a lira turca 11%, o peso mexicano 10% e o rublo russo 7%.

Além disso, ocorreu o aumento da cotação das commodities decorrente, dentre outros fatores, da incerteza sobre a condução da política monetária nos EUA. O preço do petróleo no mercado internacional subiu 14% e o índice Thomson Reuters/CRB aumentou 5%.

As bolsas mundiais tiveram desempenho diverso. As ações negociadas nos países desenvolvidos subiram 1,23% em média, conforme o índice MSCI World. Já a cotação das companhias negociadas nos países emergentes caiu 3,60% em dólares, de acordo com o indicador MSCI EM.

Para o investidor local, a consequência do ambiente de crise política interna e ajustes no mercado internacional foi a queda do desempenho das carteiras mais agressivas. Mais de 90% dos fundos de ações e metade dos multimercado tiveram rentabilidade negativa no período.

A mediana do rendimento dos fundos de ações com mais de 50 cotistas e patrimônio superior a R$ 10 milhões foi de -8,39% no intervalo considerado. Na categoria multimercado, carteiras com a mesma quantidade de cotistas e patrimônio superior a R$ 50 milhões registraram mediana de rentabilidade de 0%.

No atual ambiente é importante que o investidor administre as emoções. Até há pouco dias, a recomendação majoritária dos analistas era aumentar o risco da carteira.

A avaliação era de que um candidato reformista ganharia as eleições, os juros ficariam baixos por muito tempo, a inflação continuaria controlada e o déficit público seria equacionado. Isso implicaria custo de capital menor para as empresas, aumento da produtividade, da atividade econômica e crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).

Nesse cenário, a aposta certeira seria aplicar na bolsa, comprar títulos públicos de longo prazo e vender dólares. Existia confiança de que eventuais revezes na estratégia acabariam sendo rapidamente revertidos.

A queda recente dos ativos veio acompanhada de uma série de emoções negativas. A frustração de constatar que os candidatos de centro não sobem nas pesquisas de intenção de voto, a preocupação com a demora da retomada econômica, o desalento causado pela sensação de que a corrupção não arrefeceu e a indignação de que os cofres públicos possam ser usados para favorecer determinados segmentos da sociedade, pondo em risco as possibilidades do equilíbrio fiscal, são os sentimentos que agora dominam os investidores.

Entretanto, é possível ser otimista. Um governo fraco não é necessariamente ruim já que as forças de mercado podem passar a atuar de forma mais intensa. Por exemplo, sem ter como impor a redução de R$ 0,46 no preço do diesel, algum tipo de arranjo entre consumidores, postos de abastecimento e refinarias tende a ser encontrado.

No campo político, é possível que a vontade de prosperar acabe gerando pontos em comum entre os variados grupos de eleitores.

Em relação aos investimentos, é importante manter um plano de longo prazo, administrar os riscos e recapitular as razões que levaram às decisões de comprar aqueles ativos. E manter as emoções equilibradas.

“Spoofing” e “layering”: as “fake news” do mercado

Pegar um taxi numa cidade que você não conhece, fazer compras num mercado de artesanatos ou ir numa feira livre em busca de produtos exóticos são atividades que sempre causam alguma insegurança.

Se depois da corrida, aquisição da peça ou preparo da iguaria você ficar com a sensação de que pagou muito mais caro do que o razoável pelo produto, a reação será a de evitar fazer novas transações naqueles lugares. Se outras pessoas passarem pela mesma situação, a consequência é que os negócios não irão prosperar.

Em contrapartida, se a experiência tiver sido positiva e a percepção de que o tratamento foi adequado, existirá uma alta probabilidade de que o volume de transações aumente ao longo do tempo. A propaganda boca a boca tem papel fundamental para estabelecer a fama dos locais.

O mercado secundário de ativos financeiros possui uma lógica semelhante. Ao solicitar a cotação para um título, você espera que o valor oferecido seja o justo, de acordo com aquela situação específica.

Oscilações de preço fazem parte da dinâmica e será sempre possível, ao analisar uma determinada operação em retrospectiva, encontrar um melhor momento de compra ou de venda. O que importa é a percepção de que o tratamento dado para a transação foi adequado.

Um mercado de capitais sólido é fundamental para o desenvolvimento do país. A possibilidade de tomadores de recursos acessarem diretamente os investidores reduz os custos da intermediação financeira e democratiza o acesso às transações mais lucrativas.

Hoje em dia, por exemplo, o setor de fundos de investimento oferece uma alternativa simples, barata, segura e eficiente, do ponto de vista da diversificação, para o investidor que queira montar uma carteira de títulos públicos. É uma operação de baixo risco e muita liquidez.

Se os fundos não existissem, seria necessário recorrer à intermediação bancária para acessar os mesmos ativos. Como os bancos adotam a norma de vincular o preço do serviço prestado ao volume financeiro do cliente, para a maioria dos investidores a transação sairia mais cara.

Além disso o fundo tem como característica a cobrança de uma comissão fixa sob a forma de taxa de administração descrita no regulamento. As transações bancárias envolvem o ganho com a diferença entre o preço de compra e o de venda chamado de “spread”, que é um custo pouco transparente.

Para o Tesouro Nacional, tomador dos recursos e administrador da dívida pública do governo, também é vantajoso acessar o mercado por meio das carteiras. Isso porque aumenta a base de investidores e captura informações importantes sobre a demanda dos títulos.

O mercado financeiro em geral e a bolsa de valores em particular não são um jogo de dados viciados, conforme explicou Isac Silveira da Costa, analista da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em apresentação na 5ª edição da Semana Nacional de Educação Financeira (Semana Enef).

Entretanto algumas práticas podem provocar conflitos de opiniões com o órgão regulador. Isso porque, em determinadas situações, os operadores e investidores podem se valer de alguns blefes e artimanhas para executar estratégias para obter o melhor resultado possível.

Considere, por exemplo, que você queira comprar dólares para viajar. Se decidir sentar na mesa do gerente do seu banco e explicar a situação em pormenores, é provável que receba a cotação mais alta para a compra da moeda.

Nessa situação é recomendável disfarçar a real intenção, dissimular o interesse, sondar as alternativas e pesquisar outras instituições antes de fechar a operação.

No mercado financeiro, o equivalente das “fake news” das redes sociais é a manipulação das ordens nas bolsas de valores. Desde o advento das negociações eletrônicas e das transações de alta frequência (HFT, na sigla em inglês), as possibilidades de fraudes no mercado atingiram um novo patamar.

Situações semelhantes à criação de condições artificiais de preço podem ser conseguidas por meio da manipulação da colocação de ordens eletrônicas. No jargão de mercado, essas atividades são chamadas de “spoofing” ou “layering”.

Para entender, considere que um operador tenha interesse em vender dólares no mercado futuro. Para aumentar a cotação, uma estratégia de HFT é colocar uma ordem de compra de um grande volume com preço pouco abaixo da melhor ordem de venda.

Outros operadores que precisam comprar dólares, mas estavam esperando o preço cair até atingir o nível desejado, podem se assustar com o volume dessa ordem falsa e correr para fechar os negócios. A consequência é o aumento do preço de compra que estão dispostos a pagar.

Como as ordens são colocadas e canceladas em um ritmo frenético, a apuração de atividades efetivamente ilícitas não é tarefa simples.

O aspecto positivo para o investidor é o interesse da CVM em acompanhar de perto a evolução do mercado. Acena para a transparência e lisura das transações.

Fim do ciclo de queda dos juros é teste para multimercado

A captação dos fundos de investimento classificados na categoria multimercado atingiu R$ 38 bilhões no primeiro trimestre de 2018.

A rentabilidade passada tem sido um importante fator de atração de recursos. Mas a forte vinculação do desempenho do conjunto dos fundos com o ciclo de juros e a ausência de histórico para grande parte das carteiras dificultam estimativas para o comportamento daqui para frente.

Segundo dados da Anbima, a associação que representa as empresas que atuam no mercado financeiro, o montante direcionado aos multimercado entre janeiro e março deste ano equivale a 70% de todos os novos recursos captados no setor de gestão de recursos. A principal característica das carteiras é a ampla margem de manobra que os gestores possuem.

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Os responsáveis pelas decisões de investimento deste grupo de fundos podem comprar títulos pré ou pós fixados emitidos pelo Tesouro Nacional, bancos, financeiras ou empresas privadas. Podem, também, investir em qualquer título ou valor mobiliário, tais como ações, debêntures, cédulas de crédito bancário ou cotas de outros fundos, incluindo os de participação, de direitos creditórios ou de investimentos no exterior.

Os administradores têm, ainda, total liberdade para operar no mercado de derivativos. Isso inclui negociações de contratos futuros ou de opções, tanto com ativos negociados no Brasil quanto no exterior. E podem usar essas operações para alavancar as posições e apostar em qualquer moeda do mundo.

Finalmente, possuem a possibilidade de concentrar a carteira em poucas opções, com o objetivo de aumentar o risco e desprezar os efeitos da diversificação. A única exigência imposta pela regulamentação é formalizar essas faculdades no prospecto do fundo.

No caso extremo, é preciso deixar explícito ao cotista a possibilidade de ocorrer patrimônio liquido negativo. Nessa situação, além da perda total das aplicações, o investidor precisaria aportar mais recursos para ajudar a tapar o buraco causado pelo fundo.

O desempenho passado justifica o interesse dos aplicadores. Tradicionalmente, apesar de todos os riscos, a maioria dos fundos multimercados tem conseguido ganhos acima da variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI). Especialmente nos períodos de queda da taxa Selic.

Entretanto, quando o momento é de alta dos juros, a conclusão sobre a performance global dos fundos multimercado não é tão evidente.

No período recente, o Brasil passou por cinco ciclos de ajustes na taxa Selic. A estratégia do Banco Central (BC) é aumentar ou reduzir a taxa básica em linha com a expectativa para a inflação.

O primeiro ciclo recente começou em 22 de janeiro de 2009, quando entrou em vigor a taxa de 12,75% ao ano definida na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do dia anterior. Desde então houve mais quatro reduções e no dia 28 de abril de 2010 a taxa marcava 8,75% ao ano.

A partir de 29 de abril de 2010 teve início um ciclo de alta que acabou com a taxa Selic em 12,50% ao ano no dia 31 de agosto de 2011. Nesse dia, numa decisão polêmica e controversa, o Copom começou mais um ciclo de baixa que terminou com a Selic em 7,25% ao ano em 17 de abril de 2013.

A partir de 18 de abril de 2013 a taxa voltou a subir e, após um período de interrupção dos reajustes entre junho e outubro de 2014, atingiu 14,25% no dia 30 de julho de 2015, permanecendo neste patamar até 19 de outubro de 2016.

Desde então entramos num novo ciclo de baixa dos juros e a Selic tende a ser reduzida até 6,25% ao ano a partir da próxima reunião do Copom em 16 de maio, conforme sinalizações dos diretores do BC.

Uma característica dos fundos multimercado é que poucos possuem histórico suficientemente longo para uma análise minimamente consistente. Segundo os dados da Morningstar, uma empresa especializada no acompanhamento de ativos financeiros, existem atualmente 528 carteiras com mais de 50 cotistas e patrimônio acima de R$ 50 milhões.

Mas os fundos com histórico desde 22 de janeiro de 2009, que servem como amostra para o comportamento em todo o ciclo recente de mudanças dos juros, somam apenas 128. O desempenho desses fundos em relação ao CDI está ilustrado no gráfico.

Na prática, a ausência de uma ampla série histórica é suprida com dados sobre o processo de investimento, experiência profissional e formação acadêmica dos responsáveis pelo fundo.

Em alguns casos extremos, no entanto, informações genéricas tais como hobbies ou interesses diversos dos administradores podem virar argumentos de venda para uma carteira. No ambiente atual, convém ao investidor redobrar os cuidados.

É preciso diversificar para ganhar mais do que a inflação

Desde outubro de 2016, as sucessivas reuniões do comitê de política monetária (Copom) tem decidido pelo corte da taxa básica de juros. Como consequência, a diferença entre a taxa Selic e a expectativa de inflação para os próximos 12 meses está hoje no menor patamar dos últimos cinco anos.

Significa que a preocupação em manter a rentabilidade das aplicações acima da variação do índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou a ser um desafio a ser enfrentado pelos investidores no Brasil. Isso é um fato raro desde a estabilidade monetária e a adoção do regime de metas de inflação pelo Banco Central.

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A última vez que os investidores tiveram uma dúvida mais séria sobre a possibilidade de que os retornos dos investimentos pudessem ser inferiores à variação do IPCA foi no primeiro trimestre de 2013. Era o período do auge da fracassada experiência que ficou conhecida como “nova matriz macroeconômica”.

Desta vez o cenário é diferente. Naquela época, a inflação estava consistentemente acima da meta, o governo tinha uma política explícita de desvalorização do real, a condução da política econômica estimulava déficits crescentes no orçamento para incentivar determinados setores com pouco critério ou transparência e o mercado internacional dava sinais de recuperação após a profunda recessão de 2008.

Aquele contexto favorecia a compra de dólares, a aplicação em ativos no exterior e a busca por títulos indexados ao IPCA.

Desta vez, apesar do déficit nas contas públicas continuar alto e da elevada taxa de desemprego, a política econômica tem-se mantido mais consistente. Em contrapartida, o cenário internacional parece muito mais frágil do que era.

Diversificar para tentar atingir retorno mais elevado nunca foi uma aflição para o investidor médio no Brasil. Isso porque os altos juros reais (acima da inflação) compensavam as eventuais ineficiências na alocação de recursos.

Na maioria das vezes, bastava comprar títulos do governo para conseguir ganhos confortáveis. O ambiente também permitia aos bancos e gestoras de recursos cobrar taxas e comissões generosas. Fundos DI ou planos de previdência com encargos superiores a 3% ao ano eram relativamente comuns.

A queda dos juros, a maior competitividade e o aumento do interesse dos clientes forçou o ajuste de preço de boa parte dos produtos financeiros oferecidos aos investidores.

Ainda assim, a forma mais segura de conseguir aumentar os ganhos dos investimentos é buscar produtos semelhantes com custo menor. A experiência sugere que, pesquisando as alternativas, é possível aumentar os ganhos anuais em cerca de meio ponto percentual.

É um bom incremento, mas nada muito significativo considerando que a Selic está em 6,50% ao ano e a expectativa é que encerre o ano em 6,25%. E pode cair ainda mais se o crescimento econômico não acelerar.

A conclusão é que a queda de rentabilidade não pode ser compensada apenas com a simples mudança de fundos de uma mesma categoria. Para ganhar mais na atual conjuntura é preciso diversificar.

Entretanto, o aumento da oscilação do preço dos ativos, especialmente nos mercados desenvolvidos, e as incertezas sobre o rumo da política econômica no Brasil tem causado incertezas. A melhor opção para o balanceamento da carteira não é totalmente clara.

Hoje no Brasil o investidor pode fazer a alocação dos ativos de diversas maneiras. Muitas delas são sofisticadas e fogem do padrão tradicional da recomendação do gerente da conta corrente.

É possível escolher produtos de uma plataforma de distribuição, investir em fundos multigestores administrados por um banco de varejo, comprar ativos sugeridos por serviços automatizados de diversificação de carteiras ou contar com uma assessoria independente que trabalhe com o padrão fiduciário.

Para cada caso existem pontos positivos e negativos. O importante é ter certeza de que os custos são compatíveis com a qualidade do serviço oferecido. Além disso é preciso ficar atento para a necessidade de algum tipo de reciprocidade ou o risco de potenciais conflitos de interesse.

No ambiente atual de redução da diferença entre juros e inflação, a definição clara de uma estratégia de investimento personalizada é fundamental para o sucesso das aplicações financeiras.