Emoção para o investidor na largada das eleições

O dia 6 de abril foi o último para a desincompatibilização. Trata-se do afastamento obrigatório de ocupantes dos principais cargos públicos, tais como ministros, secretários, governadores e prefeitos, que pretendam se candidatar nas eleições de 7 de outubro.

Desde aquela data até o dia 31 de maio, o real perdeu 11% em relação ao dólar, o Ibovespa caiu 10% e o prejuízo médio dos detentores de títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional foi de 1%, conforme o indicador IMA-Geral. Para efeitos de comparação, a variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) foi de 0,94% no mesmo intervalo.

O período, que contou ainda com a greve dos caminhoneiros e a demissão do presidente da Petrobras, também coincidiu com turbulências no mercado internacional. O rendimento dos títulos de 10 anos emitidos pelo Tesouro dos EUA subiu do patamar de 2,70% ao ano para a faixa entre 2,90% ao ano e 3,10% ao ano.

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Esse aumento da taxa de retorno dos títulos americanos desencadeou uma série de ajustes nas posições dos investidores globais. Como resultado, praticamente todas as moedas perderam valor em relação ao dólar.

A cotação média das principais divisas dos países desenvolvidos recuou cerca de 4%. A desvalorização foi mais acentuada entre os emergentes. O peso argentino perdeu 20%, a lira turca 11%, o peso mexicano 10% e o rublo russo 7%.

Além disso, ocorreu o aumento da cotação das commodities decorrente, dentre outros fatores, da incerteza sobre a condução da política monetária nos EUA. O preço do petróleo no mercado internacional subiu 14% e o índice Thomson Reuters/CRB aumentou 5%.

As bolsas mundiais tiveram desempenho diverso. As ações negociadas nos países desenvolvidos subiram 1,23% em média, conforme o índice MSCI World. Já a cotação das companhias negociadas nos países emergentes caiu 3,60% em dólares, de acordo com o indicador MSCI EM.

Para o investidor local, a consequência do ambiente de crise política interna e ajustes no mercado internacional foi a queda do desempenho das carteiras mais agressivas. Mais de 90% dos fundos de ações e metade dos multimercado tiveram rentabilidade negativa no período.

A mediana do rendimento dos fundos de ações com mais de 50 cotistas e patrimônio superior a R$ 10 milhões foi de -8,39% no intervalo considerado. Na categoria multimercado, carteiras com a mesma quantidade de cotistas e patrimônio superior a R$ 50 milhões registraram mediana de rentabilidade de 0%.

No atual ambiente é importante que o investidor administre as emoções. Até há pouco dias, a recomendação majoritária dos analistas era aumentar o risco da carteira.

A avaliação era de que um candidato reformista ganharia as eleições, os juros ficariam baixos por muito tempo, a inflação continuaria controlada e o déficit público seria equacionado. Isso implicaria custo de capital menor para as empresas, aumento da produtividade, da atividade econômica e crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).

Nesse cenário, a aposta certeira seria aplicar na bolsa, comprar títulos públicos de longo prazo e vender dólares. Existia confiança de que eventuais revezes na estratégia acabariam sendo rapidamente revertidos.

A queda recente dos ativos veio acompanhada de uma série de emoções negativas. A frustração de constatar que os candidatos de centro não sobem nas pesquisas de intenção de voto, a preocupação com a demora da retomada econômica, o desalento causado pela sensação de que a corrupção não arrefeceu e a indignação de que os cofres públicos possam ser usados para favorecer determinados segmentos da sociedade, pondo em risco as possibilidades do equilíbrio fiscal, são os sentimentos que agora dominam os investidores.

Entretanto, é possível ser otimista. Um governo fraco não é necessariamente ruim já que as forças de mercado podem passar a atuar de forma mais intensa. Por exemplo, sem ter como impor a redução de R$ 0,46 no preço do diesel, algum tipo de arranjo entre consumidores, postos de abastecimento e refinarias tende a ser encontrado.

No campo político, é possível que a vontade de prosperar acabe gerando pontos em comum entre os variados grupos de eleitores.

Em relação aos investimentos, é importante manter um plano de longo prazo, administrar os riscos e recapitular as razões que levaram às decisões de comprar aqueles ativos. E manter as emoções equilibradas.

“Spoofing” e “layering”: as “fake news” do mercado

Pegar um taxi numa cidade que você não conhece, fazer compras num mercado de artesanatos ou ir numa feira livre em busca de produtos exóticos são atividades que sempre causam alguma insegurança.

Se depois da corrida, aquisição da peça ou preparo da iguaria você ficar com a sensação de que pagou muito mais caro do que o razoável pelo produto, a reação será a de evitar fazer novas transações naqueles lugares. Se outras pessoas passarem pela mesma situação, a consequência é que os negócios não irão prosperar.

Em contrapartida, se a experiência tiver sido positiva e a percepção de que o tratamento foi adequado, existirá uma alta probabilidade de que o volume de transações aumente ao longo do tempo. A propaganda boca a boca tem papel fundamental para estabelecer a fama dos locais.

O mercado secundário de ativos financeiros possui uma lógica semelhante. Ao solicitar a cotação para um título, você espera que o valor oferecido seja o justo, de acordo com aquela situação específica.

Oscilações de preço fazem parte da dinâmica e será sempre possível, ao analisar uma determinada operação em retrospectiva, encontrar um melhor momento de compra ou de venda. O que importa é a percepção de que o tratamento dado para a transação foi adequado.

Um mercado de capitais sólido é fundamental para o desenvolvimento do país. A possibilidade de tomadores de recursos acessarem diretamente os investidores reduz os custos da intermediação financeira e democratiza o acesso às transações mais lucrativas.

Hoje em dia, por exemplo, o setor de fundos de investimento oferece uma alternativa simples, barata, segura e eficiente, do ponto de vista da diversificação, para o investidor que queira montar uma carteira de títulos públicos. É uma operação de baixo risco e muita liquidez.

Se os fundos não existissem, seria necessário recorrer à intermediação bancária para acessar os mesmos ativos. Como os bancos adotam a norma de vincular o preço do serviço prestado ao volume financeiro do cliente, para a maioria dos investidores a transação sairia mais cara.

Além disso o fundo tem como característica a cobrança de uma comissão fixa sob a forma de taxa de administração descrita no regulamento. As transações bancárias envolvem o ganho com a diferença entre o preço de compra e o de venda chamado de “spread”, que é um custo pouco transparente.

Para o Tesouro Nacional, tomador dos recursos e administrador da dívida pública do governo, também é vantajoso acessar o mercado por meio das carteiras. Isso porque aumenta a base de investidores e captura informações importantes sobre a demanda dos títulos.

O mercado financeiro em geral e a bolsa de valores em particular não são um jogo de dados viciados, conforme explicou Isac Silveira da Costa, analista da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em apresentação na 5ª edição da Semana Nacional de Educação Financeira (Semana Enef).

Entretanto algumas práticas podem provocar conflitos de opiniões com o órgão regulador. Isso porque, em determinadas situações, os operadores e investidores podem se valer de alguns blefes e artimanhas para executar estratégias para obter o melhor resultado possível.

Considere, por exemplo, que você queira comprar dólares para viajar. Se decidir sentar na mesa do gerente do seu banco e explicar a situação em pormenores, é provável que receba a cotação mais alta para a compra da moeda.

Nessa situação é recomendável disfarçar a real intenção, dissimular o interesse, sondar as alternativas e pesquisar outras instituições antes de fechar a operação.

No mercado financeiro, o equivalente das “fake news” das redes sociais é a manipulação das ordens nas bolsas de valores. Desde o advento das negociações eletrônicas e das transações de alta frequência (HFT, na sigla em inglês), as possibilidades de fraudes no mercado atingiram um novo patamar.

Situações semelhantes à criação de condições artificiais de preço podem ser conseguidas por meio da manipulação da colocação de ordens eletrônicas. No jargão de mercado, essas atividades são chamadas de “spoofing” ou “layering”.

Para entender, considere que um operador tenha interesse em vender dólares no mercado futuro. Para aumentar a cotação, uma estratégia de HFT é colocar uma ordem de compra de um grande volume com preço pouco abaixo da melhor ordem de venda.

Outros operadores que precisam comprar dólares, mas estavam esperando o preço cair até atingir o nível desejado, podem se assustar com o volume dessa ordem falsa e correr para fechar os negócios. A consequência é o aumento do preço de compra que estão dispostos a pagar.

Como as ordens são colocadas e canceladas em um ritmo frenético, a apuração de atividades efetivamente ilícitas não é tarefa simples.

O aspecto positivo para o investidor é o interesse da CVM em acompanhar de perto a evolução do mercado. Acena para a transparência e lisura das transações.

Fim do ciclo de queda dos juros é teste para multimercado

A captação dos fundos de investimento classificados na categoria multimercado atingiu R$ 38 bilhões no primeiro trimestre de 2018.

A rentabilidade passada tem sido um importante fator de atração de recursos. Mas a forte vinculação do desempenho do conjunto dos fundos com o ciclo de juros e a ausência de histórico para grande parte das carteiras dificultam estimativas para o comportamento daqui para frente.

Segundo dados da Anbima, a associação que representa as empresas que atuam no mercado financeiro, o montante direcionado aos multimercado entre janeiro e março deste ano equivale a 70% de todos os novos recursos captados no setor de gestão de recursos. A principal característica das carteiras é a ampla margem de manobra que os gestores possuem.

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Os responsáveis pelas decisões de investimento deste grupo de fundos podem comprar títulos pré ou pós fixados emitidos pelo Tesouro Nacional, bancos, financeiras ou empresas privadas. Podem, também, investir em qualquer título ou valor mobiliário, tais como ações, debêntures, cédulas de crédito bancário ou cotas de outros fundos, incluindo os de participação, de direitos creditórios ou de investimentos no exterior.

Os administradores têm, ainda, total liberdade para operar no mercado de derivativos. Isso inclui negociações de contratos futuros ou de opções, tanto com ativos negociados no Brasil quanto no exterior. E podem usar essas operações para alavancar as posições e apostar em qualquer moeda do mundo.

Finalmente, possuem a possibilidade de concentrar a carteira em poucas opções, com o objetivo de aumentar o risco e desprezar os efeitos da diversificação. A única exigência imposta pela regulamentação é formalizar essas faculdades no prospecto do fundo.

No caso extremo, é preciso deixar explícito ao cotista a possibilidade de ocorrer patrimônio liquido negativo. Nessa situação, além da perda total das aplicações, o investidor precisaria aportar mais recursos para ajudar a tapar o buraco causado pelo fundo.

O desempenho passado justifica o interesse dos aplicadores. Tradicionalmente, apesar de todos os riscos, a maioria dos fundos multimercados tem conseguido ganhos acima da variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI). Especialmente nos períodos de queda da taxa Selic.

Entretanto, quando o momento é de alta dos juros, a conclusão sobre a performance global dos fundos multimercado não é tão evidente.

No período recente, o Brasil passou por cinco ciclos de ajustes na taxa Selic. A estratégia do Banco Central (BC) é aumentar ou reduzir a taxa básica em linha com a expectativa para a inflação.

O primeiro ciclo recente começou em 22 de janeiro de 2009, quando entrou em vigor a taxa de 12,75% ao ano definida na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do dia anterior. Desde então houve mais quatro reduções e no dia 28 de abril de 2010 a taxa marcava 8,75% ao ano.

A partir de 29 de abril de 2010 teve início um ciclo de alta que acabou com a taxa Selic em 12,50% ao ano no dia 31 de agosto de 2011. Nesse dia, numa decisão polêmica e controversa, o Copom começou mais um ciclo de baixa que terminou com a Selic em 7,25% ao ano em 17 de abril de 2013.

A partir de 18 de abril de 2013 a taxa voltou a subir e, após um período de interrupção dos reajustes entre junho e outubro de 2014, atingiu 14,25% no dia 30 de julho de 2015, permanecendo neste patamar até 19 de outubro de 2016.

Desde então entramos num novo ciclo de baixa dos juros e a Selic tende a ser reduzida até 6,25% ao ano a partir da próxima reunião do Copom em 16 de maio, conforme sinalizações dos diretores do BC.

Uma característica dos fundos multimercado é que poucos possuem histórico suficientemente longo para uma análise minimamente consistente. Segundo os dados da Morningstar, uma empresa especializada no acompanhamento de ativos financeiros, existem atualmente 528 carteiras com mais de 50 cotistas e patrimônio acima de R$ 50 milhões.

Mas os fundos com histórico desde 22 de janeiro de 2009, que servem como amostra para o comportamento em todo o ciclo recente de mudanças dos juros, somam apenas 128. O desempenho desses fundos em relação ao CDI está ilustrado no gráfico.

Na prática, a ausência de uma ampla série histórica é suprida com dados sobre o processo de investimento, experiência profissional e formação acadêmica dos responsáveis pelo fundo.

Em alguns casos extremos, no entanto, informações genéricas tais como hobbies ou interesses diversos dos administradores podem virar argumentos de venda para uma carteira. No ambiente atual, convém ao investidor redobrar os cuidados.

É preciso diversificar para ganhar mais do que a inflação

Desde outubro de 2016, as sucessivas reuniões do comitê de política monetária (Copom) tem decidido pelo corte da taxa básica de juros. Como consequência, a diferença entre a taxa Selic e a expectativa de inflação para os próximos 12 meses está hoje no menor patamar dos últimos cinco anos.

Significa que a preocupação em manter a rentabilidade das aplicações acima da variação do índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou a ser um desafio a ser enfrentado pelos investidores no Brasil. Isso é um fato raro desde a estabilidade monetária e a adoção do regime de metas de inflação pelo Banco Central.

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A última vez que os investidores tiveram uma dúvida mais séria sobre a possibilidade de que os retornos dos investimentos pudessem ser inferiores à variação do IPCA foi no primeiro trimestre de 2013. Era o período do auge da fracassada experiência que ficou conhecida como “nova matriz macroeconômica”.

Desta vez o cenário é diferente. Naquela época, a inflação estava consistentemente acima da meta, o governo tinha uma política explícita de desvalorização do real, a condução da política econômica estimulava déficits crescentes no orçamento para incentivar determinados setores com pouco critério ou transparência e o mercado internacional dava sinais de recuperação após a profunda recessão de 2008.

Aquele contexto favorecia a compra de dólares, a aplicação em ativos no exterior e a busca por títulos indexados ao IPCA.

Desta vez, apesar do déficit nas contas públicas continuar alto e da elevada taxa de desemprego, a política econômica tem-se mantido mais consistente. Em contrapartida, o cenário internacional parece muito mais frágil do que era.

Diversificar para tentar atingir retorno mais elevado nunca foi uma aflição para o investidor médio no Brasil. Isso porque os altos juros reais (acima da inflação) compensavam as eventuais ineficiências na alocação de recursos.

Na maioria das vezes, bastava comprar títulos do governo para conseguir ganhos confortáveis. O ambiente também permitia aos bancos e gestoras de recursos cobrar taxas e comissões generosas. Fundos DI ou planos de previdência com encargos superiores a 3% ao ano eram relativamente comuns.

A queda dos juros, a maior competitividade e o aumento do interesse dos clientes forçou o ajuste de preço de boa parte dos produtos financeiros oferecidos aos investidores.

Ainda assim, a forma mais segura de conseguir aumentar os ganhos dos investimentos é buscar produtos semelhantes com custo menor. A experiência sugere que, pesquisando as alternativas, é possível aumentar os ganhos anuais em cerca de meio ponto percentual.

É um bom incremento, mas nada muito significativo considerando que a Selic está em 6,50% ao ano e a expectativa é que encerre o ano em 6,25%. E pode cair ainda mais se o crescimento econômico não acelerar.

A conclusão é que a queda de rentabilidade não pode ser compensada apenas com a simples mudança de fundos de uma mesma categoria. Para ganhar mais na atual conjuntura é preciso diversificar.

Entretanto, o aumento da oscilação do preço dos ativos, especialmente nos mercados desenvolvidos, e as incertezas sobre o rumo da política econômica no Brasil tem causado incertezas. A melhor opção para o balanceamento da carteira não é totalmente clara.

Hoje no Brasil o investidor pode fazer a alocação dos ativos de diversas maneiras. Muitas delas são sofisticadas e fogem do padrão tradicional da recomendação do gerente da conta corrente.

É possível escolher produtos de uma plataforma de distribuição, investir em fundos multigestores administrados por um banco de varejo, comprar ativos sugeridos por serviços automatizados de diversificação de carteiras ou contar com uma assessoria independente que trabalhe com o padrão fiduciário.

Para cada caso existem pontos positivos e negativos. O importante é ter certeza de que os custos são compatíveis com a qualidade do serviço oferecido. Além disso é preciso ficar atento para a necessidade de algum tipo de reciprocidade ou o risco de potenciais conflitos de interesse.

No ambiente atual de redução da diferença entre juros e inflação, a definição clara de uma estratégia de investimento personalizada é fundamental para o sucesso das aplicações financeiras.

Consumo das famílias explica captação da Poupança

A caderneta de poupança registrou captação de R$ 17 bilhões em 2017, equivalente a 2,6% do saldo final que foi contabilizado em 31 de dezembro de 2016. Somando os rendimentos creditados no período, o total dos depósitos atingiu o montante de R$ 725 bilhões.

Já a rentabilidade acumulada no ano foi de 6,6%, considerando as contas com aniversário no primeiro dia do mês. Esse valor é igual a 67% da variação do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) no mesmo período. O CDI é o principal parâmetro de referência para os investimentos de renda fixa.

Uma aplicação num fundo de renda fixa atrelado ao CDI e com taxa de administração de 1,5% ao ano teria rendido em 2017 aproximadamente 8,5%. Descontando o imposto de renda de 20% sobre os rendimentos, o ganho líquido da aplicação seria de 6,8%, pouco mais do que a poupança.

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Como atualmente é relativamente simples para o investidor ter acesso a fundos de investimento conservadores com taxas de administração de 1,5% ao ano ou menos, fica a dúvida sobre os motivos que justificam a atração pela poupança.

A caderneta tem a desvantagem de ter os rendimentos creditados apenas uma vez por mês. Os saques anteriores ao aniversário mensal não recebem a remuneração proporcional do período, ao contrário da maioria das demais alternativas.

Além disso, a fórmula de cálculo da rentabilidade da poupança é extremamente complexa. Envolve a média da remuneração dos certificados de depósitos bancários emitidos pelas instituições financeiras e um redutor arbitrado pelo Banco Central.

Essa falta de transparência contrasta com a legislação sobre os fundos de investimento, por exemplo. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) exige a divulgação diária das cotas refletindo o valor dos ativos da carteira, balanços auditados e regras para a publicação dos resultados passados, dentre outras obrigações.

Apesar de tudo, os dados do censo sobre créditos garantidos de junho de 2017, elaborado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mostra que existiam 61 milhões de clientes com saldo superior a R$ 100 na caderneta. É um número expressivo.

Não existem dados disponíveis sobre o número de investidores em fundos de investimento e de previdência, mas estimativas com base na quantidade de cotistas apontam para um número significativamente menor do que o de aplicadores na poupança.

A rentabilidade média da caderneta nos últimos dez anos foi de 68% da variação do CDI, com alguma oscilação de ano para ano. Mais relevante para o aplicador tradicional, de 2008 até 2017, com a exceção de 2015, o rendimento da poupança sempre superou a inflação do ano.

Mas o rendimento acima da inflação não explica a oscilação do fluxo de recursos direcionado para a caderneta. A correlação entre rentabilidade e captação em períodos anuais é zero.

A correlação é um indicador estatístico que varia de -1 até +1 e mede o quanto uma variável está atrelada ao desempenho de outra. Correlação igual a zero significa que as variáveis se comportam de maneira independente, quando comparadas linearmente.

Quando a correlação é igual a +1 significa que as variáveis se comportam na mesma direção de forma quase que previsível. E a correlação igual a -1 indica que as variáveis tomam caminhos opostos.

Dentre os diversos fatores capazes de justificar o comportamento da captação da caderneta, o mais promissor parece ser a variação do consumo das famílias, conforme calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Analisando os dados anuais dos últimos dez anos, verifica-se que correlação entre o consumo das famílias e o fluxo de recursos para a poupança é igual a 0,7. A interpretação para esse fato é que quando a renda das famílias aumenta, uma parte vai para o consumo e outra para a caderneta de poupança.

Os anos de 2015 e 2016 marcaram uma forte retração do consumo das famílias. Esse mesmo período coincidiu com resgates na poupança.

Com a recuperação econômica e a queda esperada do desemprego, a previsão é de recuperação do consumo das famílias nos próximos anos. A tendência, então, é de aumento da captação da caderneta.

O fato de existirem alternativas de investimento mais rentáveis e com maior liquidez do que a poupança não deve ser interpretado como sinal de que os investidores não sabem distinguir entre boas e más oportunidades.

Mas não deixa de ser intrigante o fato de que o total de contas de caderneta de poupança com saldo superior a R$ 500 mil ter aumentado 9% nos 12 meses encerrados em junho de 2017. Sinal de que a demanda por orientação financeira de qualidade e independente é alta.

Mesmo com opções, escolhas seguem difíceis para o investidor

A variação dos principais índices de referência do mercado financeiro brasileiro foi largamente positiva nos últimos 12 meses encerrados em janeiro de 2018.

A rentabilidade acumulada no período do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI) foi de 9,40%. O CDI tem uma estreita relação com a Selic, atualmente fixada em 6,75% ao ano.

Já o IMA Geral – indicador que mede o ganho de uma carteira diversificada de títulos públicos – subiu 12,79% em 12 meses. Boa parte do rendimento foi ocasionado pela valorização dos papéis devido à queda dos juros para as operações de longo prazo.

E o Ibovespa, principal referência para o desempenho das ações negociadas na bolsa brasileira, teve alta de 31,3% no período. A melhora da economia e a queda do custo de capital para as empresas foram os fatores que fundamentaram o bom desempenho das ações.

Nesse ambiente altamente positivo seria natural esperar que a rentabilidade geral dos fundos de investimento, especialmente os mais agressivos, superasse com alguma folga os indicadores de referência do mercado. No entanto, não foi isso que aconteceu.

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A avaliação de uma listagem de fundos das categorias multimercado e ações disponibilizados nas principais plataformas de distribuição realça a dificuldade dos aplicadores para encontrar boas alternativas de investimento quando as ofertas são muito extensas.

As plataformas de distribuição são estruturas administradas por bancos ou corretoras que buscam oferecer uma ampla variedade de opções para o investidor. Na teoria, a diversidade proporciona maiores ganhos.

Assumindo que os distribuidores selecionam os melhores produtos disponíveis no mercado, o esperado seria que, dentro deste universo, qualquer escolha que fosse feita pelo investidor teria boas chances de produzir bons resultados.

Uma forma para testar o argumento é verificar se a mediana da rentabilidade das carteiras oferecidas nas plataformas de distribuição foi superior aos índices de referência do mercado.

A mediana é um indicador que divide uma amostra em duas metades. No caso de uma lista de fundos, acima da mediana ficam a metade dos fundos com melhor desempenho. Abaixo da mediana, os fundos com pior rendimento.

A média de uma amostra, especialmente da rentabilidade de ativos financeiros, sempre pode ser influenciada por algumas poucas carteiras com desempenho muito positivo ou negativo. A mediana tende a minimizar o efeito de valores extremos.

Para entender o conceito, imagine que um investidor escolheu quatro fundos em uma plataforma de distribuição. Numa situação normal, o esperado é que o investidor aplique em dois fundos com rendimento acima da mediana e dois com rendimento abaixo.

Se nenhum desses quatro fundos hipotéticos tiver desempenho excepcional, para cima ou para baixo, a expectativa é que o investidor consiga rentabilidade próxima da mediana.

Listando todos os fundos das principais plataformas de distribuição e fazendo efetivamente todos os cálculos, é possível constatar que a mediana da rentabilidade dos fundos multimercado ficou acima do CDI, mas foi menor do que o IMA Geral. E a mediana da rentabilidade dos fundos de ações foi inferior ao Ibovespa.

Isso significa que são grandes as chances de um investidor aplicar numa carteira de fundos mais agressivos e terminar com rendimento menor do que uma alternativa mais conservadora e que busque apenas seguir determinado parâmetro de referência. Especialmente se o investidor fizer essa seleção por sua conta e risco, sem ajuda de uma assessoria mais especializada.

No extremo oposto, se o investidor ficar assustado com a quantidade de alternativas disponíveis e optar apenas pelas opções mais conservadoras, pode perder a chance de obter um relevante ganho adicional.

O interessante é que esse padrão ocorreu num período com uma certa tendência de alta dos mercados, apesar das turbulências devido a quedas abruptas provocadas por fatores que estavam fora do radar dos especialistas.

Os números parecem indicar que ter acesso a uma boa plataforma de distribuição de fundos e demais produtos financeiros é importante, mas não suficiente para ter bons rendimentos. É fundamental selecionar as opções disponíveis com critério.

Opções para jovens: poupança, previdência, bitcoin ou robôs?

Uma preocupação corriqueira dos adultos é orientar financeiramente os menores, especialmente sobre a importância de respeitar um orçamento de tal forma a gastar menos do que o total das receitas. Ainda mais no ambiente atual, em que as ofertas de produtos para facilitar o consumo são muitas.

Os meios de pagamento eletrônicos têm evoluído constantemente e hoje um jovem com celular pode pedir comida, baixar um jogo, escolher uma música, se locomover para onde quiser ou comprar ingresso para um espetáculo sem a preocupação imediata com o custo. A fatura vem depois, na conta do cartão de crédito.

Por seu turno, os aplicativos para facilitar a abertura e movimentação da conta bancária, fazer investimentos e acompanhar as oscilações do mercado também têm avançado em ritmo acelerado. Daí surge a dúvida se é melhor sugerir que o jovem invista de forma conservadora ou estimular para que experimente as modalidades arrojadas.

Como regra geral, mais importante do que cálculos padronizados sobre a relação entre idade e possibilidade de recuperação de perdas ou de avaliações subjetivas sobre o perfil de risco, é importante que o jovem conheça o processo de investimento. É uma forma de entender que o resultado final da aplicação, apesar de incerto, não está vinculado somente a uma questão de sorte ou azar.

Mesmo com todos os avanços tecnológicos, os produtos financeiros conservadores continuam figurando entre os mais populares. Devido à sua longa tradição, a principal aplicação financeira no Brasil é a caderneta de poupança.

Essa preferência pela poupança não deixa de ser surpreendente. Isso porque o rendimento da aplicação depende do cálculo da Taxa Referencial (TR), da Taxa Básica Financeira (TBF), de um redutor e de um percentual da Selic. Tudo muito difícil de explicar.

A maior vantagem do investimento na caderneta é o reconhecimento institucional. Apesar de praticamente ninguém se atrever a conferir os cálculos do rendimento mensal, o jovem investidor logo aprende que o fato de os ganhos serem divulgados pelo Banco Central (BC) e creditados a todas as contas gera muita confiança.

Além disso, a aplicação se tornou a porta de entrada, com custo reduzido, para o sistema bancário tradicional. A conta poupança aceita depósitos e os saques e transferências podem ser efetuados nos caixas eletrônicos.

O segundo lugar em popularidade é ocupado pelos planos de previdência destinados a menores. Apesar de também apresentarem uma estrutura complexa, o produto possui um forte apelo emocional, sobretudo para os pais.

A ideia é guardar uma quantidade de recursos relativamente pequena todos os meses. No fim de certo período, o jovem terá acumulado um patrimônio que poderá ser usado para financiar um curso superior ou, talvez, um intercâmbio no exterior.

O jovem que investe num plano de previdência acaba se familiarizando com o conceito de disciplina ao investir. E com o poder dos juros compostos.

Além disso, ao fazer as contas mais detalhadamente poderá perceber que os impactos dos custos operacionais não são desprezíveis. A taxa de administração e taxa de carregamento podem reduzir significativamente o resultado final do investimento.

A contrapartida é ter que conhecer os meandros do nosso complexo sistema tributário, em que os rendimentos podem ser isentos ou tributados numa alíquota de até 35%. Tudo irá depender da escolha do tipo de plano e do prazo de permanência no produto.

Uma terceira alternativa que entrou no radar dos investidores mais antenados é a compra de bitcoins (ou outras criptomoedas). A lógica do investimento é ensinar ao jovem que ele pode manter uma posição de investimentos dividida entre ativos sólidos e conservadores e outra parte em ativos extremamente agressivos e voláteis. O fundamental é fazer corretamente esse balanceamento.

Se, por infelicidade, a carteira virtual de bitcoins for “hackeada” ou roubada, o jovem pode aprender a dar valor a um sistema institucionalizado de proteção ao investidor. E compreender a importância do papel da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do BC.

Uma quarta opção são as carteiras administradas por robôs de investimento. Nessa modalidade um algoritmo estabelece a composição ideal de uma cesta de ativos indexados a diversos índices de taxas de juros e ações, de tal forma a maximizar o retorno para dado nível de risco.

O investimento é útil para aprender os conceitos da teoria das finanças e diversificação do portfólio. E em quais situações as premissas do modelo podem não corresponder à realidade.

O leque de ofertas para o jovem investidor é grande.