Como aproveitar as relações entre os ativos financeiros

Após disputarem 12 partidas, cada uma com duração média de seis horas, uma vitória para cada lado e dez empates, o dinamarquês Magnus Carlsen e o russo Sergey Karjakin decidirão hoje, numa série de partidas rápidas, o novo campeão mundial de xadrez.

Se tanto Carlsen, o atual campeão, quanto Karjakin, o desafiante, estivessem jogando contra um computador, o confronto já estaria resolvido. Com a evolução dos programas aprendizagem automática (“machine learning”, em inglês) tornou-se impossível para um humano, hoje, derrotar os computadores no xadrez.

O conceito de “machine learning” tem sido utilizado em diversas áreas, inclusive no mercado financeiro. O objetivo é identificar e lucrar com fatos aparentemente desconexos e difíceis de serem percebidos.

Na segunda-feira o Ibovespa subiu 2,1% mesmo com o acirramento da crise política brasileira. Na véspera, em pleno domingo, o presidente Temer tinha sido obrigado a convocar uma entrevista coletiva com as participações dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado para acalmar os ânimos.

O motivo da alta da bolsa, apesar do momento político conturbado, foi atribuído ao aumento do preço do minério de ferro no mercado mundial. E essa valorização ocorreu mesmo com as incertezas geradas pelo programa de governo do presidente eleito dos Estados Unidos Donald Trump e a perspectiva, cada vez mais segura, de elevação dos juros pelo Fed, o banco central americano.

Outro exemplo de correlações intrincadas entre os mercados aconteceu no começo do ano. Desde meados de fevereiro até o fim de julho o Ibovespa subiu cerca de 40%. A valorização ocorreu em linha com a recuperação dos preços do petróleo no mercado internacional, que saiu de US$ 30 para US$ 45 por barril.

PetroleoIbovespa

Na época, e ainda hoje, a economia mundial não dava sinais de recuperação marcante. A alta do petróleo não foi acompanhada pelo aumento acentuado do consumo mundial ou redução marcante dos estoques.

Os métodos tradicionais de análise de dados envolvem mapear as possíveis relações entre os diversos fatores capazes de influenciar determinado fenômeno. A partir daí é estabelecido um modelo estatístico e os resultados práticos são testados.

É razoável supor que a quantidade de fertilizante usada para adubar uma área tenha impacto direto sobre a safra colhida. Outros fatores, especialmente o clima, podem ter participação no resultado final. Mas a tendência é que quanto maior o investimento em insumos, mais produtiva será a terra.

Para tentar estabelecer o montante do investimento ideal na melhoria da terra, um agricultor pode recorrer aos testes estatísticos tradicionais. A premissa é que existe um modelo de distribuição dos dados que defina a quantidade de insumos e a safra colhida. Após estabelecida essa relação, as projeções podem ser feitas com alguma margem de segurança.

Os métodos de “machine learning” assumem que as tendências podem ser identificadas unicamente a partir da análise dos dados que estão sendo estudados. Assim, não é preciso construir um modelo teórico para o comportamento das relações, basta analisá-las.

No caso do xadrez, a melhor resposta ao lance do adversário é aquela que irá oferecer a maior possibilidade de vitória, sem se descuidar da defesa das peças. No fundo, os programas de “machine learning” atuam exatamente como um humano abordaria o problema, mas com maior precisão e capazes de fazer análises em espaço de tempo muito mais curto.

No Brasil, alguns fundos de investimento já começam a utilizar modelos quantitativos para fazer a gestão de recursos. Muitas estratégias visam usar as possíveis correlações de curto prazo entre a variação de preços de determinados ativos.

A principal tática empregada por esses gestores é vender alguns ativos que podem cair de preço e, simultaneamente, comprar outros com potencial de alta. Entretanto, nem todos são adeptos dos métodos de “machine learning”.

As “fintechs”, empresas que usam a tecnologia para oferecer produtos e serviços financeiros, também tentam atrair clientes e massificar o atendimento com métodos quantitativos. O principal apelo é a agilidade nas mudanças da composição da carteira.

A despeito de todo o avanço tecnológico, a análise tradicional ainda merece atenção dos investidores. A economia brasileira continua em recessão, os juros reais estão em patamares elevados, mas as contas externas estão ajustadas.

Certamente ainda existe espaço tanto para o bom senso nas análises de mercado quanto para a admiração pelo xadrez jogado por humanos.

Em busca da consistência do desempenho

De 248 fundos de ações criados até 2013, com patrimônio atual acima de R$ 10 milhões e mais de 50 cotistas, apenas 14 conseguiram superar o Ibovespa nos anos de 2014, 2015 e no intervalo de dez meses entre janeiro e outubro de 2016. Destes, dez são carteiras administradas por grandes bancos de varejo e quatro estão sob a responsabilidade de gestores independentes. Os dados são da Morningstar.

Após um período conturbado, quando as grandes empresas estatais foram usadas para atingir objetivos políticos variados, o mercado acionário brasileiro passou a dar sinais de recuperação. As ações de Petrobras e Banco do Brasil estão entre as que registram maiores altas neste ano, após acumularem perdas elevadas em 2015.

A tendência, a partir de agora, é que volte a existir uma certa sintonia de movimentos entre o desempenho dos papéis das principais companhias brasileiras. A dispersão exagerada de rentabilidade que assistimos nos últimos anos parece que vai ficar para trás.

Esse fato tende a ocorrer mesmo considerando que variações acentuadas do retorno das ações de empresas específicas entre um ano e outro são eventos relativamente comuns. Diversos fatores específicos podem afetar a lucratividade de determinado empreendimento.

Disputas societárias, desenvolvimento de novos produtos, obtenção de licenças de comercialização, estabelecimento de novas estratégias de produção e aparecimento de concorrentes mais eficientes são exemplos de fatores que podem afetar o resultado final de uma companhia. E que causam impacto na cotação de seus títulos em bolsa.

No entanto, para o conjunto de empresas com maior representatividade em relação à economia do país, o fator mais relevante tende a ser o ambiente macroeconômico.

O Ibovespa é principal indicador que busca medir essas condições de mercado. A construção do índice atribui pesos maiores às empresas mais valiosas. E companhias com essa característica tendem a ser, também, as mais representativas da economia do país.

Dessa forma, a maneira tradicional para investir na bolsa é montar uma carteira de ações que tenha por objetivo acompanhar o Ibovespa. Diversos fundos com essa característica estão à disposição dos investidores.

O problema é que, assim como os fundos DI mais acessíveis, os fundos de ações indexados tendem a cobrar taxas de administração elevadas. O custo afeta negativamente a rentabilidade final do investidor. Também nesse caso a pesquisa e comparação de ofertas são fundamentais.

Uma alternativa são os ETFs, fundos de ações indexados com cotas negociadas em bolsa. Isso porque a taxa de administração do ETF é mais baixa do que a dos fundos de investimento tradicionais.

Mas é preciso ter cuidado e computar os custos de transação. Essas despesas englobam, principalmente, as taxas de corretagem e custódia.

Em outro extremo, a alternativa do investidor é escolher um fundo de ações da categoria livre. Nessa modalidade, como o nome indica, o gestor tem a liberdade para escolher qualquer composição para a carteira, mirando um ajuste ideal entre rentabilidade superior ao Ibovespa e risco mais baixo.

Todavia, como os números indicam, a tarefa dos administradores de fundos livres é difícil. Mesmo que o investidor tolere um pouco mais de risco e aceite ampliar os prazos de análise para avaliação de desempenho.

Refazendo as contas e considerando o intervalo completo entre janeiro de 2014 e outubro de 2016, encontramos 96 fundos, do total de 248 da amostra, que conseguiram superar o Ibovespa no período.

Na maior parte das vezes, a justificativa para o desempenho positivo foram os ganhos acumulados nas épocas de baixa da bolsa. Uma gestão mais defensiva acabou formando uma reserva de lucros acumulados que compensou a recuperação do mercado neste ano.

SinaisRecuperacao

Outra possibilidade para o investidor é pesquisar fundos que tenham por estratégia a combinação de gestão ativa com avaliações quantitativas da composição da carteira. A vantagem é o aumento da segurança em relação ao desempenho futuro.

Ideias de investimento originadas por uma equipe de gestores podem ocasionar aumento excessivo do risco. Fundos com algum controle estatístico das posições assumidas têm a vantagem de impor um freio ao ímpeto dos gestores e, como consequência, serem um pouco mais previsíveis.

No atual ambiente de recuperação do mercado, ainda carregado de incertezas, é fundamental estabelecer as estratégias de investimento. E buscar alternativas que ofereçam consistência no longo prazo.

O apelo das operações estruturadas com opções

Opções são contratos financeiros que estabelecem as condições para a compra ou venda de determinado ativo entre dois participantes. Os negócios mais comuns são realizados com ações, índices de ações e taxa de câmbio.

De forma geral, o comprador da opção paga um prêmio ao vendedor para que este assuma determinado risco. No entanto, nas operações estruturadas oferecidas aos investidores, existe uma combinação de estratégias de tal maneira a eliminar o desembolso imediato do investidor. O arranjo requer cuidados, porque pode mascarar alguns riscos que ficariam mais visíveis se houvesse um pagamento inicial.

O detentor da opção tem o direito de comprar (ou vender) um certo ativo no futuro a um preço previamente estabelecido. Já o vendedor da opção se obriga a vender (ou comprar) o ativo nas condições acertadas, caso seja solicitado pela outra parte. Existem dois tipos de opções, a “call” e “put”.

A “call” é uma opção de compra. Significa que quem adquiriu o instrumento tem o direito de comprar determinado ativo por um valor definido, chamado de preço de exercício no jargão de mercado.

Imagine que você precise comprar dólares para fazer frente a um determinado compromisso no futuro. Considere que a cotação atual é R$ 3,20. Como existe a possibilidade de o dólar cair, você não quer adquirir a moeda imediatamente.

Suponha que se o dólar subir, em vez de cair, você está disposto de assumir o risco de desembolsar até 10% a mais em relação à cotação de hoje. Acima disso o custo seria demasiadamente elevado.

Uma forma de resolver essa situação é comprar uma “call” com preço de exercício de R$ 3,52. Você teria um desembolso equivalente ao prêmio para aquisição da opção, mas ficaria protegido caso a alta do dólar superasse 10%. E se a cotação do dólar caísse, você lucraria ao comprar a moeda mais barata.  

Já a “put” é a opção de vender o ativo a um determinado preço de exercício. Pense no seguro de automóvel. No caso de roubo ou perda total do veículo, o segurado tem a opção de vender o carro para a seguradora, que fica com o prejuízo. 

Um investidor pode comprar “put” para a carteira de ações, por exemplo. Se os papéis desvalorizarem, consegue sair da posição a um preço acima do mercado. Caso contrário, não exerce a opção.

O prêmio da opção é maior quanto mais provável a possibilidade dela ser exercida. No exemplo do dólar, o prêmio da “call” é maior se o preço de exercício for de R$ 3,30. O prêmio será mais baixo se o preço de exercício for de R$ 4,50. 

As operações estruturadas com opções combinam a compra de “call” e “put” com variados preços de exercícios de forma a especular sobre o comportamento futuro do mercado. O grande apelo dessas estruturas é estimular apostas sem o gasto inicial.

O problema é que, em caso de perdas, é inevitável pagar pelos prejuízos.

Composição da carteira, riscos e controle de custos

Existem três maneiras fundamentais para rentabilizar as aplicações: escolher a composição da carteira de modo eficaz, arriscar nos momentos certos e controlar os custos.

Os investidores de maior sucesso buscam pinçar as estratégias mais eficientes para cada alternativa. E cada vez mais podem contar com os gestores de recursos profissionais que se dedicam a elaborar instrumentos variados e empacotá-los com nomes chamativos. Produtos como “alfa portátil”, “beta esperto” e carteiras indexadas com baixo custo administrativo são alguns exemplos de estratégias que estão à disposição dos clientes. Foram lançados nos mercados desenvolvidos e, aos poucos, começam a crescer no Brasil.

Para entender o conceito, imagine um fundo de ações ideal que possua uma correlação perfeita com o índice Bovespa e consistentemente supere o indicador. A consequência é que o ganho desta carteira hipotética será sistematicamente maior do que a variação da própria bolsa, mas mantendo o mesmo nível de risco.

Para conseguir esse desempenho, o gestor do fundo teria que escolher sempre as ações mais rentáveis a cada intervalo de tempo. Nos períodos de alta da bolsa, a carteira seria composta pelos papéis que mais subiram. Nos momentos de baixa, pelos que menos caíram.

Ainda no campo teórico, é possível descrever matematicamente o comportamento deste fundo, separando o retorno em dois componentes. O primeiro é dado pelo multiplicador sobre a variação do Ibovespa. O segundo é um adicional inerente ao fundo, mas sem vínculo com o comportamento do mercado.

O primeiro parâmetro é chamado de “beta” e o segundo de “alfa”. O retorno da carteira em determinado período é igual ao beta multiplicado pelo retorno do índice Bovespa somado ao parâmetro alfa.

Se o beta da carteira for igual a 1, significa que o risco do fundo é igual ao risco da bolsa. Isso porque as oscilações da carteira e da bolsa são iguais. É o caso do exemplo hipotético.

Se o beta for maior do que 1, a explicação é que a carteira varia mais do que o mercado acionário. Como resultado, a aplicação é mais agressiva, com ganhos e quedas mais acentuados. Já se o beta for menor do que 1, esse fundo é conservador. Ele não acompanha os altos e baixos da bolsa de valores com a mesma intensidade.

O fundo ideal possui beta igual a 1 e alfa positivo. Significa que assumindo o mesmo risco de mercado o investidor consegue retorno acima do índice de referência.

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O alfa também pode ser negativo. Isso ocorre, por exemplo, se a taxa de administração do fundo é muito alta. Os fundos DI oferecidos pelos bancos de varejo são exemplos de carteiras com alfa negativo.

O fundo tem uma correlação perfeita com o parâmetro de referência, a variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI). Mas rende consistentemente menos.

A estratégia “alfa portátil” foi criada com o objetivo de combinar as oportunidades da gestão ativa com o a maior previsibilidade dos fundos indexados a um determinado índice do mercado. A ideia básica é transportar para a carteira indexada o alfa obtido em outro mercado.

Considere um gestor extremamente eficaz em operações de renda fixa. Por meio da administração dos prazos de vencimento dos títulos e do risco de crédito dos papéis em carteira, esse gestor consegue ganhos consistentemente acima da taxa básica de juros. O gestor pode usar o mercado de derivativos com o objetivo de trocar a rentabilidade de seu fundo de renda fixa para o índice Bovespa, por exemplo. Na prática, a carteira de renda fixa é transformada em um fundo de ações.

No entanto, o ganho adicional obtido na renda fixa é mantido no fundo. Como resultado, o rendimento total da carteira é igual à variação do Ibovespa mais o ganho extra nas operações de renda fixa.

A estratégia “beta esperto”, por sua vez, envolve combinar as ações que compõem um índice de maneira mais eficiente. O argumento é que os indicadores que levam em conta a participação do valor de mercado da companhia na ponderação do índice tendem a dar peso maior às ações mais caras e pesos menores às ações mais baratas.

Existem formas de rearranjar os papéis, de modo a evitar a concentração nas ações com menor potencial de ganho (mais caras), mas mantendo mesmo nível de risco do índice original. No longo prazo, seria possível obter ganhos mais elevados, sem aumentar o risco demasiadamente.

A ideia comum das estratégias de investimento mais elaboradas é conciliar o retorno potencial adicional com o risco assumido. Se isso não for possível, o mais sensato para o investidor é reduzir o custo da gestão das aplicações, mantendo a diversificação. A compreensão precisa da estratégia adotada é uma tendência no Brasil e fundamental para o sucesso dos investimentos.

Os benefícios e os danos na gestão dos investimentos

A Operação Greenfield, investigação da polícia federal que apura fraudes relacionadas a investimentos de entidades fechadas de previdência complementar, tem o potencial de esclarecer a forma como os responsáveis pela administração de recursos de clientes tomam suas decisões.

Segundo dados de março de 2016 da Secretaria de Políticas de Previdência Complementar, vinculada ao Ministério da Previdência, essas entidades, também conhecidas como fundos de pensão, reúnem ativos de R$ 751 bilhões, equivalentes a 12% do PIB. São responsáveis pelo pagamento de cerca de 740 mil aposentados ou pensionistas e reúnem um total de 2,7 milhões de participantes ativos, pessoas que ainda estão na fase de contribuição para os planos.

Para o participante de um plano de previdência ou aplicador em fundos de investimento, compreender o processo que levou os gestores a uma determinada decisão é tão importante quanto avaliar o resultado final da carteira. Isso porque os riscos de perdas decorrentes de conflitos de interesses podem ser altos.

Um complicador adicional é que existem diversas técnicas que podem ser usadas para disfarçar o real resultado de um investimento. Todas potencialmente justificáveis em determinadas situações e de acordo com as normas legais estabelecidas.

As entidades que fazem a gestão da poupança de clientes são consideradas investidores institucionais. As mais relevantes no mercado brasileiro, além dos fundos de pensão, são os fundos de investimento e de previdência, institutos de previdência de estados e municípios (RPPS) e seguradoras.

Com estruturas dedicadas exclusivamente a encontrar as alternativas mais rentáveis de aplicação financeira, os investidores institucionais podem contratar uma série de assessores e especialistas. Dada a complexidade do mundo dos investimentos, é uma vantagem significativa em relação ao investidor individual, que deseja poupar para a aposentadoria.

O conceito dessas estruturas é que, a partir de uma legislação básica, os diversos especialistas podem encontrar as melhores soluções para garantir a poupança de milhares de investidores menos sofisticados. É um ganho de escala significativo que aumenta a eficiência da alocação de capital na economia e contribui para o crescimento do país.

Do ponto de vista do investidor, a possibilidade de acesso a aplicações mais rentáveis e os benefícios decorrentes da diversificação da carteira são vantagens expressivas. No longo prazo, o resultado é uma aposentadoria mais confortável para ser desfrutada no futuro.

Além do arcabouço legal que estabelece as atividades dos investidores institucionais, existem diversas entidades de classe que reúnem os participantes do setor para definir políticas e parâmetros de conduta com o objetivo de zelar pelas melhores práticas. No entanto, algumas vezes as coisas podem se desviar do caminho ideal.

Pragmaticamente, é impossível estabelecer uma legislação suficientemente rígida para impedir fraudes. O monitoramento do resultado das carteiras deve ser constante e exercido não apenas pelos órgão reguladores, mas também pelos participantes do mercado.

Durante muitos anos, no Brasil, a composição da carteira dos investidores institucionais foi rigidamente engessada. A consequência era a ineficiência. Com a evolução do mercado, os controles foram sendo gradualmente flexibilizados.

Um exemplo particularmente interessante é a legislação sobre fundos de investimento. Os gestores possuem muita liberdade de opções, desde que informem a política de investimento aos cotistas, calculem os resultados diariamente e divulguem a carteira mensalmente, entre outras obrigações.

Se o resultado não for satisfatório, o cotista tem a liberdade de resgatar os recursos. Informação e competição estimulam os gestores a ponderar o risco com o retorno esperado das estratégias de investimento.

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Pelo que foi divulgado até o momento, as fraudes investigadas pela Operação Greenfield possuem uma estrutura relativamente simples, porém engenhosa: os fundos de pensão compravam ações de companhias fechadas por meio de fundos de investimento em participação (FIP) a preços superfaturados.

O objetivo dos fraudadores era o de postergar o máximo possível a descoberta das consequências do mau investimento. E deixar o prejuízo com os detentores dos planos.

Se os participantes do mercado não forem capazes de criar estruturas para alertar sobre potenciais riscos de fraudes na gestão dos fundos de pensão, talvez a alternativa seja eliminar essas entidades, dando liberdade aos participantes para escolherem a opção de investimento que julgarem mais conveniente.

Cenário internacional afeta investimentos no Brasil

Taxas de juros de curto prazo abaixo da inflação e evolução constante da tecnologia ocasionaram mudanças importantes na forma como os investidores dos países desenvolvidos passaram a encarar as diversas modalidades de investimento. E gerou reflexos significativos também para as aplicações financeiras no Brasil.

Do ponto de vista macroeconômico, a estratégia dos bancos centrais dos Estados Unidos, Europa e Japão para combater os efeitos da queda da atividade econômica nos anos recentes foi tentar manter inalterado o nível de crédito para empresas e famílias. O principal instrumento para a implementação dessa política foi o chamado “afrouxamento monetário”.

Trata-se de uma combinação que envolve redução da taxa de juros de curto prazo com a recompra de títulos públicos e privados em poder dos bancos. O objetivo é facilitar a renovação dos contratos de empréstimos, fornecendo recursos aos bancos para aumentarem a carteira de crédito a juros baixos.

A justificativa para as medidas adotadas é a tendência das instituições financeiras de cortar linhas de financiamento para companhias e consumidores em momentos de retração econômica. Nessas situações, o temor da inadimplência estimula os bancos a dificultarem a renovação dos contratos.

Se os bancos centrais dos países desenvolvidos não agissem, a consequência seria o agravamento da recessão, tornando mais difícil a recuperação da economia global.

Mas alguns especialistas apontam problemas com a estratégia que vem sendo seguida. O principal temor é que a atual política de afrouxamento monetário acabe provocando o aumento da inflação nos países desenvolvidos.

Como consequência, para controlar a inevitável alta de preços no futuro, os bancos centrais necessariamente teriam que voltar a elevar os juros. Os analistas mais ortodoxos argumentam que o resultado da atual política seria apenas o adiamento dos problemas.

Os mais pessimistas apontam, ainda, para os riscos decorrentes da excessiva valorização dos títulos públicos e das ações negociadas nos países desenvolvidos.

Isso porque o efeito colateral da maior quantidade de dinheiro disponível na economia mundial foi o aumento da demanda por títulos de renda fixa e ações. A procura maior provocou aumento do preço dos ativos.

No mercado de renda fixa, o aumento do preço dos títulos implica redução do rendimento corrente da aplicação para os novos investidores. Esse fato pode ser constatado por meio da análise dos diversos índices Barclays, uma empresa especializada em cálculos de indicadores de mercado.

Por exemplo, em janeiro de 2014 o rendimento médio de um título do governo americano com prazo de vencimento variando entre cinco e sete anos era de 1,86% ao ano, segundo o índice Barclays US Treasury 5-7 anos Yield. Em julho de 2016 o rendimento para quem comprava o papel havia caído para 1,18% ao ano.

JuroAmericano

A contrapartida é que a valorização do título aumentou o retorno do investidor que já tinha o título. O ganho total do índice Barclays US Treasury 5-7 anos TR, que inclui os juros recebidos e a apreciação do papel, no período compreendido entre janeiro de 2014 e julho de 2016 foi de 4,89% ao ano.

Portanto, mesmo em um ambiente de queda dos juros de curto prazo a níveis recordes de baixa, a aplicação em títulos de renda fixa de países desenvolvidos proporcionou um retorno expressivo. O mesmo aconteceu no mercado acionário.

O excesso de liquidez patrocinado pelos bancos centrais provocou uma corrida para compra de ativos reais, especialmente ações negociadas nos Estados Unidos. Entre janeiro de 2014 e julho de 2016, o S&P 500, um dos principais indicadores de desempenho do mercado americano, subiu 24%.

A tecnologia ajudou os investidores em países desenvolvidos a tirar vantagem da alta do preços dos ativos. Por exemplo, hoje em dia o investidor pode atrelar as aplicações em um ETF (fundo negociado em bolsa, na sigla em inglês) ao cartão de crédito. Dessa forma, o pagamento da fatura pode ser efetuado automaticamente com a baixa das aplicações.

Isso pode ser feito com qualquer tipo de aplicação. Como consequência, muitos investidores reduziram radicalmente a proporção do caixa e dos ativos atrelados aos juros de curto prazo nas carteiras.

A tecnologia, o temor com o possível aumento da inflação no futuro e a percepção da excessiva valorização dos mercados desenvolvidos têm estimulado o investimento em ativos alternativos. Entre as opções disponíveis estão as commodities e ações de empresas negociadas em mercados emergentes.

Especificamente para o mercado brasileiro, o atual ambiente mundial é favorável à especulação com a queda do real em relação ao dólar e a aposta na alta do Ibovespa. Os motivos tem pouca relação com os fundamentos da economia do país. É possível lucrar no curto prazo, mas é preciso cautela.

Disputa pela medalha de aplicação mais rentável do ano

Uma competição acirrada vem sendo travada pelo posto de investimento mais rentável do ano no mercado brasileiro.

Tanto as ações negociadas em bolsa quanto os títulos emitidos pelo Tesouro Nacional indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com vencimento no longo prazo acumulam ganhos expressivos até julho de 2016. Por enquanto a vantagem é da bolsa, mas a situação pode mudar.

O gráfico abaixo compara o rendimento acumulado do Ibovespa e do indicador IMAB5+. O Ibovespa reflete o comportamento das ações mais negociadas na BM&FBovespa.

Já o IMAB5+ mede o desempenho de uma carteira composta por Notas do Tesouro Nacional da série B (NTNB) com data de vencimento maior que cinco anos. No Tesouro Direto, o sistema de negociação de títulos públicos via internet administrado pelo Tesouro Nacional, os papéis são chamados de Tesouro IPCA+.

Medalha

Depois de acumular queda de mais de 6% em janeiro, o Ibovespa mostrou recuperação expressiva. Nos meses seguintes, com a exceção de maio, o indicador teve ganhos sempre superiores a 5%. Até o dia 20 de julho o rendimento acumulado marca 30,51%.

Maio também foi ruim para o IMAB5+, que teve variação negativa. Entretanto, nos demais meses a rentabilidade foi sempre positiva. No total, o ganho acumulado no ano está em 24,07%.

Para efeitos de comparação, a variação do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI), o principal parâmetro de referência para a rentabilidade das operações de renda fixa, ficou em pouco mais de 1% ao mês no mesmo período. O ganho acumulado no ano é de 6,7%.

O gráfico mostra, ainda, que o rendimento do IMAB5+ tem oscilado menos do que a rentabilidade do Ibovespa.

Para o futuro, dois fatores apontam para o aumento dos lucros das companhias brasileiras e a consequente valorização adicional das ações negociadas no Ibovespa.

Sob a perspectiva externa, a recuperação recente do preço das commodities sinaliza maior dinamismo da economia mundial. Esse fato é positivo para as empresas operando no Brasil devido à possibilidade de aumento das transações internacionais.

Pelo lado interno, existe a percepção de que a crise brasileira caminhe para uma solução. Isso eventualmente melhoraria o ambiente de negócios no país.

O ganho das NTNBs, por sua vez, decorre da expectativa de redução da atual diferença entre as taxas de juros e inflação. O raciocínio é que a severa recessão dos últimos dois anos combinada com o esforço para reequilibrar as contas públicas levará, forçadamente, a um ajuste na economia brasileira.

Atualmente, o ambiente mundial é de juros baixos e inflação controlada. Com um mínimo de organização interna seria possível criar as condições para uma redução significativa da diferença entre a taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano, e a variação do IPCA, que foi de 8,84% nos últimos 12 meses.

Em termos de fundamentos para a avaliação do preço dos ativos, as ações das companhias, de uma forma geral, são cotadas com base em um multiplicador sobre o lucro ou as receitas. Quanto menor a taxa de juros, maior o multiplicador. E quanto maior o lucro ou a receita, maior o preço da ação.

Consequentemente, um cenário de aumento dos lucros e redução dos juros é positivo para o investimento em ações.

Já a cotação dos títulos de renda fixa de longo prazo reflete o desconto a valor presente do fluxo futuro dos pagamentos previstos. Existe, então, uma relação inversa entre os juros de mercado e o valor do título.

Para exemplificar, considere a NTNB com vencimento em 2050 e pagamento semestral de juros de 6% ao ano sobre o valor nominal, conforme estabelecido pelo Tesouro Nacional. Quando o título é cotado a 6% ao ano, o valor de mercado é igual ao valor nominal. Mas se o rendimento de mercado cai para 5,9% ao ano, o valor de mercado do papel aumenta em 1,4%.

Significa que para cada 0,1 ponto percentual de queda do rendimento do título, o valor de mercado aumenta 1,4 ponto percentual. Essa alavancagem torna a aposta nos títulos de longo prazo altamente volátil, porque pequenas mudanças no rendimento multiplicam o valor de mercado do papel.

Em contrapartida, essa característica aproxima o comportamento dos títulos de renda fixa de longo prazo à trajetória do rendimento das ações. E justifica a comparação direta das duas modalidades de investimento.

Objetivamente, a aposta na NTNB leva vantagem em um cenário mais simples, de queda dos juros reais (acima da inflação). Para que a bolsa continue subindo, é preciso ainda que as perspectivas de lucros das empresas aumentem.

Modelos de alocação de ativos para controlar oscilações

A forma como o investidor escolhe repartir as aplicações entre as diversas modalidades de ativos é determinante para a rentabilidade final da carteira de investimentos.

Nos últimos 12 meses, por exemplo, ganhou mais quem aplicou nos títulos públicos indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com vencimento em até 5 anos. O IMA-B 5, indicador que mede o desempenho desses papéis, registrou rendimento de 16,83% entre junho de 2015 e maio de 2016.

Já a renda variável, de maneira geral, teve desempenho sofrível no mesmo período. Particularmente ruim foi a aposta no índice de materiais básicos da BM&FBovespa (IMAT), que engloba papéis como Vale, Klabin, Fibria e Gerdau. O indicador amargou queda de 16%.

Como é impossível prever com segurança o comportamento do preço dos ativos financeiros, a recomendação é diversificar os investimentos. E usar algum modelo de alocação de ativos como base para as decisões.

Por trás deste conselho, existem duas ideias básicas. A primeira é que durante um determinado intervalo de tempo, invariavelmente haverá um grupo de ativos que terá desvalorização, enquanto outro conjunto irá subir de preço.

Usando dados históricos, é possível calcular as modalidades de investimentos que tendem a se movimentar na mesma direção, aquelas que caminham em direções opostas e as que possuem trajetória independente. A forma de combinar os grupos definirá o grau de oscilação da rentabilidade total da carteira.

A segunda ideia é fundamentada na percepção de que ativos com maiores oscilações de preço tendem a apresentar retorno mais elevado no longo prazo. A explicação intuitiva é que nenhum investidor apostaria numa modalidade sujeita a muitos altos e baixos sem a perspectiva de ganhos mais polpudos no longo prazo.

Mas é preciso cautela. Não é o fato de um ativo variar muito que o torna mais rentável. Algumas vezes, a oscilação em excesso significa apenas maior risco.

Considere o comportamento da cotação das ações de uma companhia qualquer sólida e lucrativa. Em alguns momentos, devido às baixas causadas pelos ciclos econômicos, o valor da empresa pode ficar substancialmente inferior ao montante considerado justo.

Outras vezes, geralmente nos períodos de euforia, as ações podem experimentar valorizações expressivas. Todavia, caso a companhia continue desenvolvendo os negócios, a tendência é que proporcione bons lucros aos acionistas, a despeito das oscilações de curto prazo.

Situação diferente pode ocorrer com ações ou fundos de investimentos considerados “quentes”. A variação excessiva, nesses casos, é um indicador de que tratam-se de investimentos especulativos. Dependendo do tamanho do tombo, a recuperação fica inviável e a melhor estratégia é evitar a aplicação.

Decorre das duas ideias descritas anteriormente que, do ponto de vista teórico, existe sempre uma combinação ideal de ativos, calculada matematicamente, que potencializa ao máximo o retorno esperado, dado o nível de risco que se queira correr.

O problema é que essas alocações perfeitas são sempre definidas com base nos dados históricos. E nada garante que o futuro irá repetir o passado.

A solução pragmática é adotar um modelo que tenha como origem uma carteira de mercado. Significa, por exemplo, usar como base na renda fixa a ponderação dos títulos públicos em poder de todos os investidores.

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Assim, determinados percentuais da carteira serão investidos em papéis atrelados à taxa Selic ou à variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI), em títulos prefixados e indexados ao IPCA. Uma parcela pode ser direcionada para crédito privado, ou seja, papéis emitidos por empresas ou instituições financeiras.

Na renda variável, a solução para diversificar a carteira de ações é usar a ponderação definida por um índice, tal como o Ibovespa ou o MSCI. Fundos imobiliários e aplicações vinculadas à taxa de câmbio também podem fazer parte dessa parcela.

Os fundos multimercados são, em muitos casos, substitutos para as alocações em títulos prefixados ou indexados a IPCA, para os investimentos em bolsa e atrelados à taxa de câmbio.

O desafio do investidor passa a ser o de definir o peso da carteira a ser atribuído cada grupo de ativos. E a frequência ideal para fazer os reajustes.

No ambiente atual, nem as LFTs são à prova de risco

Nos últimos meses, os aplicadores em Letras Financeiras do Tesouro (LFT) tiveram rendimento diferente conforme o prazo de vencimento que escolheram investir. O título é atrelado à taxa Selic e considerado como sendo o de menor risco de mercado.

No ano, as LFTs com resgate estipulado para datas mais distantes registram ganhos inferiores ao dos papéis que vencem em períodos mais próximos. A conta considera tanto os juros acumulados no período quanto o ganho de capital e a diferença entre as taxas de compra e venda.

No Tesouro Direto, o sistema de comercialização de títulos públicos administrado pelo Tesouro Nacional, a LFT é chamada de Tesouro Selic. O relatório do Tesouro Direto indica que a rentabilidade acumulada no ano até o dia 20 de maio do papel com vencimento em 2021 foi de 4,77%. A LFT com resgate programado para 2017 rendeu 5,11%.

A rentabilidade de ambas ficou menor do que a variação da taxa Selic e do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) no mesmo intervalo. O ganho acumulado dos indicadores foi de 5,17% e 5,16%, respectivamente.

Esse comportamento não é comum e a explicação parece ser a preferência dos investidores por reduzir o tempo até o resgate das aplicações. Por essa razão, os títulos de curto prazo ficaram mais valiosos em relação aos de longo prazo.

Mesmo com a correção diária de acordo com os juros que foram acordados – a taxa Selic no caso das LFTs –, os papéis de renda fixa possuem comportamento semelhante ao de qualquer ativo.

Significa que se houver aumento da demanda, o preço do título sobe e, como consequência, a rentabilidade dos detentores do papel comprado em momento anterior é maior. O oposto acontece no caso de queda da procura, com a consequente perda do valor de mercado.

Atualmente, apenas a opção com vencimento em março de 2021 está disponível para compra no Tesouro Direto. O investidor não pode adquirir a LFT com resgate em 2017 no sistema. Ambos os títulos podem ser vendidos normalmente, sem restrições.

O histórico da cotação das taxas de compra e venda mostra a mudança de preferência dos aplicadores. No começo do ano a taxa de compra da LFT com vencimento em 2021 era 0%. Isso significa que o investidor conseguia remuneração equivalente à taxa Selic.

A taxa de venda era de 0,04%. Quer dizer que para se desfazer do papel o investidor era obrigado a conceder um desconto no preço do título de tal forma que o Tesouro recebesse uma remuneração equivalente à taxa Selic mais 0,04% ao ano.

Mais recentemente, as taxas de compra e venda subiram para 0,03% e 0,07%, respectivamente. Como resultado, a aplicação na LFT com vencimento em 2021 passou a render ao investidor a taxa Selic mais 0,03% ao ano.

Mas, para se desfazer do papel, quem comprou no começo do ano com a remuneração equivalente à taxa Selic é obrigado, agora, a aceitar um desconto no valor do título de tal forma que o rendimento suba para taxa Selic mais 0,07% ao ano. Esse ajuste explica a rentabilidade do papel inferior ao CDI em 2016.

Já a LFT com vencimento em 2017 tinha, no começo do ano, taxa de compra de 0% e venda de 0,02%. Agora, a taxa de compra continua em 0%, mas a taxa de venda recuou para 0,01%. A redução da diferença entre as taxas explica a maior rentabilidade do papel curto em relação ao longo.

As mudanças nos valores de mercado são pequenas, mas causam desconforto. Principalmente considerando que as LFTs são títulos usados para remunerar a sobra de caixa e administrar a liquidez.

Outro indicador relevante para acompanhar a temperatura do mercado de títulos públicos são as taxas de colocação nos leilões periódicos realizados pelo Tesouro Nacional.

Para financiar o déficit orçamentário – estimado em R$ 170 bilhões para este ano – e rolar a dívida pública, o governo capta recursos por meio da emissão de papéis. O Tesouro faz a administração desse fluxo.

Também nesse ambiente vale a regra geral de que a demanda menor implica desconto maior no valor de mercado dos títulos. O gráfico abaixo mostra a evolução da taxa de colocação de LFTs nos leilões periódicos realizados desde janeiro de 2011.

LFT

Os números mostram o aumento recente das taxas, indicando que o desconto sobre o valor de face dos papéis aumentou e justificando a cotação dos títulos no Tesouro Direto.

Dado o atual ambiente de incertezas, é importante acompanhar a evolução dos preços de mercado das LFTs para identificar possíveis tendências no mercado de títulos públicos. Descontos elevados nos títulos atrelados à taxa Selic podem significar problemas.

Robôs ampliarão o alcance da assessoria financeira

No passado, investir em títulos atrelados à variação da taxa dos certificados de depósitos interfinanceiros (CDI) era algo relativamente complexo e caro. Hoje, graças à robustez dos códigos de computação e à proliferação de programas e aplicativos, basta um clique para que o negócio seja concretizado praticamente sem custos.

A edição de fevereiro e março da revista da Morningstar, uma provedora de serviços de informações sobre investimentos, discutiu o crescimento da utilização dos robôs no segmento de assessoria financeira.

Tradicionalmente, o objetivo da tecnologia no mercado de investimentos tem sido o de ampliar e tornar mais eficiente o processo de distribuição de produtos e serviços. Com o desenvolvimento da informática, em vez de depender de um profissional da linha de frente, o cliente passou a realizar suas operações diretamente por intermédio do computador, celular ou caixa eletrônico.

Isso ampliou a quantidade de transações executadas e proporcionou ganhos de escala às instituições financeiras. Parte do aumento da produtividade foi revertida para os clientes, por meio de custos mais baixos ou relatórios mais elaborados.

O passo seguinte foi o de aumentar o leque de informações sobre as alternativas de investimento disponíveis. Como consequência, diversos sites na internet passaram a oferecer ferramentas onde é possível selecionar ativos, comparar opções e simular resultados, além de realizar as aplicações.

A tendência mais recente é que robôs façam sugestões de alocação de recursos com base nas informações fornecidas pelo investidor sobre os objetivos da aplicação e da tolerância aos riscos de perda do capital. A partir daí o cliente pode decidir investir na carteira sugerida, que é reajustada periodicamente de maneira automática conforme mudem as condições de mercado.

Os modelos de construção de carteiras envolvem estimar o maior retorno possível para um determinado nível de risco. O gráfico abaixo indica a relação entre o ganho acumulado e a oscilação da rentabilidade desde janeiro de 2015 até abril de 2016 para os principais indicadores do mercado financeiro brasileiro.

CarteiraIdeal

A ideia é combinar os ativos de tal maneira a conseguir as ponderações mais eficientes, tendo em vista os objetivos que foram estipulados. O processo de assessoria financeira busca estabelecer parâmetros conforme as necessidades específicas de cada cliente.

Como em qualquer modelo, para tirar o máximo de proveito é preciso entender a lógica das premissas. Segundo os especialistas, existe um ciclo de aprendizagem.

Em um primeiro momento, nossa preferência é conversar com uma pessoa que possa nos explicar em detalhes as estratégias de investimento sugeridas. Depois, conforme vamos nos aprofundando a respeito do assunto, a tendência é ganharmos confiança para tomar decisões autônomas e executá-las via Internet.

Para Don Phillips, diretor executivo da Morningstar, a qualidade da assessoria financeira está em alta. Paradoxalmente existem hoje nos Estados Unidos menos assessores financeiros em relação ao que havia no passado. Entretanto, a demanda por serviços mais elaborados aumentou.

A tecnologia permite que os assessores financeiros adotem um tratamento mais amplo, o que no jargão de mercado é chamado de abordagem holística. Trata-se de um conceito teórico segundo o qual a totalidade dos fatores interagem, formando um todo que não pode ser entendido isoladamente.

No caso específico da assessoria financeira, para definir a composição mais eficiente da carteira é necessário conhecer em detalhes todas as necessidades do cliente. Muitas vezes, apenas com uma conversa pessoal é possível identificar os parâmetros relevantes para um planejamento abrangente.

A consequência prática da evolução tecnológica é uma mudança na forma de remuneração do trabalho dos prestadores de serviço. Em vez de as comissões estarem relacionadas com o valor do patrimônio dos investidores, cada vez mais o ganho dos assessores financeiros estará fundamentado no valor que o profissional puder agregar para seus clientes.

Os robôs estão se tornando uma plataforma importante para os assessores financeiros. Como a tecnologia ajuda a economizar tempo e aumentar a escala de prestação de serviços, torna-se possível atender mais clientes.

Fazendo uma analogia com o Uber, que estimulou o setor de serviços de transporte em carros particulares, graças aos robôs é possível imaginar uma expansão significativa do mercado de assessoria de investimentos.