Emoção para o investidor na largada das eleições

O dia 6 de abril foi o último para a desincompatibilização. Trata-se do afastamento obrigatório de ocupantes dos principais cargos públicos, tais como ministros, secretários, governadores e prefeitos, que pretendam se candidatar nas eleições de 7 de outubro.

Desde aquela data até o dia 31 de maio, o real perdeu 11% em relação ao dólar, o Ibovespa caiu 10% e o prejuízo médio dos detentores de títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional foi de 1%, conforme o indicador IMA-Geral. Para efeitos de comparação, a variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) foi de 0,94% no mesmo intervalo.

O período, que contou ainda com a greve dos caminhoneiros e a demissão do presidente da Petrobras, também coincidiu com turbulências no mercado internacional. O rendimento dos títulos de 10 anos emitidos pelo Tesouro dos EUA subiu do patamar de 2,70% ao ano para a faixa entre 2,90% ao ano e 3,10% ao ano.

Emocao

Esse aumento da taxa de retorno dos títulos americanos desencadeou uma série de ajustes nas posições dos investidores globais. Como resultado, praticamente todas as moedas perderam valor em relação ao dólar.

A cotação média das principais divisas dos países desenvolvidos recuou cerca de 4%. A desvalorização foi mais acentuada entre os emergentes. O peso argentino perdeu 20%, a lira turca 11%, o peso mexicano 10% e o rublo russo 7%.

Além disso, ocorreu o aumento da cotação das commodities decorrente, dentre outros fatores, da incerteza sobre a condução da política monetária nos EUA. O preço do petróleo no mercado internacional subiu 14% e o índice Thomson Reuters/CRB aumentou 5%.

As bolsas mundiais tiveram desempenho diverso. As ações negociadas nos países desenvolvidos subiram 1,23% em média, conforme o índice MSCI World. Já a cotação das companhias negociadas nos países emergentes caiu 3,60% em dólares, de acordo com o indicador MSCI EM.

Para o investidor local, a consequência do ambiente de crise política interna e ajustes no mercado internacional foi a queda do desempenho das carteiras mais agressivas. Mais de 90% dos fundos de ações e metade dos multimercado tiveram rentabilidade negativa no período.

A mediana do rendimento dos fundos de ações com mais de 50 cotistas e patrimônio superior a R$ 10 milhões foi de -8,39% no intervalo considerado. Na categoria multimercado, carteiras com a mesma quantidade de cotistas e patrimônio superior a R$ 50 milhões registraram mediana de rentabilidade de 0%.

No atual ambiente é importante que o investidor administre as emoções. Até há pouco dias, a recomendação majoritária dos analistas era aumentar o risco da carteira.

A avaliação era de que um candidato reformista ganharia as eleições, os juros ficariam baixos por muito tempo, a inflação continuaria controlada e o déficit público seria equacionado. Isso implicaria custo de capital menor para as empresas, aumento da produtividade, da atividade econômica e crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).

Nesse cenário, a aposta certeira seria aplicar na bolsa, comprar títulos públicos de longo prazo e vender dólares. Existia confiança de que eventuais revezes na estratégia acabariam sendo rapidamente revertidos.

A queda recente dos ativos veio acompanhada de uma série de emoções negativas. A frustração de constatar que os candidatos de centro não sobem nas pesquisas de intenção de voto, a preocupação com a demora da retomada econômica, o desalento causado pela sensação de que a corrupção não arrefeceu e a indignação de que os cofres públicos possam ser usados para favorecer determinados segmentos da sociedade, pondo em risco as possibilidades do equilíbrio fiscal, são os sentimentos que agora dominam os investidores.

Entretanto, é possível ser otimista. Um governo fraco não é necessariamente ruim já que as forças de mercado podem passar a atuar de forma mais intensa. Por exemplo, sem ter como impor a redução de R$ 0,46 no preço do diesel, algum tipo de arranjo entre consumidores, postos de abastecimento e refinarias tende a ser encontrado.

No campo político, é possível que a vontade de prosperar acabe gerando pontos em comum entre os variados grupos de eleitores.

Em relação aos investimentos, é importante manter um plano de longo prazo, administrar os riscos e recapitular as razões que levaram às decisões de comprar aqueles ativos. E manter as emoções equilibradas.

Modelos de alocação de ativos para controlar oscilações

A forma como o investidor escolhe repartir as aplicações entre as diversas modalidades de ativos é determinante para a rentabilidade final da carteira de investimentos.

Nos últimos 12 meses, por exemplo, ganhou mais quem aplicou nos títulos públicos indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com vencimento em até 5 anos. O IMA-B 5, indicador que mede o desempenho desses papéis, registrou rendimento de 16,83% entre junho de 2015 e maio de 2016.

Já a renda variável, de maneira geral, teve desempenho sofrível no mesmo período. Particularmente ruim foi a aposta no índice de materiais básicos da BM&FBovespa (IMAT), que engloba papéis como Vale, Klabin, Fibria e Gerdau. O indicador amargou queda de 16%.

Como é impossível prever com segurança o comportamento do preço dos ativos financeiros, a recomendação é diversificar os investimentos. E usar algum modelo de alocação de ativos como base para as decisões.

Por trás deste conselho, existem duas ideias básicas. A primeira é que durante um determinado intervalo de tempo, invariavelmente haverá um grupo de ativos que terá desvalorização, enquanto outro conjunto irá subir de preço.

Usando dados históricos, é possível calcular as modalidades de investimentos que tendem a se movimentar na mesma direção, aquelas que caminham em direções opostas e as que possuem trajetória independente. A forma de combinar os grupos definirá o grau de oscilação da rentabilidade total da carteira.

A segunda ideia é fundamentada na percepção de que ativos com maiores oscilações de preço tendem a apresentar retorno mais elevado no longo prazo. A explicação intuitiva é que nenhum investidor apostaria numa modalidade sujeita a muitos altos e baixos sem a perspectiva de ganhos mais polpudos no longo prazo.

Mas é preciso cautela. Não é o fato de um ativo variar muito que o torna mais rentável. Algumas vezes, a oscilação em excesso significa apenas maior risco.

Considere o comportamento da cotação das ações de uma companhia qualquer sólida e lucrativa. Em alguns momentos, devido às baixas causadas pelos ciclos econômicos, o valor da empresa pode ficar substancialmente inferior ao montante considerado justo.

Outras vezes, geralmente nos períodos de euforia, as ações podem experimentar valorizações expressivas. Todavia, caso a companhia continue desenvolvendo os negócios, a tendência é que proporcione bons lucros aos acionistas, a despeito das oscilações de curto prazo.

Situação diferente pode ocorrer com ações ou fundos de investimentos considerados “quentes”. A variação excessiva, nesses casos, é um indicador de que tratam-se de investimentos especulativos. Dependendo do tamanho do tombo, a recuperação fica inviável e a melhor estratégia é evitar a aplicação.

Decorre das duas ideias descritas anteriormente que, do ponto de vista teórico, existe sempre uma combinação ideal de ativos, calculada matematicamente, que potencializa ao máximo o retorno esperado, dado o nível de risco que se queira correr.

O problema é que essas alocações perfeitas são sempre definidas com base nos dados históricos. E nada garante que o futuro irá repetir o passado.

A solução pragmática é adotar um modelo que tenha como origem uma carteira de mercado. Significa, por exemplo, usar como base na renda fixa a ponderação dos títulos públicos em poder de todos os investidores.

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Assim, determinados percentuais da carteira serão investidos em papéis atrelados à taxa Selic ou à variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI), em títulos prefixados e indexados ao IPCA. Uma parcela pode ser direcionada para crédito privado, ou seja, papéis emitidos por empresas ou instituições financeiras.

Na renda variável, a solução para diversificar a carteira de ações é usar a ponderação definida por um índice, tal como o Ibovespa ou o MSCI. Fundos imobiliários e aplicações vinculadas à taxa de câmbio também podem fazer parte dessa parcela.

Os fundos multimercados são, em muitos casos, substitutos para as alocações em títulos prefixados ou indexados a IPCA, para os investimentos em bolsa e atrelados à taxa de câmbio.

O desafio do investidor passa a ser o de definir o peso da carteira a ser atribuído cada grupo de ativos. E a frequência ideal para fazer os reajustes.

Risco e incerteza nos investimentos

O comitê de política monetária (Copom) inicia hoje a reunião para avaliar as perspectivas da economia brasileira e estabelecer, amanhã, a meta da taxa Selic que irá vigorar até setembro.

Nesses dias, os analistas do mercado ficam focados em prever o resultado do encontro, projetar a reação da bolsa e estimar o comportamento do dólar. A decisão do Banco Central tem o potencial de provocar uma série de ajustes no preço dos ativos financeiros.

Também no ambiente internacional os especialistas se esforçam para antecipar os movimentos. As discussões hoje têm envolvido o possível impacto do aumento da taxa de juros pelo Fed, o banco central americano, o potencial de recuperação dos países da zona do Euro e as consequências da eventual desaceleração da economia chinesa.

Mas, apesar de todas as ligações entre os diversos indicadores econômicos e o desempenho das aplicações financeiras serem minuciosamente analisadas, as projeções sobre os rendimentos são sistematicamente frustradas. Isso porque há uma incerteza inerente aos investimentos.

No início do século passado, o economista Frank Knight, que fez carreira na Universidade de Chicago, concluiu que a incerteza é parte integrante das atividades empresariais. Segundo a teoria, existe uma diferença entre risco e incerteza.

O risco é algo que pode ser medido em termos de probabilidades associadas para cada conjunto de resultados esperados. A incerteza está relacionada com as situações que empresários e executivos precisam administrar no dia a dia dos negócios.

Considere a indústria fonográfica nos anos 90. Para uma gravadora, o risco na época era que um determinado número de pessoas fizesse cópias piratas de CDs de tal forma a reduzir o volume total das vendas. Tratava-se de uma variável possível de ser estimada.

A incerteza do negócio ficou evidenciada quando novas tecnologias mudaram a forma de ouvir, compartilhar e distribuir música. Isso pegou de surpresa muitas empresas e acabou revolucionando a indústria.

Apesar de acontecer com certa frequência, o aparecimento de uma tecnologia revolucionária que liquida de uma vez com uma indústria é um caso relativamente raro. A maioria dos empresários e executivos precisa lidar com incertezas mais mundanas.

Na prática, para superar as adversidades, há um componente associado ao julgamento e à intuição que acaba exercendo papel decisivo para o sucesso dos negócios. Inegavelmente, bons gestores e alguma dose de sorte fazem diferença.

Portanto, por esse aspecto, a justificativa do lucro de uma companhia pode ser associada à melhor capacidade dos gestores em enfrentar as incertezas. Em termos genéricos, é possível concluir que, para manter os ganhos acima da média, é necessário tomar uma série de decisões arriscadas.

Do ponto de vista dos investimentos pessoais, a distinção entre risco e incerteza, conforme a teoria de Knight, traz algumas considerações relevantes. A consequência mais imediata é a justificativa para investir em ações de companhias negociadas em bolsa.

A oscilação diária do preço dos papéis é reflexo da imprevisibilidade do fluxo de caixa esperado da empresa. Mas se o lucro decorre das incertezas, a volatilidade, representada pelo sobe e desce dos preços, não é razão para afugentar o investidor.

Para compreender, imagine as ações como pequenas frações de grandes negócios promissores. O fato de outros investidores mudarem de opinião com frequência, aumentando ou reduzindo o valor da companhia, não é motivo para fazer você mudar a sua carteira.

A liquidez dos papéis nas bolsas pode ser vista como uma opção para você aumentar ou diminuir a sua participação na companhia, segundo sua conveniência. Essa é a filosofia de investimento de Warren Buffett, o investidor mais bem sucedido do mundo.

Em termos pragmáticos, se o investimento em ações está associado ao lucro obtido pelas companhias, o rendimento de uma carteira de renda variável tende a ser maior do que as aplicações em renda fixa. E a oscilação de curto prazo da cotação dos papéis acaba não tendo impacto sobre a rentabilidade no longo prazo.

Nos EUA, os números comprovam essa visão. Já no Brasil não ocorre o mesmo. O gráfico abaixo compara o retorno de alguns índices de referência para o período de dez anos compreendido entre 1º de julho de 2005 e 30 de junho de 2015, em bases anualizadas.

Os índices Barclays Short Treasury (Barclays ST), Barclays US Treasury 7-10 Yr (Barclays 7-10) e CRSP US Total Market (CRSP Total) medem, respectivamente, a rentabilidade de ativos de renda fixa de curto e médio prazo e de ações na bolsa americana. Os índices Barclays EM Brazil Fixed Rate (Barclays Brasil) e MSCI Brasil refletem o comportamento de ativos brasileiros de renda fixa e variável em dólar no mercado global e o CDI e o Ibovespa, a renda fixa e a bolsa no Brasil.

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Os números parecem sugerir duas conclusões. A primeira é que a incerteza na economia brasileira está tão grande que os juros acabam sendo muito altos. A segunda é que, tendo em vista o número de empresas listadas na bolsa local, nem todas as boas companhias têm capital aberto.

Manter em perspectiva a diferença entre risco e incerteza pode ajudar a selecionar gestores eficientes e a montar uma carteira rentável no longo prazo.

Tempo para definição dos objetivos

O momento é de cautela. Se os novos gestores da política econômica tiverem êxito, a inflação em 2015 irá cair, a cotação do dólar subirá para perto dos R$ 3 e o crescimento econômico será significativamente superior ao do ano passado.

No eventual cenário em que tudo dará certo, o investidor pode ganhar com as aplicações em títulos públicos de longo prazo, investimentos indexados à variação cambial e em ações de companhias com atuação nos setores com resposta mais rápida às variações do ciclo econômico.

Mas existe um problema. O consenso, hoje, é de que não existe um conjunto de medidas capaz de garantir, com segurança, o resultado mais favorável para o desempenho da economia. E algumas metas do governo podem se tornar conflitantes.

Arte Rumo

Apesar de toda a boa vontade com a nova equipe dos ministérios da Fazenda e do Planejamento, a readequação das políticas que levaram à queda das atividades produtivas e ao desequilíbrio das contas fiscais e externas é um processo que tende a demorar. E se as pressões políticas para resultados imediatos forem grandes, é possível que ocorram frequentes mudanças de rota.

Portanto, a contrapartida de potenciais ganhos a longo prazo com o eventual sucesso da nova política econômica é a perspectiva de muita oscilação na cotação diária dos ativos financeiros.

Para evitar esse desconforto, a melhor proteção para o sobe e desce dos mercados nos momentos de incertezas está nos títulos de renda fixa atrelados aos juros de curto prazo. Papéis privados indexados ao Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI) e títulos públicos vinculados à taxa Selic cumprem a função de garantir o valor das aplicações conforme as condições momentâneas.

Algumas modalidades, tais como as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) ou as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), possuem a vantagem adicional da isenção do imposto de renda (IR). Mas é preciso cautela.

Se empresas privadas ficarem inadimplentes, os papéis emitidos estarão sujeitos a reestruturações do fluxo de pagamentos. Ou até mesmo calotes. Conhecer e entender o significado das avaliações de risco de crédito e da nota atribuída ao emissor do papel pode ajudar a evitar eventuais prejuízos.

Cenário econômico recessivo é prejudicial para as atividades empresariais. Especialmente se o peso da dívida e dos pagamentos com os encargos de empréstimos forem grandes.

Os títulos públicos, pelo menos em teoria, não correm o risco de reescalonamentos. No entanto, é possível que os custos para a execução das transações, cobrados pelos intermediários financeiros, acabem diminuindo a rentabilidade total da operação. Encontrar instituições com despesas de corretagem atrativas é fundamental para aumentar a lucratividade.

Mas se a preocupação for preservar os investimentos em relação à inflação, as melhores opções são as aplicações indexadas ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Também nesse caso existem as alternativas com títulos privados ou públicos. E, novamente, é preciso cautela com a qualidade dos emissores.

Um cuidado adicional com os papéis indexados à inflação é adequar o prazo de vencimento com o objetivo da aplicação. Os títulos com previsão de resgate em período relativamente curto – de até quatro anos, por exemplo – tendem a oscilar menos e a oferecer maior proteção do que os de longo prazo.

Títulos com previsão de resgate acima de cinco anos apresentam grandes oscilações nos momentos de incerteza. E podem gerar prejuízos se forem vendidos no meio do caminho.

Uma opção que também não pode ser descartada é travar o atual ganho prefixado por determinado período. Principalmente considerando que as taxas de juros praticadas estão em patamar elevado.

A partir da análise das variações da taxa Selic que ocorreram no passado, parece ser uma aposta relativamente segura garantir ganhos de dois dígitos nas operações de renda fixa. Especialmente para o prazo de cerca de dois anos.

Na renda variável, ao que tudo indica, será mais comum nos depararmos com retornos extremos para ações de diferentes companhias. O processo de ajuste da economia brasileira, a queda dos preços das commodities e a normalização da política monetária americana são fatores que terão impactos diferentes sobre os negócios das empresas listadas na BM&FBovespa.

Para fazer as escolhas corretas, será fundamental avaliar os detalhes do desempenho operacional de cada companhia. Os relatórios de análise das corretoras podem ser uma excelente fonte de informação.

Alternativamente, uma solução é escolher fundos de investimento de gestores com comprovado histórico de acerto em suas decisões.

As possibilidades para 2015 são grandes. O fundamental para atingir sucesso nos investimentos é definir, antes de mais nada, objetivos estratégicos.

Para tanto, é importante combinar as necessidades individuais com o cenário macroeconômico, mantendo um determinado nível de precaução para o caso de as projeções se afastarem muito da rota que foi originalmente traçada.

Riscos e incertezas no segundo mandato

A reeleição da presidente Dilma praticamente eliminou as chances de mudanças mais drásticas na condução da política econômica. O cenário mais provável é de continuidade no modo de enfrentar os obstáculos que vêm resultando em inflação consistentemente acima do centro da meta. E que combinam, também, com o baixo crescimento econômico.

Ações mais ativistas e erráticas, tais como a insistência nos financiamentos com taxas subsidiadas patrocinados por bancos públicos, intervenções no mercado cambial e utilização da regulamentação para estimular ou frear o desenvolvimento de determinados setores, ao que tudo indica, continuarão sendo os principais instrumentos de gestão da economia.

Esse é o cenário com maior probabilidade de prevalecer. Mesmo que o novo ministro da Fazenda tenha bom trânsito entre profissionais do mercado financeiro e empresários. Não é, necessariamente, um ambiente ruim para os negócios. Há exemplos positivos e negativos da eficiência do intervencionismo governamental para estimular o crescimento.

No Brasil dos anos 70, a ação do Estado estimulou uma onda de investimentos que provocou o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) em ritmo acelerado. No fim da década de 80 e começo dos anos 90, todavia, o excesso de regulamentação, o descontrole das contas públicas e a situação caótica das finanças das empresas estatais foram os principais motivos para as sucessivas crises financeiras.

O cenário mais provável é que as medidas econômicas do segundo mandato não causem nem um aumento acelerado no ritmo de expansão da economia nem uma crise de grandes proporções, não no curto prazo.

A nova equipe irá assumir pressionada para mostrar resultados o mais rapidamente possível. Mas, jogando com as mesmas peças, será difícil mudar o jogo em curto espaço de tempo.

Mesmo na hipótese, pouco provável, de uma guinada mais liberal do governo, o ajuste da economia levará tempo. Uma política que envolvesse um ordenamento mais drástico das contas públicas e um amplo programa de atração do capital privado para financiar investimentos em infraestrutura demoraria certo período para produzir resultados.

É provável que uma série de experiências sejam feitas até que um novo rumo seja definido. Uma consequência concreta desse cenário, e que os investidores devem ficar preparados, é o aumento do risco dos ativos financeiros.

A tendência é que decisões políticas tenham impacto relevante sobre a rentabilidade das aplicações. Uma nova regulamentação do governo ou ações para conter uma crise na base aliada podem significar estímulos não previstos, que serão incorporados aos preços.

O principal desafio dos poupadores é administrar o efeito do aumento das incertezas sobre a carteira de investimentos. Uma possibilidade é o aumento da correlação do retorno entre as diversas modalidades de investimento. A alta ou a queda do dólar, das ações, dos juros e da inflação tendem a seguir trajetórias paralelas.

O ambiente dificulta a diversificação. A ideia tradicional de escolher aplicações que possam subir ou cair em diferentes situações, isoladamente, perde apelo. Quando a tendência é de todos os ativos seguirem na mesma direção, o mais prudente é elevar o grau de conservadorismo. A preferência por liquidez dos investimentos, redução do prazo das aplicações e indexação da carteira são atitudes defensivas e parecem perfeitamente justificáveis no atual momento.

O foco de curto prazo do governo é o controle das expectativas para a inflação. Essa foi a sinalização dada pelo BC ao aumentar em 0,25 ponto a taxa Selic na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) após a eleição.

Tendo em vista o discurso político da presidente Dilma sobre a independência do BC ao longo da campanha, é muito provável que o principal objetivo do governo hoje seja o de ancorar, novamente, as projeções para o aumento do IPCA. Desde 2011, a mediana das previsões para a inflação do ano, apurada pelo BC no começo de cada ano, fica acima do centro da meta de 4,5%. O gráfico abaixo ilustra a evolução dessas estimativas.

ProjecoesIPCA

Com as projeções para o IPCA sistematicamente em patamar relativamente elevado, as expectativas, em cada começo de ano, são de que o BC aumente os juros em algum momento. Isso acaba desestimulando os investimentos produtivos e aumentando o grau de conservadorismo dos empreendedores.

Essa situação justifica o baixo crescimento econômico nos anos recentes, mesmo com a taxa recorde de desemprego, todas as facilidades dos empréstimos subsidiados e demais estímulos.

Como a perspectiva daqui para frente é de reajuste nos preços administrados, incluindo combustíveis, energia elétrica e tarifas de transporte público, as projeções para a inflação tendem a continuar altas. A alternativa de postergar os reajustes parece fora de questão, tendo em vista os efeitos no déficit público e nas contas das empresas estatais.

Portanto, mantido o arcabouço do sistema de metas de inflação, a tendência é de novos aumentos da taxa Selic. Até que haja uma clara definição dos rumos da política econômica, o mais prudente é evitar os riscos.

Aposta de risco na vitória da oposição

Apostar na vitória da oposição para lucrar com a bolsa é uma estratégia arriscada. Desde 2006, existe uma marcante divisão da intenção de voto dos brasileiros de acordo com a faixa de renda do eleitor.

Segundo as pesquisas de opinião realizadas pelo Ibope, tanto em 2006 quanto em 2014 o candidato de oposição vence nos segmentos de renda mais alta, mas perde no grupo de menor poder aquisitivo. A popularidade do concorrente da terceira via não muda o quadro.

O gráfico abaixo compara as intenções de voto de quatro postulantes, em períodos diferentes, nas eleições de 2006 e 2014. Existe uma relação entre a renda familiar do eleitor (no eixo horizontal) e a popularidade do candidato (no eixo vertical).

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Tanto Alckmin em 2006 tanto Aécio em 2014 tinham mais votos do que Lula em 2006 e Dilma em 2014 entre os eleitores mais ricos. Na faixa de renda acima de cinco salários mínimos (SM), os oposicionistas possuíam 38%-41% de intenção de votos, contra 23%-29% dos governistas.

Quanto menor a renda do eleitor, maior a popularidade do candidato governista. No extremo oposto, entre os que ganham menos de um salário mínimo, Lula e Dilma marcavam 50%-53% das preferências, contra apenas 13%-17% de Alckmin e Aécio.

O levantamento de 2006 foi feito em setembro, na véspera do primeiro turno da eleição. Os números de 2014 são de agosto, antes do início da propaganda eleitoral gratuita.

A última pesquisa do Ibope aponta que 12% dos entrevistados possuem renda familiar acima de cinco salários mínimos, 35% entre dois até cinco, 33% entre um até dois e 14% ganham até um salário mínimo. Cerca de 6% não responderam.

Parece mais prudente apostar na alta da bolsa em razão dos fundamentos das empresas do que pela possibilidade de vitória da oposição.

Um mau conselho de investimento

O jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, se indignou com a análise do Banco Santander, distribuída para os clientes de alta renda da instituição, relacionando a alta da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto com a queda na cotação das ações negociadas em bolsa.

Mas, em vez de simplesmente buscar outras fontes para conseguir recomendações mais embasadas para seus investimentos, sugeriu, na sua coluna no jornal, que o governo impusesse normas mais rígidas ao mercado financeiro.

Talvez o sentimento de decepção do jornalista justifique o clamor pela intervenção estatal. É sempre desapontador constatar que o aconselhamento oferecido pelas instituições financeiras que temos conta pode não estar alinhado com os interesses dos clientes.

No entanto, neste caso, mais normas não resolvem o problema. O mais eficaz é que o aplicador avalie criticamente as propostas dos especialistas. E, sempre que possível, busque outras opiniões.

O histórico de recomendações de investimento ruins em períodos eleitorais é grande. O recorde negativo, talvez, seja a indicação para investir no exterior nas vésperas das eleições de 2002, que elegeu o presidente Lula.

Um movimento especulativo levou o dólar ultrapassar a barreira de R$ 3,50. Depois disso, a cotação nunca mais se recuperou, conforme indica o gráfico.

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Assim como o sobe e desce das cotações, a opinião das instituições financeiras muda. Recentemente, o Brasil deixou o grupo dos países chamados de “os cinco frágeis” para entrar no time do “quarteto fantástico”.

Isso faz parte do jogo e nenhum investidor deve ficar surpreso com esse comportamento. O importante é ter uma estratégia de investimento para aproveitar as oscilações de curto prazo. Muitas vezes podem surgir oportunidades rentáveis.

Agora, justiça seja feita. Análises e recomendações ruins não são exclusividade das instituições financeiras. Analistas e empresas independentes também podem exagerar na emoção e cometer erros.