A procura pelas estratégias mais lucrativas para 2019

Com expectativa de taxa Selic estável ou alta de no máximo meio ponto percentual, possibilidade concreta de recuperação da atividade econômica e o governo com uma agenda de reformas pró-mercado, 2019 tende a ser um ano de busca por maiores retornos no mercado financeiro brasileiro.

O cenário estimula a aplicação em diversos tipos de investimentos alternativos. Especialmente aqueles relacionados a ativos com maior oscilação de preços, tais como ações de companhias abertas, contratos nos mercados futuros de moedas, commodities ou índices financeiros e operações mais sofisticadas envolvendo opções, swaps e demais derivativos.

Dada a característica de volatilidade do retorno desses ativos, é importante manter uma disciplina para entrar e sair das posições. No jargão de mercado, a atividade é conhecida como “trading”.

A tendência é que investidores profissionais e amadores desenvolvam estratégias originais para surfar o momento. A consequência é uma corrida para estabelecer os métodos mais eficazes de identificação dos pontos de compra e venda, arbitragem entre ativos e descoberta de “pérolas” entre os papéis menos líquidos.

Nesse ambiente, o desafio é não ser tão arrojado para tomar posições que possam gerar perdas muito grandes, nem tão conservador para deixar passar as boas oportunidades.

Segundo Alex Preda, pesquisador do King’s College em Londres e que esteve no Brasil em novembro do ano passado participando da conferência Ciências Comportamentais e Educação do Investidor, organizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o trading é uma atividade social.

Mais do que apenas ganhar dinheiro, tanto os profissionais do mercado quanto os “traders” amadores compram e vendem ativos para testar suas teses e convicções. E com o desenvolvimento da tecnologia aplicada ao mercado financeiro, a atividade ficou acessível para praticamente qualquer pessoa.

O interessado encontra feiras, seminários, cursos, “newsletters” e grupos de estudo para ensinar e incentivar a negociação de diversos ativos financeiros. Basta pesquisar na internet e encontrar a alternativa mais adequada.

Os economistas chamam o trading de jogo de soma zero. Isso porque o sucesso de uma posição depende do fracasso de outra realizada por uma contraparte.

Para entender, imagine uma situação na qual você compra uma ação ao preço de R$ 100 e vende logo em seguida por R$ 110, apurando um ganho de R$ 10. Esse lucro só foi conseguido às custas do prejuízo de alguém que vendeu a ação por R$ 100 e recomprou por R$ 110.

Com base nesse conceito os economistas avançam na argumentação racional: se você fizer transações de compra e venda repetidas vezes, de forma mecânica, em alguns casos terá lucro e em outros prejuízos. Estatisticamente, se as chances de ganhar ou perder forem ambas de 50%, no fim de um determinado período estará no zero a zero.

Mas os “traders” mais bem sucedidos conseguem desenvolver métodos de negociação que aumentam suas chances de ganho. Pelo menos agem com a confiança de que a estratégia pode dar certo por determinado período de tempo.

Caso não fosse assim, o volume de negociação no mercado secundário seria muito menor do que efetivamente acontece e as compras e vendas estriam restritas às pontas interessadas em adquirir ou se desfazer dos ativos. Um turista que voltou de viagem e outro que ainda vai viajar no mercado de câmbio, por exemplo.

Apesar de o sucesso de uma posição depender do fracasso de outra, existe muita colaboração entre os “traders”, especialmente os amadores. Diversos grupos são criados para discutir o comportamento do mercado e refinar as melhores estratégias.

Muitas vezes o acesso a esses grupos é facilitado por corretoras, distribuidoras e demais participantes do mercado financeiro.

Dependendo da quantidade de horas que o investidor decida alocar à atividade de negociação de ativos, as tarefas dentro de um grupo podem se tornar complexas. Em alguns casos, o trabalho é dividido de forma semelhante ao que é feito nos grandes bancos de investimento.

De toda forma, é importante o investidor ter em mente que qualquer estratégia de negociação demanda algum tempo para ser adaptada e se tornar lucrativa. Portanto, é natural que existam momentos de perdas e é preciso estar financeiramente preparado para encarar os revezes.

O ambiente atual do mercado no Brasil é desafiador para quem quiser assumir mais riscos.

Disputa pela medalha de aplicação mais rentável do ano

Uma competição acirrada vem sendo travada pelo posto de investimento mais rentável do ano no mercado brasileiro.

Tanto as ações negociadas em bolsa quanto os títulos emitidos pelo Tesouro Nacional indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com vencimento no longo prazo acumulam ganhos expressivos até julho de 2016. Por enquanto a vantagem é da bolsa, mas a situação pode mudar.

O gráfico abaixo compara o rendimento acumulado do Ibovespa e do indicador IMAB5+. O Ibovespa reflete o comportamento das ações mais negociadas na BM&FBovespa.

Já o IMAB5+ mede o desempenho de uma carteira composta por Notas do Tesouro Nacional da série B (NTNB) com data de vencimento maior que cinco anos. No Tesouro Direto, o sistema de negociação de títulos públicos via internet administrado pelo Tesouro Nacional, os papéis são chamados de Tesouro IPCA+.

Medalha

Depois de acumular queda de mais de 6% em janeiro, o Ibovespa mostrou recuperação expressiva. Nos meses seguintes, com a exceção de maio, o indicador teve ganhos sempre superiores a 5%. Até o dia 20 de julho o rendimento acumulado marca 30,51%.

Maio também foi ruim para o IMAB5+, que teve variação negativa. Entretanto, nos demais meses a rentabilidade foi sempre positiva. No total, o ganho acumulado no ano está em 24,07%.

Para efeitos de comparação, a variação do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI), o principal parâmetro de referência para a rentabilidade das operações de renda fixa, ficou em pouco mais de 1% ao mês no mesmo período. O ganho acumulado no ano é de 6,7%.

O gráfico mostra, ainda, que o rendimento do IMAB5+ tem oscilado menos do que a rentabilidade do Ibovespa.

Para o futuro, dois fatores apontam para o aumento dos lucros das companhias brasileiras e a consequente valorização adicional das ações negociadas no Ibovespa.

Sob a perspectiva externa, a recuperação recente do preço das commodities sinaliza maior dinamismo da economia mundial. Esse fato é positivo para as empresas operando no Brasil devido à possibilidade de aumento das transações internacionais.

Pelo lado interno, existe a percepção de que a crise brasileira caminhe para uma solução. Isso eventualmente melhoraria o ambiente de negócios no país.

O ganho das NTNBs, por sua vez, decorre da expectativa de redução da atual diferença entre as taxas de juros e inflação. O raciocínio é que a severa recessão dos últimos dois anos combinada com o esforço para reequilibrar as contas públicas levará, forçadamente, a um ajuste na economia brasileira.

Atualmente, o ambiente mundial é de juros baixos e inflação controlada. Com um mínimo de organização interna seria possível criar as condições para uma redução significativa da diferença entre a taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano, e a variação do IPCA, que foi de 8,84% nos últimos 12 meses.

Em termos de fundamentos para a avaliação do preço dos ativos, as ações das companhias, de uma forma geral, são cotadas com base em um multiplicador sobre o lucro ou as receitas. Quanto menor a taxa de juros, maior o multiplicador. E quanto maior o lucro ou a receita, maior o preço da ação.

Consequentemente, um cenário de aumento dos lucros e redução dos juros é positivo para o investimento em ações.

Já a cotação dos títulos de renda fixa de longo prazo reflete o desconto a valor presente do fluxo futuro dos pagamentos previstos. Existe, então, uma relação inversa entre os juros de mercado e o valor do título.

Para exemplificar, considere a NTNB com vencimento em 2050 e pagamento semestral de juros de 6% ao ano sobre o valor nominal, conforme estabelecido pelo Tesouro Nacional. Quando o título é cotado a 6% ao ano, o valor de mercado é igual ao valor nominal. Mas se o rendimento de mercado cai para 5,9% ao ano, o valor de mercado do papel aumenta em 1,4%.

Significa que para cada 0,1 ponto percentual de queda do rendimento do título, o valor de mercado aumenta 1,4 ponto percentual. Essa alavancagem torna a aposta nos títulos de longo prazo altamente volátil, porque pequenas mudanças no rendimento multiplicam o valor de mercado do papel.

Em contrapartida, essa característica aproxima o comportamento dos títulos de renda fixa de longo prazo à trajetória do rendimento das ações. E justifica a comparação direta das duas modalidades de investimento.

Objetivamente, a aposta na NTNB leva vantagem em um cenário mais simples, de queda dos juros reais (acima da inflação). Para que a bolsa continue subindo, é preciso ainda que as perspectivas de lucros das empresas aumentem.

Quatro fundos para investir, se a situação melhorar

Hoje, é impossível prever o que pode acontecer com o governo Dilma. A falta de coordenação política, ambiente econômico recessivo e propostas erráticas para criação de novos impostos estão minando a confiança sobre a capacidade dos dirigentes de adotar medidas para equilibrar as contas públicas.

Apesar de tudo, o Banco Central tem se mostrado determinado na tarefa de reduzir a inflação. Se a política da autoridade monetária tiver sucesso, os juros irão cair e surgirão oportunidades de ganhos com taxas prefixadas.

Antes de definir o momento certo para apostar nos juros prefixados, é fundamental conhecer os instrumentos financeiros mais indicados.

No segmento de fundos de investimentos, Caixa, Santander, BB e Itaú possuem carteiras com montante de investimento inicial acessível e que tendem a ganhar com a queda dos juros. O histórico de rentabilidade mostra fundos com estratégias atreladas à variação do Índice de Renda Fixa do Mercado (IRFM), indicador que acompanha a evolução das taxas prefixadas.

Uma primeira opção é o Caixa FIC Absoluto Pré RF Longo Prazo. O fundo tem aplicação mínima inicial de R$ 1 mil, é destinado a pessoas físicas ou jurídicas e a taxa de administração é de 1,1% ao ano.

A Lâmina de Informações Essenciais (LIE) afirma que o objetivo da carteira é acompanhar a variação do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI). No entanto, o desempenho nos últimos cinco anos tem sido diferente do parâmetro de referência informado.

O material promocional do fundo parece esclarecer a confusão. A estratégia de aplicar, no mínimo, 51% do patrimônio líquido em ativos financeiros ou modalidades operacionais que resultem em taxas prefixadas explica a maior correlação da carteira com o IRFM.

Apesar da divergência de informações deixar o aplicador desconfortável, o risco do investimento parece aceitável.

O Santander possui um fundo com características semelhantes ao da Caixa. A LIE do Santander Pré Renda Fixa Longo Prazo informa que o valor mínimo de aplicação é de R$ 20 mil, a taxa de administração é de 1% ao ano e pessoas físicas ou jurídicas podem investir.

Assim como o fundo da Caixa, o desempenho da a carteira é comparada com o CDI na lâmina, apesar de ser mais correlacionado com a variação do IRFM.

Um ponto negativo é a possibilidade de cobrança da taxa de performance de 20% sobre o que exceder a variação do CDI. Talvez o parâmetro mais justo, neste caso, fosse a variação do IRFM.

Para os clientes do segmento Estilo do BB, está disponível o BB Renda Fixa Pré LP Estilo. A aplicação inicial é de R$ 20 mil, mas o BB adota um critério chamado de “visão integrada”. Se o cliente tiver esse montante em outros produtos, a aplicação no fundo é liberada.

A LIE do fundo diz que a taxa de administração pode variar de 0,80% ao ano a 1,30% ao ano sem, no entanto, esclarecer os motivos. Outro ponto que merece atenção é a divergência sobre o valor mínimo da aplicação, que na lâmina é de R$ 50 mil e sem menção à “visão integrada”.

Ainda, segundo a LIE, o fundo não cobra taxa de performance e o rendimento histórico nos últimos cinco anos tem ficado por volta de 90% do IRFM.

A quarta opção é para os clientes do segmento Personnalité do Itaú. Segundo a LIE do fundo Itaú Personnalité Renda Fixa Pré Longo Prazo, a aplicação mínima é de R$ 100 mil, a taxa de administração é de 1% ao ano e não há cobrança de taxa de performance.

Em termos comparativos, de acordo com os dados da Morningstar, a rentabilidade anualizada nos últimos três anos foi de 6,62% para o BB Pré Estilo, 6,61% para o Itaú Personnalité Pré, 6,47% para o Santander Pré e 5,24% para o Caixa Absoluto.

Maior dinamismo para os investidores

O funcionamento dos fundos de investimentos e o exercício profissional de administração de carteiras são atividades regulamentadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A partir de 1º de outubro deste ano, as normas serão atualizadas.

As principais novidades incluem a reformulação da nomenclatura dos fundos, a flexibilização das modalidades de operações permitidas nas carteiras e a necessidade de maior transparência aos investidores. A consequência das regras elencadas nas instruções 554, 555 e 558 será o aumento da responsabilidade dos cotistas e gestores.

Houve a simplificação da classificação dos fundos, que serão divididos em apenas quatro categorias: renda fixa, ações, cambiais e multimercado. Em contrapartida, para marcar a diferenciação entre as estratégias de investimento de cada carteira, a CVM criou o conceito de “sufixos”.

Assim, o tradicional fundo de renda fixa que tem por objetivo perseguir a variação diária das taxas do certificado de depósito interfinanceiro (CDI), conhecido popularmente como fundo DI, mudará de nome. Será chamado, oficialmente, de fundo de renda fixa referenciado CDI.

Mas se o prazo máximo a decorrer dos títulos da carteira for de até 375 dias e a média do vencimento de todos os papéis, de apenas 60 dias, o fundo terá que adotar o sufixo curto prazo, sem usar a nomenclatura referenciado. Isso mesmo se o principal fator de risco da carteira for o CDI, por exemplo.

Se o fundo de renda fixa aplicar pelo menos 80% do patrimônio em títulos da dívida externa da União, terá que adotar o sufixo Dívida Externa. Essa classe é semelhante aos antigos fundos de investimento no exterior (Fiex) e pode se tornar uma interessante alternativa.

Existe, ainda, a possibilidade de usar, como sufixo, a expressão “simples”. Para tanto, o principal fator de risco deve ser a taxa Selic. Adicionalmente, pelo menos 95% do patrimônio tem que estar aplicado em títulos públicos ou papéis de instituições financeiras de primeira linha.

Caso exista a possibilidade de concentrar mais de 50% do patrimônio em emissores que não a União e o objetivo seja o de buscar um tratamento fiscal mais favorável, é obrigatório acrescentar mais dois sufixos. O nome incluirá as expressões crédito privado e longo prazo.

O fundo de renda fixa pode não usar sufixos, mas a política de investimento deve estabelecer que pelo menos 80% da carteira esteja atrelada a um fator de risco determinado. Tudo deve ser esclarecido em, pelo menos, três demonstrativos obrigatórios, descritos no quadro abaixo.

ArteDeOlho

Entre os fundos de ações, aqueles que compram “Brazilian Depositary Receipts” (BDR) nível 1 ou papéis de empresas listadas no mercado de acesso devem usar sufixos indicativos da estratégia. Os demais, assim como as carteiras classificadas como cambiais e multimercado, estão dispensados de sufixos específicos.

Em todas as discussões sobre a regulamentação de fundos de investimento, dois pontos sempre causam polêmicas: a possibilidade de cobrança de taxa de performance e a permissão para aplicação em ativos fora do país. A CVM permitiu ambos, desde que claramente informados.

O conceito da taxa de performance é alinhar a remuneração do gestor com o ganho do investidor. No entanto, esse arranjo pode gerar conflitos de interesse e ocasionar riscos para o aplicador.

John C. Hull, especialista em mercados derivativos, aborda essa questão no capítulo sobre fundos de investimento do livro “Risk Management and Financial Institutions”. O autor mostra que, em determinadas situações, a decisão racional do gestor é fazer apostas arriscadas com os recursos dos cotistas.

Na pior das hipóteses, se as posições derem prejuízo, os investidores assumem integralmente as perdas. Em caso de ganho, o gestor, por meio da taxa de performance, participa de parte dos lucros.

Para minimizar os conflitos, a CVM exige que alguns parâmetros sejam seguidos. O ganho adicional deve ser medido em relação a um índice de referência compatível com a política de investimento do fundo, o intervalo de cobrança deve ser de pelo menos seis meses e somente no caso de o fundo recuperar totalmente eventuais perdas ocorridas no passado.

As aplicações no mercado internacional podem ser feitas desde que o fundo adote o sufixo investimento no exterior. Como padrão, o limite dos ativos estrangeiros é de 20% do patrimônio.

Caso os investidores da carteira sejam considerados qualificados, de acordo com o padrão estabelecido pela CVM, o limite é de 40%. Pode chegar a 100% se a política de investimento do fundo for suficientemente explícita ou o se investidor tiver o selo de profissional.

No geral, as novas regras dos fundos de investimento garantem um maior dinamismo para os aplicadores e aumentam o compromisso com a divulgação e análise de informações precisas.

Risco e incerteza nos investimentos

O comitê de política monetária (Copom) inicia hoje a reunião para avaliar as perspectivas da economia brasileira e estabelecer, amanhã, a meta da taxa Selic que irá vigorar até setembro.

Nesses dias, os analistas do mercado ficam focados em prever o resultado do encontro, projetar a reação da bolsa e estimar o comportamento do dólar. A decisão do Banco Central tem o potencial de provocar uma série de ajustes no preço dos ativos financeiros.

Também no ambiente internacional os especialistas se esforçam para antecipar os movimentos. As discussões hoje têm envolvido o possível impacto do aumento da taxa de juros pelo Fed, o banco central americano, o potencial de recuperação dos países da zona do Euro e as consequências da eventual desaceleração da economia chinesa.

Mas, apesar de todas as ligações entre os diversos indicadores econômicos e o desempenho das aplicações financeiras serem minuciosamente analisadas, as projeções sobre os rendimentos são sistematicamente frustradas. Isso porque há uma incerteza inerente aos investimentos.

No início do século passado, o economista Frank Knight, que fez carreira na Universidade de Chicago, concluiu que a incerteza é parte integrante das atividades empresariais. Segundo a teoria, existe uma diferença entre risco e incerteza.

O risco é algo que pode ser medido em termos de probabilidades associadas para cada conjunto de resultados esperados. A incerteza está relacionada com as situações que empresários e executivos precisam administrar no dia a dia dos negócios.

Considere a indústria fonográfica nos anos 90. Para uma gravadora, o risco na época era que um determinado número de pessoas fizesse cópias piratas de CDs de tal forma a reduzir o volume total das vendas. Tratava-se de uma variável possível de ser estimada.

A incerteza do negócio ficou evidenciada quando novas tecnologias mudaram a forma de ouvir, compartilhar e distribuir música. Isso pegou de surpresa muitas empresas e acabou revolucionando a indústria.

Apesar de acontecer com certa frequência, o aparecimento de uma tecnologia revolucionária que liquida de uma vez com uma indústria é um caso relativamente raro. A maioria dos empresários e executivos precisa lidar com incertezas mais mundanas.

Na prática, para superar as adversidades, há um componente associado ao julgamento e à intuição que acaba exercendo papel decisivo para o sucesso dos negócios. Inegavelmente, bons gestores e alguma dose de sorte fazem diferença.

Portanto, por esse aspecto, a justificativa do lucro de uma companhia pode ser associada à melhor capacidade dos gestores em enfrentar as incertezas. Em termos genéricos, é possível concluir que, para manter os ganhos acima da média, é necessário tomar uma série de decisões arriscadas.

Do ponto de vista dos investimentos pessoais, a distinção entre risco e incerteza, conforme a teoria de Knight, traz algumas considerações relevantes. A consequência mais imediata é a justificativa para investir em ações de companhias negociadas em bolsa.

A oscilação diária do preço dos papéis é reflexo da imprevisibilidade do fluxo de caixa esperado da empresa. Mas se o lucro decorre das incertezas, a volatilidade, representada pelo sobe e desce dos preços, não é razão para afugentar o investidor.

Para compreender, imagine as ações como pequenas frações de grandes negócios promissores. O fato de outros investidores mudarem de opinião com frequência, aumentando ou reduzindo o valor da companhia, não é motivo para fazer você mudar a sua carteira.

A liquidez dos papéis nas bolsas pode ser vista como uma opção para você aumentar ou diminuir a sua participação na companhia, segundo sua conveniência. Essa é a filosofia de investimento de Warren Buffett, o investidor mais bem sucedido do mundo.

Em termos pragmáticos, se o investimento em ações está associado ao lucro obtido pelas companhias, o rendimento de uma carteira de renda variável tende a ser maior do que as aplicações em renda fixa. E a oscilação de curto prazo da cotação dos papéis acaba não tendo impacto sobre a rentabilidade no longo prazo.

Nos EUA, os números comprovam essa visão. Já no Brasil não ocorre o mesmo. O gráfico abaixo compara o retorno de alguns índices de referência para o período de dez anos compreendido entre 1º de julho de 2005 e 30 de junho de 2015, em bases anualizadas.

Os índices Barclays Short Treasury (Barclays ST), Barclays US Treasury 7-10 Yr (Barclays 7-10) e CRSP US Total Market (CRSP Total) medem, respectivamente, a rentabilidade de ativos de renda fixa de curto e médio prazo e de ações na bolsa americana. Os índices Barclays EM Brazil Fixed Rate (Barclays Brasil) e MSCI Brasil refletem o comportamento de ativos brasileiros de renda fixa e variável em dólar no mercado global e o CDI e o Ibovespa, a renda fixa e a bolsa no Brasil.

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Os números parecem sugerir duas conclusões. A primeira é que a incerteza na economia brasileira está tão grande que os juros acabam sendo muito altos. A segunda é que, tendo em vista o número de empresas listadas na bolsa local, nem todas as boas companhias têm capital aberto.

Manter em perspectiva a diferença entre risco e incerteza pode ajudar a selecionar gestores eficientes e a montar uma carteira rentável no longo prazo.

A volatilidade na reeleição de Dilma

Juros dos títulos de longo prazo em queda, crescimento econômico baixo, inflação próxima ao teto da meta e oportunidades de ganhos decorrentes das diferenças entre os rendimentos das aplicações financeiras em reais e nas moedas internacionais. O cenário atual da economia brasileira para as aplicações financeiras não é radiante, mas está longe de ser sombrio.

Os indicadores, porém, mostram que o risco é alto. A diferença entre a volatilidade do Ibovespa, que acompanha a cotação das principais companhias do país, e a do S&P 500, que mede o retorno das maiores empresas americanas, está perto da máxima atingida nos últimos quatro anos.

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Quanto maior a variação diária da cotação dos ativos, mais incerta é a expectativa da rentabilidade do investimento no fim de determinado período. A previsão do rendimento de uma aplicação atrelada à taxa Selic com prazo de um ano, por exemplo, pode ser feita com muito mais segurança do que a de um fundo de ações que acompanhe o Ibovespa.

A oscilação das cotações implica aumento da taxa de desconto sobre o fluxo financeiro esperado do investimento. A razão é que para garantir um retorno mínimo num ambiente de incertezas, os investidores demandam preços mais baixos do que aqueles que seriam praticados caso o cenário fosse mais previsível.

Nos negócios com títulos de renda fixa esse mecanismo é mais evidente. Quando a inflação está alta e há dúvidas sobre a intenção do Banco Central (BC) a respeito do tamanho do aumento que será promovido na taxa Selic, o preço dos títulos de longo prazo cai.

Foi o que aconteceu em 2013 e trouxe como consequência prejuízos para os detentores de papéis do Tesouro. O interesse pelas aplicações diminuiu até que a atuação do BC ficasse mais clara.

Agora a sinalização é de que o juro permanecerá constante por um período razoavelmente longo. A demanda por títulos públicos voltou a subir e houve aumento dos preços.

O valor de mercado da Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em janeiro de 2017, por exemplo, subiu 7,6% entre a cotação mínima, em 4 de fevereiro, e o preço de fechamento em 6 de junho deste ano. Os demais papéis tiveram recuperação semelhante.

Outra consequência do aumento da volatilidade é a busca por ganhos de curto prazo. Essa tendência é mais comum no mercado de ações.

Hoje, o maior fator de volatilidade do Ibovespa é a tentativa de estabelecer o preço para a possibilidade de reeleição da presidente Dilma. Em um mundo em que tudo parece estar à venda, como assinala Michael Sandel no livro “O que o dinheiro não compra”, é uma experiência compreensível, ainda que de resultado duvidoso.

A obra do filósofo americano é repleta de exemplos de como a lógica do mercado invadiu as relações sociais nas últimas décadas. Sandel esteve recentemente no Brasil para o ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento.

O caso mais provocador e que proporciona discussões acaloradas é a possibilidade de companhias fazerem seguro de vida para funcionários e elas serem as beneficiárias da apólice, no caso de morte do empregado.

A justificativa econômica do acordo é compensar as empresas pelos altos custos de treinamento e reposição da vaga deixada pelo falecido.

O mercado da morte é grande e possui derivados. Existem investidores especializados em antecipar o valor da apólice aos interessados em receber o seguro em vida. Dependendo do desconto negociado e do tempo até o falecimento, o resultado financeiro pode ser alto.

Diversos gestores de recursos, administradores de fundos de “private equity” e tesouraria dos grandes bancos de investimento são capazes de montar operações estruturadas para atender a demanda do mercado secundário para seguros de vida. E dar mais liquidez e transparência para o cálculo do valor presente das apólices, para quem queira negociá-las.

Nesse ambiente, a aposta na queda da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto parece ser uma estratégia financeira como outra qualquer. Os especialistas procuram identificar a relação entre os números divulgados pelos institutos de pesquisa e a variação da bolsa.

Um ponto negativo dessa modalidade de investimento é que ela ainda não está suficientemente desenvolvida. Nenhuma seguradora conseguiu estipular o valor da apólice em caso de derrota do atual governo.

A expectativa é que os presidenciáveis da oposição sejam capazes de implantar uma política econômica que combine crescimento elevado com inflação baixa. Isso aumentaria a confiança dos consumidores e o lucro das empresas.

Um ponto obscuro é que, talvez, a própria presidente Dilma, num eventual segundo mandato, consiga entregar o resultado esperado pelo mercado para os candidatos da oposição. Nesse caso, a aposta na reeleição poderia significar ganhos para as ações e perdas para as posições vendidas.

O mais provável é que as apostas na valorização das ações sejam independentes do resultado das eleições. Se o próximo governo conseguir criar uma nova onda de otimismo, as cotações podem se recuperar.

Para o investidor que pretende atravessar o período eleitoral evitando a especulação, resta a alternativa mais tradicional: apostar na segurança da renda fixa e escolher uma carteira de ações de companhias com boas perspectivas de crescimento.

O rali da renda fixa em 2014

O indicador que mede o retorno dos títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional negociados no mercado secundário (IMA) acumula alta de 5,23% em 2014, até dia 16 de maio. No mesmo período, a variação do CDI foi de 3,70% e o Ibovespa subiu 4,79%.

A ótima rentabilidade neste ano contrasta com o péssimo retorno no ano passado. O desempenho em 2013 foi tão ruim que, pela primeira vez desde que começou a ser calculado, o IMA teve variação negativa em um período de janeiro a dezembro.

Os investidores que apostaram nos papéis do governo no ano passado amargaram prejuízos. Em alguns casos, conforme o prazo da aplicação, as perdas foram elevadas.

Um exemplo foram as NTN-Bs, corrigidas pelo IPCA. Mesmo com alta da inflação, os títulos tiveram desempenho sofrível. Os papéis com vencimento em 2035 com distribuição de rendimentos semestrais tiveram variação negativa de 19% de janeiro a dezembro de 2013. Os títulos de mesmo prazo, mas com pagamento de principal e juros apenas no resgate, negociados exclusivamente no Tesouro Direto, tiveram perdas ainda maiores: -32% no período.

Uma das consequências mais visíveis da queda de preço dos papéis foi a queda do retorno dos fundos de previdência. O que ocasionou a diminuição do fluxo de recursos para a modalidade.

A poupança foi a grande beneficiada em 2013. A captação recorde foi turbinada pelo desconforto de investidores com fundos de previdência, afetados indiretamente pelo menor retorno dos títulos públicos.

2014 promete ser diferente. E a rentabilidade dos ativos já começa a impactar o fluxo de aplicação e resgate das diferentes modalidades. Os fundos de previdência voltaram a captar de forma mais significativa e a poupança registrou o primeiro mês com resgates desde 2012.

O pano de fundo para a volta do otimismo com a renda fixa é a perspectiva de estabilidade da Selic. Depois das sucessivas altas dos juros, iniciadas na reunião do Copom de abril de 2013, tudo indica que o Banco Central (BC) deve interromper o ciclo de aumento da taxa básica.

A justificativa econômica é o fraco ritmo de expansão dos negócios. A inflação, apesar de continuar em nível elevado, não parece mostrar tendência de alta. A Copa do Mundo e a eleição também devem contribuir para moderar o ativismo do BC. A atual administração tem se destacado pela frequência com que promove alterações na taxa Selic. São raras as reuniões do Copom que decidem pela manutenção dos juros.

Além do encontro na semana que vem, a próxima reunião do Copom está marcada nos dias 15 e 16 de julho, logo após a final da Copa. As reuniões seguintes estão previstas para os dias 2 e 3 de setembro e 28 e 29 de outubro. O primeiro turno da eleição está marcado para 5 de outubro. Se necessário, o segundo turno ocorre dia 26 de outubro.

Dado o calendário esportivo e eleitoral, é pouco provável que o BC altere os juros nos encontros de julho, setembro e outubro. O cenário que se desenha é de Selic estável, economia desaquecida e inflação controlada.

A taxa dos papéis de renda fixa sofre influência dos juros de curto prazo e das expectativas. E o preço dos títulos, que determina a rentabilidade total, caminha na direção oposta.

Renda Fixa

Em dezembro de 2012, havia um otimismo generalizado e a projeção era de queda dos juros no longo prazo. A Selic estava em 7,25% ao ano, recorde de baixa. A NTN-B 2024 pagava rendimentos equivalentes a inflação mais 3,48% ao ano.

Os prefixados também apontavam para remunerações relativamente modestas para os padrões históricos do Brasil. Por exemplo, a Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em 2016 era negociada com taxa de 8,25% ao ano. E o papel mais longo, a Nota Financeira do Tesouro da série F (NTN-F), com prazo de resgate em 2023, tinha remuneração de 9,18% ao ano.

Em dezembro de 2013 houve uma reviravolta em relação ao projetado um ano antes. Isso ocasionou a elevação generalizada dos juros. A NTN-B de 2024 passou a ser negociada com juros de 6,35% ao ano acima da inflação. A taxa da LTN 2016 subiu para 11,76% e a NTN-F 2023, para 12,26% ao ano. A Selic terminou 2013 em 10% ao ano.

Na época, a sensação de perda dos aplicadores contribuiu para o pessimismo generalizado, o que motivou a redução da demanda por novas emissões. Com menos procura pelos papéis do Tesouro, a solução foi o BC ampliar o escopo de atuação.

O volume de operações compromissadas realizadas pela autoridade monetária saltou de 17% do total da dívida pública em 2011 para 25% em 2013. Ainda hoje a relação continua nesse patamar.

Já a taxa de remuneração dos títulos públicos recuou em relação ao que era praticado em dezembro de 2013, com exceção da LTN 2016. No dia 16 de maio, o rendimento da NTN-B 2024 era de 6,25% e o da NTN-F 2023, de 12,26% ao ano.

Se, de fato, o BC interromper a alta da Selic e houver aumento da confiança em relação aos rumos da política econômica, as taxas dos títulos públicos podem recuar ainda mais. O momento parece propício para aplicações de renda fixa. Contudo, é importante que o investidor identifique a tolerância a perdas de capital, para evitar ser obrigado a vender as posições em períodos desfavoráveis.