Assessoria financeira sofisticada é para poucos

O boletim Anbima sobre o mercado de “private banking” fornece algumas pistas para explicar a dificuldade que enfrentam muitos clientes de alta renda para conseguir bons conselhos de investimento.

O levantamento mostra que são 858 “bankers” (especialistas) e 1.168 assistentes e outros profissionais menos qualificados para atender o total de 55 mil contas. Considerando que a divisão do trabalho é feita de forma balanceada, a conclusão é que 60% dos clientes tem pouco contato com os melhores quadros das instituições financeiras.

Assumindo que cada profissional atende cerca de 27 contas, os 858 “bankers” assessoram regularmente o total de 23 mil clientes. Os demais 32 mil aplicadores mantém relacionamento com os assistentes.

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O detalhamento dos números da Anbima mostra uma situação ainda mais desconfortável para os investidores que buscam soluções mais sofisticadas para as aplicações. Somente metade dos “bankers” possui a certificação CFP, uma espécie de selo de qualidade para os especialistas da área.

Portanto, o fato de ser cliente do “private banking” não é garantia de que o atendimento oferecido ficará acima da média. Pragmaticamente, a solução é confrontar, sempre que possível, as opiniões e recomendações recebidas com outros profissionais e especialistas.

Um resumo das principais tendências para as aplicações financeiras dos clientes de alta renda, com comentários de profissionais de ponta, pode ser encontrado na reportagem As letras da fortuna, de Luciana Seabra, do Valor.

A dificuldade para estabelecer cenários

A coluna da jornalista Claudia Safatle, do Valor, descreve a estratégia eleitoral da presidente Dilma. Em resumo, o objetivo da campanha é focar nas generalidades.

A ideia é carimbar de neoliberais as propostas de Aécio e taxar de preservacionistas as políticas de Marina. É uma postura que pode até ser eficiente para ganhar as eleições, mas deixa os investidores no escuro.

A economia brasileira dá sinais de que perdeu o dinamismo. O crescimento está zerado e a inflação é uma ameaça recorrente, devido à necessidade de reajuste dos preços de bens e serviços administrados pelo governo.

A consistência dos estímulos fiscais são invariavelmente questionados em função da falta de transparência das contas públicas. A contabilidade criativa impede a análise mais precisa dos efeitos das desonerações de tributos e empréstimos subsidiados.

O aumento do consumo das famílias devido à elevação da renda e do maior acesso ao crédito parece ter atingido um limite. E as medidas que poderiam aumentar a produtividade, visando manter a trajetória de crescimento dos salários, ficam distantes de qualquer debate.

O ponto positivo da atual política econômica é que a redução do crescimento pode implicar queda da inflação e, consequentemente, dos juros. Nesse ambiente, os títulos prefixados podem proporcionar bons ganhos.

Se o governo sinalizasse que decidiu enfrentar as consequências do reajuste dos preços administrados e assumisse o compromisso divulgar as contas públicas sem grandes malabarismos contábeis, o ganho de credibilidade seria alto. Haveria um otimismo que poderia impactar positivamente o preço dos ativos financeiros.

No mundo ideal, seria mais democrático que os assuntos espinhosos fossem debatidos abertamente. No mundo real, dominado por teorias conspiratórias, a desconfiança sobre o que o governo realmente poderá fazer acaba proporcionando todo tipo de especulação no mercado financeiro.

Contraditoriamente, a oscilação frenética do preço dos ativos financeiros pode ser favorável ao governo, do ponto de vista eleitoral. Entre as generalidades, uma imagem forte é atrelar a queda do preços das ações ao boicote dos ricos contra o governo Dilma.

Segundo o Datafolha, 44% dos eleitores possuem renda familiar de até dois salários mínimos. Nesse grupo, o apoio à presidente Dilma é de 43%.

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Nas próximas pesquisas eleitorais, será fundamental acompanhar as intenções de voto dos eleitores com renda familiar mais baixa. Se a presidente Dilma continuar em vantagem, a estratégia de debater generalidades será intensificada e traçar cenários financeiros ficará cada vez mais difícil. As decisões de investimento no momento não são simples.

Aposta de risco na vitória da oposição

Apostar na vitória da oposição para lucrar com a bolsa é uma estratégia arriscada. Desde 2006, existe uma marcante divisão da intenção de voto dos brasileiros de acordo com a faixa de renda do eleitor.

Segundo as pesquisas de opinião realizadas pelo Ibope, tanto em 2006 quanto em 2014 o candidato de oposição vence nos segmentos de renda mais alta, mas perde no grupo de menor poder aquisitivo. A popularidade do concorrente da terceira via não muda o quadro.

O gráfico abaixo compara as intenções de voto de quatro postulantes, em períodos diferentes, nas eleições de 2006 e 2014. Existe uma relação entre a renda familiar do eleitor (no eixo horizontal) e a popularidade do candidato (no eixo vertical).

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Tanto Alckmin em 2006 tanto Aécio em 2014 tinham mais votos do que Lula em 2006 e Dilma em 2014 entre os eleitores mais ricos. Na faixa de renda acima de cinco salários mínimos (SM), os oposicionistas possuíam 38%-41% de intenção de votos, contra 23%-29% dos governistas.

Quanto menor a renda do eleitor, maior a popularidade do candidato governista. No extremo oposto, entre os que ganham menos de um salário mínimo, Lula e Dilma marcavam 50%-53% das preferências, contra apenas 13%-17% de Alckmin e Aécio.

O levantamento de 2006 foi feito em setembro, na véspera do primeiro turno da eleição. Os números de 2014 são de agosto, antes do início da propaganda eleitoral gratuita.

A última pesquisa do Ibope aponta que 12% dos entrevistados possuem renda familiar acima de cinco salários mínimos, 35% entre dois até cinco, 33% entre um até dois e 14% ganham até um salário mínimo. Cerca de 6% não responderam.

Parece mais prudente apostar na alta da bolsa em razão dos fundamentos das empresas do que pela possibilidade de vitória da oposição.

Um mau conselho de investimento

O jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de São Paulo, se indignou com a análise do Banco Santander, distribuída para os clientes de alta renda da instituição, relacionando a alta da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto com a queda na cotação das ações negociadas em bolsa.

Mas, em vez de simplesmente buscar outras fontes para conseguir recomendações mais embasadas para seus investimentos, sugeriu, na sua coluna no jornal, que o governo impusesse normas mais rígidas ao mercado financeiro.

Talvez o sentimento de decepção do jornalista justifique o clamor pela intervenção estatal. É sempre desapontador constatar que o aconselhamento oferecido pelas instituições financeiras que temos conta pode não estar alinhado com os interesses dos clientes.

No entanto, neste caso, mais normas não resolvem o problema. O mais eficaz é que o aplicador avalie criticamente as propostas dos especialistas. E, sempre que possível, busque outras opiniões.

O histórico de recomendações de investimento ruins em períodos eleitorais é grande. O recorde negativo, talvez, seja a indicação para investir no exterior nas vésperas das eleições de 2002, que elegeu o presidente Lula.

Um movimento especulativo levou o dólar ultrapassar a barreira de R$ 3,50. Depois disso, a cotação nunca mais se recuperou, conforme indica o gráfico.

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Assim como o sobe e desce das cotações, a opinião das instituições financeiras muda. Recentemente, o Brasil deixou o grupo dos países chamados de “os cinco frágeis” para entrar no time do “quarteto fantástico”.

Isso faz parte do jogo e nenhum investidor deve ficar surpreso com esse comportamento. O importante é ter uma estratégia de investimento para aproveitar as oscilações de curto prazo. Muitas vezes podem surgir oportunidades rentáveis.

Agora, justiça seja feita. Análises e recomendações ruins não são exclusividade das instituições financeiras. Analistas e empresas independentes também podem exagerar na emoção e cometer erros.

A volatilidade na reeleição de Dilma

Juros dos títulos de longo prazo em queda, crescimento econômico baixo, inflação próxima ao teto da meta e oportunidades de ganhos decorrentes das diferenças entre os rendimentos das aplicações financeiras em reais e nas moedas internacionais. O cenário atual da economia brasileira para as aplicações financeiras não é radiante, mas está longe de ser sombrio.

Os indicadores, porém, mostram que o risco é alto. A diferença entre a volatilidade do Ibovespa, que acompanha a cotação das principais companhias do país, e a do S&P 500, que mede o retorno das maiores empresas americanas, está perto da máxima atingida nos últimos quatro anos.

Volbov

Quanto maior a variação diária da cotação dos ativos, mais incerta é a expectativa da rentabilidade do investimento no fim de determinado período. A previsão do rendimento de uma aplicação atrelada à taxa Selic com prazo de um ano, por exemplo, pode ser feita com muito mais segurança do que a de um fundo de ações que acompanhe o Ibovespa.

A oscilação das cotações implica aumento da taxa de desconto sobre o fluxo financeiro esperado do investimento. A razão é que para garantir um retorno mínimo num ambiente de incertezas, os investidores demandam preços mais baixos do que aqueles que seriam praticados caso o cenário fosse mais previsível.

Nos negócios com títulos de renda fixa esse mecanismo é mais evidente. Quando a inflação está alta e há dúvidas sobre a intenção do Banco Central (BC) a respeito do tamanho do aumento que será promovido na taxa Selic, o preço dos títulos de longo prazo cai.

Foi o que aconteceu em 2013 e trouxe como consequência prejuízos para os detentores de papéis do Tesouro. O interesse pelas aplicações diminuiu até que a atuação do BC ficasse mais clara.

Agora a sinalização é de que o juro permanecerá constante por um período razoavelmente longo. A demanda por títulos públicos voltou a subir e houve aumento dos preços.

O valor de mercado da Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em janeiro de 2017, por exemplo, subiu 7,6% entre a cotação mínima, em 4 de fevereiro, e o preço de fechamento em 6 de junho deste ano. Os demais papéis tiveram recuperação semelhante.

Outra consequência do aumento da volatilidade é a busca por ganhos de curto prazo. Essa tendência é mais comum no mercado de ações.

Hoje, o maior fator de volatilidade do Ibovespa é a tentativa de estabelecer o preço para a possibilidade de reeleição da presidente Dilma. Em um mundo em que tudo parece estar à venda, como assinala Michael Sandel no livro “O que o dinheiro não compra”, é uma experiência compreensível, ainda que de resultado duvidoso.

A obra do filósofo americano é repleta de exemplos de como a lógica do mercado invadiu as relações sociais nas últimas décadas. Sandel esteve recentemente no Brasil para o ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento.

O caso mais provocador e que proporciona discussões acaloradas é a possibilidade de companhias fazerem seguro de vida para funcionários e elas serem as beneficiárias da apólice, no caso de morte do empregado.

A justificativa econômica do acordo é compensar as empresas pelos altos custos de treinamento e reposição da vaga deixada pelo falecido.

O mercado da morte é grande e possui derivados. Existem investidores especializados em antecipar o valor da apólice aos interessados em receber o seguro em vida. Dependendo do desconto negociado e do tempo até o falecimento, o resultado financeiro pode ser alto.

Diversos gestores de recursos, administradores de fundos de “private equity” e tesouraria dos grandes bancos de investimento são capazes de montar operações estruturadas para atender a demanda do mercado secundário para seguros de vida. E dar mais liquidez e transparência para o cálculo do valor presente das apólices, para quem queira negociá-las.

Nesse ambiente, a aposta na queda da presidente Dilma nas pesquisas de intenção de voto parece ser uma estratégia financeira como outra qualquer. Os especialistas procuram identificar a relação entre os números divulgados pelos institutos de pesquisa e a variação da bolsa.

Um ponto negativo dessa modalidade de investimento é que ela ainda não está suficientemente desenvolvida. Nenhuma seguradora conseguiu estipular o valor da apólice em caso de derrota do atual governo.

A expectativa é que os presidenciáveis da oposição sejam capazes de implantar uma política econômica que combine crescimento elevado com inflação baixa. Isso aumentaria a confiança dos consumidores e o lucro das empresas.

Um ponto obscuro é que, talvez, a própria presidente Dilma, num eventual segundo mandato, consiga entregar o resultado esperado pelo mercado para os candidatos da oposição. Nesse caso, a aposta na reeleição poderia significar ganhos para as ações e perdas para as posições vendidas.

O mais provável é que as apostas na valorização das ações sejam independentes do resultado das eleições. Se o próximo governo conseguir criar uma nova onda de otimismo, as cotações podem se recuperar.

Para o investidor que pretende atravessar o período eleitoral evitando a especulação, resta a alternativa mais tradicional: apostar na segurança da renda fixa e escolher uma carteira de ações de companhias com boas perspectivas de crescimento.

Consórcios: avaliar é uma boa questão de Enem

Suponha que você queira adquirir um bem no valor de R$ 350 mil. Para realizar a compra à vista, você tem a alternativa de tomar um empréstimo, pagando em 170 parcelas mensais. Seu desembolso total, considerando os juros, será de R$ 544.373.

Outra possibilidade é não se endividar e investir o dinheiro que seria gasto nas mensalidades do financiamento. Nesse caso, no fim de 125 meses, com os rendimentos acumulados da aplicação financeira, você teria reunido recursos para comprar o item desejado, com desembolso total de R$ 312.600.

Uma terceira alternativa é entrar em um consórcio, pagando prestações por 170 meses de tal forma que, no fim do prazo, terá desembolsado o total de R$ 420.600. O problema é que não existe certeza de quando irá receber o bem. Você participará de sorteios com chances iguais de ser contemplado do primeiro ao último mês.

A discussão sobre o custo do prazer imediato e o benefício de ter paciência para adiar o consumo pode enveredar para argumentos filosóficos. O economista Eduardo Giannetti da Fonseca, em seu livro “O valor do amanhã”, aborda essas questões de forma abrangente e intrigante.

Mas uma pergunta pragmática, que pode ser respondida pelos alunos do ensino médio que estão se preparando para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), é: a partir de qual mês o consórcio é a pior alternativa? E qual a probabilidade de você ser sorteado antes de o consórcio começar a ser um mau negócio?

O gráfico abaixo ilustra a resolução do problema.

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A linha azul une dois extremos. O ponto mais à esquerda representa o custo do empréstimo de R$ 544.373, assinalado no eixo vertical. O eixo horizontal mostra que, nessa opção, o bem foi comprado no primeiro mês.

O ponto mais à direita da linha azul representa o momento em que os recursos depositados na aplicação financeira são suficientes para cobrir o valor do bem. Isso acontece no mês 125 e o desembolso total é de R$ 312.600, sem contar os juros.

Assumindo que seja possível fazer uma combinação entre empréstimo e poupança para adquirir o bem, a linha azul mostra o desembolso total em cada momento, até o mês 125.

A linha vermelha do gráfico representa o desembolso com o consórcio. O custo de R$ 420.600 é fixo e não depende do mês em que o bem é adquirido.

Existe um ponto em que as duas linhas se cruzam. Nesse momento, o desembolso com o consórcio e a combinação financiamento com poupança resultam no mesmo desembolso.

Achar a equação da reta azul, que une os dois pontos extremos entre financiamento e poupança, é a chave para a resolução do problema. Os cálculos mostram que as retas se cruzam, aproximadamente, no mês 67.

Antes desse ponto, o valor da poupança é pequeno e o montante financiado deve ser alto, o que aumenta o valor total do desembolso. Depois ocorre o inverso.

Portanto, ser contemplado no consórcio antes do mês 67 é vantajoso. Após esse ponto é mau negócio.

Existe uma chance em 170 de ser sorteado no consórcio em um determinado mês. Em 67 meses a chance de ser contemplado é 67 vezes maior, ou quase 40%.

Significa que a probabilidade de o consórcio ser um bom negócio é menor do que a possibilidade de ser uma opção ruim. O que, de certa forma, pode causar surpresa a muitos.
 
Apesar de ser um problema aparentemente complexo, avaliar a atratividade de um consórcio é uma tarefa acessível aos estudantes do ensino médio. Na ponta do lápis, parece prudente evitar dar chance ao azar: o melhor é evitar o consórcio.

Um BC mais ativo pode aumentar os riscos dos investimentos

A coluna do jornalista Cristiano Romero, do Valor, publicada no dia 19 de março, chama a atenção para o fato de o Banco Central (BC) brasileiro ter sido o que mais mudou a taxa básica de juros nos últimos três anos, na comparação com outros países.

Também foram mais alterações na taxa Selic do que nos dois mandatos anteriores, do presidente Lula. O ativismo, definitivamente, parece ser a marca do governo Dilma na economia.

O gráfico abaixo mostra que em 88% das vezes o comitê de política monetária (Copom) comandado por Alexandre Tombini decidiu modificar a taxa Selic que estava em vigor antes do encontro. Durante o período de Henrique Meirelles a mudança ocorreu em 66% das reuniões.

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Em economia, os exercícios para estimar o que teria acontecido se outras decisões tivessem sido tomadas são sempre sujeitos a erros e imprecisões. Portanto, é difícil apontar se o BC agiu da maneira mais eficiente.

Em finanças, os cálculos são significativamente mais fáceis. Basta avaliar o comportamento do preço histórico de um ativo e contabilizar os ganhos e perdas em diferentes momentos, tendo em vista as diversas decisões possíveis.
 
As simulações mostram que é mau negócio tentar entrar e sair do mercado frequentemente, visando potencializar os ganhos com a alta do preço dos ativos e evitar as perdas nos períodos de baixa. O melhor é definir uma estratégia e seguir os objetivos traçados.

Os fundamentos para a boa gestão da política monetária são completamente diferentes daqueles usados na administração dos investimentos. No entanto, uma coisa é certa: idas e vindas da taxa de juros aumentam a volatilidade e diminuem o apetite para o risco.

A consequência é que, para diminuir a incerteza, os investidores tendem a dar preferência para as aplicações atreladas à taxa Selic ou indexadas à inflação. Por esse ponto de vista, o ativismo atrapalha o desenvolvimento do mercado.

Corte da nota do Brasil pode ter efeito moderado em juros

As notas de crédito atribuídas pelas agências de classificação de risco têm impacto relevante sobre o custo da dívida de empresas e países. Quanto melhor a classificação, menor tende a ser o desembolso com os juros dos financiamentos, e vice-versa.

A S&P (Standard & Poor’s) está reavaliando a economia brasileira. A expectativa é que o Brasil não perca o grau de investimento, mas o conceito do país pode cair. As taxas dos títulos públicos de longo prazo, negociados no mercado secundário, já incorporam essa possibilidade.

O gráfico abaixo compara a remuneração das NTN-B (Notas do Tesouro Nacional Série B) para 2024 e 2035 com a evolução do risco Brasil, segundo os critérios da S&P. A nota “BBB-” é a mínima para que os títulos sejam considerados investimentos seguros.

RiscoBrasil

Desde 1994, início da estabilização da economia, a S&P e as demais agências de risco vêm aumentando a nota do Brasil. O grau de investimento veio em 30 de abril de 2008.

Em 17 de novembro de 2011, a S&P subiu novamente a nota do Brasil, para a atual classificação “BBB”. É uma margem mais segura em relação ao grau de investimento.

As taxas de juros das NTN-B fizeram caminho oposto. Em agosto de 2005, quando a nota do Brasil era “BB-“, a NTN-B com vencimento em 2024 remunerava inflação mais 9% ao ano. Na época, a taxa Selic (juro básico) era de 19,75% ao ano.

No período em que o país conseguiu a classificação mínima para o grau de investimento, a remuneração dos papéis ficou em cerca de 6% ao ano. A Selic no período oscilou de 8,75% a 13,75% ao ano.

A melhora seguinte da nota de risco contribuiu para queda mais acentuada da taxa dos títulos. Tanto a NTN-B para 2024 quanto a para 2035 passaram a oferecer remuneração de cerca de 4% ao ano.

O Banco Central também conseguiu reduzir a Selic ao menor nível histórico, 7,25% ao ano, no período de outubro de 2012 a abril de 2013.

Mais recentemente, porém, as taxas de juros voltaram a subir. Entre os fatores que aumentaram a aversão ao risco dos investidores em relação aos títulos brasileiros está a possibilidade de rebaixamento da nota pelas agências.

A política monetária também foi impactada. A Selic está em 10,75% ao ano e muitos analistas acreditam que continuará a subir.

Desde que o governo mostre capacidade de reação para corrigir os rumos da política econômica, a revisão da nota para “BBB-” pode ter um impacto moderado nas taxas dos títulos.

O temor, no entanto, é que os ajustes fiquem apenas para depois das eleições. Um cenário que aumentaria o custo financeiro do país.

Parâmetros para negociar debêntures da Vale

Os mais de 2 mil investidores que compraram as debêntures incentivadas da Vale, com rendimento isento de imposto de renda (IR), contabilizaram ganho de capital de 4% em poucas semanas. Quem não conseguiu adquirir os títulos na oferta inicial avalia, agora, a atratividade das cotações no mercado secundário.

A principal vantagem do papel é proporcionar, para os investidores sujeitos ao IR, ganhos maiores do que a remuneração das NTN-Bs de prazo equivalente. Se negociadas com a mesma taxa de juros, a isenção de imposto das debêntures incentivadas representa ganho de aproximadamente dois pontos percentuais em relação à remuneração após IR dos títulos públicos.

As debêntures da primeira série foram emitidas com taxa de juros de 6,46% ao ano mais a variação do IPCA. Na mesma data, a NTN-B com vencimento em 15 de agosto de 2020 era negociada com taxa de 6,64% ao ano.

Para avaliar a conveniência do investimento nas cotações atuais é preciso reunir informações relevantes para desenvolver as análises. Apesar de complexo, o site http://www.debentures.com.br, administrado pela Anbima, disponibiliza referências importantes.

A Anbima agrega as informações dos títulos de renda fixa negociados na Cetip, sistema privado de custódia e liquidação financeira de ativos. Os negócios são acordados diretamente entre as partes, sem a intervenção de terceiros, num modelo conhecido como mercado de balcão. É um mecanismo diferente das transações em bolsas de valores, em que as cotações são públicas e passíveis de interferência dos demais investidores.

Visando dar maior transparência para a formação dos preços e aumentar a segurança dos aplicadores, Cetip e Anbima disponibilizam dados referentes aos preços de liquidação dos negócios, cotações indicativas e características dos papéis.

No mercado de renda fixa, o parâmetro de referência para as negociações é a taxa de juros do ativo. No entanto, a liquidação financeira ocorre pelo preço unitário (PU) do papel. E conciliar taxa de juros com PU nem sempre é tarefa fácil. Para calcular o preço de um título de renda fixa corrigido pela inflação é necessário dispor de duas informações básicas: o valor nominal atualizado (VNA) do ativo e um calendário que indique o número de dias úteis entre a compra e a data do pagamento de cada cupom de juros e amortizações. Esse é o primeiro passo para calcular a taxa de retorno do investimento.

Para os profissionais do mercado, a Anbima oferece uma calculadora específica. Para os demais investidores, a saída é contar com uma assessoria especializada para evitar erros que possam gerar prejuízos. Se isso não for possível, é prudente consultar as cotações de, pelo menos, duas instituições financeiras de confiança.

Com base nas informações reunidas pela Anbima, é possível verificar que as debêntures da primeira série da Vale, negociadas na Cetip com o código VALE18, tiveram valorização expressiva, o que fez com que as taxas de retorno recuassem para até 5,52% ao ano.

O gráfico abaixo compara a taxa de retorno da VALE18 com a remuneração da NTN-B 2020 desde 12 de fevereiro. Fica evidente que parte da valorização do preço de mercado da debênture ocorreu devido à queda das taxas de retorno da NTN-B 2020 e outra parte foi gerada pelo aumento da diferença entre o rendimento dos dois títulos.

Vale18

A acentuada demanda pelos papéis da Vale, que derrubou as taxas de retorno em um primeiro momento, pode ser justificada pela vantagem da isenção do IR. No entanto, é importante definir parâmetros objetivos para evitar decisões precipitadas. Afinal, como mostra o gráfico, as cotações tendem a apresentar maior oscilação que o título público.

Existe um risco elevado ao comprar um título privado com prazo de vencimento tão longo. Se for preciso se desfazer do ativo em um momento ruim do mercado, a alternativa é vender para investidores qualificados, que possuem regra diferente para o recolhimento do IR. É importante acompanhar a evolução do mercado para identificar boas oportunidades de compra. E evitar armadilhas, reunindo a maior quantidade de informações possíveis.

Diversificação de acordo com Berkshire Hathaway

Os entusiastas das estratégias de investimento que enfatizam a busca ativa por maiores retornos com certeza foram surpreendidos com o teor da última carta de Warren Buffett, endereçada aos acionistas de sua companhia, a Berkshire Hathaway.

Um extrato da carta foi publicado na última semana de fevereiro. Considerado o investidor mais bem sucedido do mundo, Buffett sempre defendeu princípios simples para embasar as decisões de investimento. Mas, desta vez, parece ter radicalizado.

O argumento é que ninguém precisa ser um especialista em finanças para fazer boas aplicações. No entanto, para quem não tiver condições de entender detalhadamente as características da transação, o melhor é confiar nos produtos indexados a índices de mercado.

A recomendação para quem quer investir em ativos de risco, então, é comprar fundos atrelados ao S&P 500, índice que reúne 500 ações de empresas americanas. O fato de o indicador estar próximo à cotação recorde é irrelevante e nem sequer foi mencionado no texto.

Desde que a taxa de administração seja baixa, indexar é a melhor alternativa. A característica de um fundo de ações passivo é dar ao investidor a possibilidade de participar de diversos bons negócios, que foram duramente testados ao longo dos anos. Esse grupo de empresas merece um voto de confiança, pelo menos no mercado americano.

Buffett tem faro para fazer bons negócios. Cita o exemplo de dois investimentos pequenos em comparação à sua fortuna para enfatizar a importância de conhecer bem o terreno onde se pisa. Ele admite que comprou uma fazenda sem entender o funcionamento do setor agropecuário e um prédio de escritórios sem nunca ter visitado o imóvel. Mas ressalva que analisou detalhadamente o potencial de geração de caixa dos empreendimentos e acreditava que o preço era suficientemente baixo para produzir bons retornos. O que aconteceu.

O ponto de Buffett é que ele conseguiu atingir o sucesso porque desenvolveu seu método durante uma longa carreira. E foi hábil em aprender com os erros. Para o investidor que não tem tempo ou interesse de fazer experiências, a melhor decisão, portanto, é indexar a carteira.

E essa foi a recomendação que deu aos administradores da parte de sua herança que será destinada à mulher. Sugeriu aplicar 90% em um fundo com baixa taxa de administração vinculado ao S&P 500 e 10% em ativos com liquidez imediata.

O argumento de que investir em ações é mais rentável do que aplicar em títulos de renda fixa faz sentido do ponto de vista conceitual. Afinal, se as companhias não conseguirem gerar lucros acima dos juros de mercado, a tendência é de fecharem as portas. No Brasil, essa dinâmica relativamente simples ainda não deslanchou, pelo menos conforme capturado pela baixa popularidade dos fundos atrelados ao Ibovespa, principal indicador da bolsa brasileira. Desde 2007 até 2013, o índice teve ganho equivalente a 2,12% ao ano. O S&P 500, em comparação, rendeu 3,85% ao ano no mesmo período.

Hoje, a preferência dos aplicadores brasileiros é pelos fundos com gestão ativa, até por conta dos custos geralmente elevados com as taxas de administração das carteiras indexadas. A expectativa de quem aplica na bolsa passou a ser de ganhar mais do que o Ibovespa.

A maior distorção no Brasil continua sendo os altos juros. Mesmo na fase recente, em que a Selic se aproximou do patamar de um dígito, a rentabilidade de uma carteira composta por títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional foi de 11,21% ao ano, quase cinco vezes mais do que o Ibovespa.

Os títulos de renda fixa americanos, segundo o índice “Barclays Capital US Aggregate Bond Index”, renderam 4,91% ao ano entre 2007 e 2013. Mas foi um período excepcional, em que as taxas de juros caíram até níveis extremamente baixos devido à política monetária praticada nos EUA. Quando os juros de mercado caem, os títulos de renda fixa já emitidos se valorizam.

Buffett

Outra diferença entre os mercados nos EUA e no Brasil é que o S&P 500 representa melhor o conjunto da economia americana do que o Ibovespa em relação ao total das empresas brasileiras. Por essa razão, os investidores americanos têm mais facilidade para indexar a carteira de ações.

Mesmo assim, os alertas de Buffett podem ser adaptados ao ambiente brasileiro. Identificar bons negócios é sempre tarefa difícil e aplicar nesses empreendimentos envolve a gestão de uma série de riscos que podem, eventualmente, pulverizar o retorno esperado.

Em contrapartida, comprar e vender ativamente ações na bolsa é tarefa simples e realizada de forma cada vez mais eficiente. O problema dessa estratégia é que não há nenhuma garantia de que as apostas serão lucrativas. Pelo contrário. Diversos estudos apontam que a negociação constante aumenta acentuadamente os custos do investidor, que acaba tendo lucro inferior à média de mercado.

De qualquer forma, com a internacionalização do mercado de capitais, uma nova oportunidade parece aberta aos investidores brasileiros que preferem indexar as aplicações: comprar títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional e ações de companhias americanas que fazem parte do S&P 500.