Perdas recordes com títulos públicos

Apesar de o governo central ter gasto R$ 186 bilhões com juros da dívida em 2013, o prejuízo total dos aplicadores que investiram em títulos públicos foi de R$ 27 bilhões no ano passado.

A causa dessa destruição de valor sem precedentes foi a queda do valor de mercado dos papéis emitidos pelo Tesouro, devido às turbulências no mercado de juros. Em 2014, as perdas com os títulos públicos continuam e já chegam a R$ 15 bilhões.

O gráfico abaixo mostra a evolução dos juros nominais pagos pelo governo federal e Banco Central (BC) e o rendimento total acumulado dos títulos federais que fazem parte da carteira do Índice de Mercado Aberto da Anbima (IMA), de janeiro a dezembro do ano passado.

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As despesas com juros do governo central, ilustradas pela linha azul do gráfico,  cresceram em ritmo aproximadamente constante. A maior parcela de gastos com esse item são os juros sobre o estoque da dívida pública mobiliária federal no mercado, que atingiu R$ 2 trilhões em dezembro de 2013.

O BC é responsável pelos gastos com as operações compromissadas com títulos públicos e recebe os rendimentos referentes à remuneração das reservas internacionais e dos papéis do Tesouro que carrega na carteira.

A linha vermelha do gráfico mostra a evolução do rendimento total dos títulos públicos em mercado, considerando os juros e o ganho de capital. De abril a junho, o período que marcou o início das turbulências, as perdas acumuladas foram de R$ 64 bilhões.

Para os investidores, o ganho com os títulos públicos depende tanto dos juros recebidos como do valor de mercado dos papéis. Quanto maior o prazo do título, maior é a variação da cotação.

Mesmo que a intenção do investidor seja levar o título até o vencimento, o valor de mercado é um indicador importante para avaliar o desempenho da aplicação. Perdas de capital, mesmo que momentâneas, podem causar desconforto e levar a uma mudança no perfil dos investimentos.

O desafio dos investidores em títulos públicos nesse ano é reavaliar a carteira considerando os objetivos da aplicação. E manter em perspectiva que o valor dos juros pagos pelo governo acabará sendo embolsado em algum momento.

Dívida cara para o Tesouro e retorno negativo para o investidor

Em 2013, o custo médio da dívida pública mobiliária federal, bancado pelo Tesouro Nacional, foi de 10,76%. Já o investidor que comprou os títulos do governo teve rendimento negativo, de -1,42%.

Essa diferença demonstra que alguma coisa deu errado com a estratégia de gestão da dívida pública nos últimos tempos.

O custo do Tesouro é o rendimento pago pela remuneração dos papéis públicos federais. O ganho do investidor, por sua vez, é formado pela combinação entre o rendimento do título e o ganho ou perda de capital decorrente da valorização ou desvalorização dos ativos no mercado secundário.

Entre 2005 e 2011, as diferenças entre o custo do Tesouro e o retorno do investidor oscilavam em uma faixa relativamente estreita, conforme ilustra o gráfico abaixo.

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Em 2007, o pior ano para os investidores em termos de ganhos nominais, o retorno, medido pelo Índice do Mercado Aberto Geral, foi de 12,63%. O custo da dívida pública, de acordo com os relatórios do Tesouro Nacional, atingiu 12,88%. A diferença foi de -0,25 pontos percentuais.

Em 2005 os investidores tinham ganho 18,19% e o custo do Tesouro havia sido de 16,96%, uma diferença de 1,23 pontos percentuais. Até 2012, a maior diferença positiva tinha sido de 2,71 pontos percentuais, em 2006. A maior diferença negativa, de -0,87 pontos percentuais, tinha ocorrido em 2008.

Num cenário financeiro equilibrado, a diferença entre o custo de captação do Tesouro e retorno do investidor não é grande. As distorções recentes podem sinalizar problemas na condução da política de administração da dívida pública.

Para os investidores, é importante equilibrar a carteira e acompanhar as decisões das autoridaes encarregadas da gestão da dívida pública, para evitar futuros prejuízos.

Definição do cenário para os investimentos

O clima de desconfiança dos investidores para com o governo Dilma encontra justificativa no desempenho dos principais indicadores financeiros. Desde o início do mandato, em 1º de janeiro de 2011, a variação cambial superou a rentabilidade média dos títulos de renda fixa e o Ibovespa acumulou queda de 30% no período.

Nos últimos três anos, ganhou quem tomou recursos em reais para aplicar no exterior, apostando na alta do dólar, além de manter posição vendida nas ações das principais companhias brasileiras. O oposto das estratégias que proporcionaram lucros generosos durante governos anteriores.

Até mesmo o trunfo de conseguir reduzir a taxa Selic para os menores patamares da história recente parece ter ficado para trás. Depois de atingir a mínima de 7,25% ao ano entre outubro de 2012 e abril de 2013, a alta da inflação forçou o Banco Central a voltar a subir os juros para os atuais 10,50% ao ano.

Em termos anualizados, a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos últimos três anos está um ponto percentual acima da média obtida no governo anterior. Até o fim de 2014, as previsões são de novos aumentos dos juros para combater a inflação e a Selic poderá atingir 10,75% ao ano, segundo o Boletim Focus.

É nesse clima ruim que a presidente Dilma fará um pronunciamento no Fórum Econômico Mundial em Davos, na sexta-feira, 24 de janeiro. Pode ser um bom momento para o governo deixar mais claro as ações que pretende adotar para tentar ajustar os rumos da economia.

Se o discurso encontrar respaldo junto aos investidores, a consequência esperada é a perspectiva de melhora da rentabilidade dos ativos financeiros. Ou, pelo menos, se houver indicações mais claras sobre a política econômica, as eventuais oportunidades podem ficar mais claras.

Desemprego baixo e reservas internacionais na casa dos US$ 370 bilhões não garantem mais o dinamismo da economia brasileira e nem impedem a tendência de desvalorização do real. Há sinais de esgotamento do crescimento amparado no estímulo ao consumo, mas não estão claras as alternativas que podem ser adotadas.

A aposta na desoneração fiscal seletiva, restrita a alguns setores, não funcionou do modo esperado. E o estímulo para atrair nova rodada de investimentos em infraestrutura continua em ritmo mais lento do que o inicialmente imaginado.

Esse tem sido o difícil cenário para a tomada de decisões dos aplicadores. O antídoto para não ser contaminado pelo pessimismo é estabelecer uma sólida estratégia e seguir os planos traçados.

Para investir os recursos poupados para a aposentadoria, por exemplo, muitas vezes as alternativas de longo prazo, mesmo mais arriscadas, podem ser as melhores opções e produzir os maiores resultados. As flutuações do preço dos ativos podem proporcionar boas oportunidades de compra e aumentar a rentabilidade ao longo do tempo.

Se o investidor tiver o hábito de acompanhar o comportamento das cotações, pode garimpar barganhas para a carteira de previdência.

Já para os recursos que possuem grande probabilidade de serem usados no curto prazo, a melhor alternativa é enfatizar a segurança, mesmo que o retorno seja mais baixo. As operações indexadas ao rendimento do certificado de depósito interfinanceiro (CDI) ou à taxa Selic, na forma de certificados de depósitos bancários (CDB), fundos DI ou Letras Financeiras do Tesouro (LFT), são as opções mais populares e tradicionais.

Como o mercado financeiro é dinâmico, é importante ficar sempre atento às novas modalidades disponíveis. Papéis de renda fixa isentos de Imposto de Renda (IR), operações estruturadas, títulos prefixados, investimentos no exterior e fundos com gestão ativa devem fazer parte do leque de opções.

Mesmo que a exata compreensão do funcionamento desses investimentos seja difícil, o esforço para entender detalhes operacionais pode compensar. Dependendo da combinação dos ativos e dos objetivos das aplicações, a rentabilidade geral da carteira pode aumentar e o risco diminuir.

Nos últimos anos, as aplicações no exterior ficaram mais populares, assim como uma maior diversidade de títulos de renda fixa e ações de empresas menos conhecidas. E os investidores descobriram, também, que a isenção fiscal sobre rendimentos vai além dos fundos de previdência.

Mas é fundamental manter o controle e evitar modalidades desconhecidas ou pouco regulamentadas.

A recomendação, para esses casos, é evitar a ganância e desconfiar de propostas de investimento mirabolantes. Invariavelmente darão prejuízo em algum momento.

Realisticamente, apesar de todas as expectativas otimistas, a primeira participação em três anos do Brasil no Fórum Econômico Mundial pode ajudar a esclarecer dúvidas, mas não vai resolver o problema com o cenário atual.

Diversificação é recomendável, mas prudência é essencial

Combinar a rentabilidade da aplicação com a segurança de embolsar o rendimento pactuado é a preocupação de todos que resolvem poupar para a aposentadoria.

Gestores profissionais de patrimônio têm um desafio adicional. Como administram recursos cujo objetivo é formar uma reserva para garantir a aposentadoria futura de milhares de trabalhadores, precisam equilibrar o retorno esperado da carteira com o fluxo de pagamentos previstos para quitar os benefícios programados.

Na essência, a ideia é simples. Quanto maior o valor da aposentadoria, maior deverá ser o montante acumulado durante os anos de trabalho.

Os gestores de fundos de pensão e previdência buscam equilibrar o fluxo de todas as contribuições ao longo do tempo com o total dos gastos com benefícios futuros.

O valor da aposentadoria depende do esforço de poupança do trabalhador e da taxa de juros que o gestor conseguir para os investimentos. Esse é o fundamento de todo plano de previdência, mas que muitas vezes não fica claro para o participante.

Nos fundos de aposentadoria do tipo benefício definido, o patrocinador garante o valor das aposentadorias. Eventuais deficit são administrados pela instituição responsável pelo plano. É o caso da maioria dos fundos de pensão e de todos os RPPS (regimes próprios de previdência social) que investiram em ativos originados pelo BVA.

Os prováveis prejuízos serão cobertos pelas empresas patrocinadoras dos planos ou por Estados e municípios.

Ao que tudo indica, a lógica do investimento em papéis do banco foi diversificar a carteira para conseguir retorno mais elevado. E a justificativa foi a queda das taxas de juros devido ao aumento da estabilidade da economia.

Em alguns casos, a concentração foi maior do que a média do mercado. Segundo informações do Ministério da Previdência, são cerca de R$ 3,5 bilhões de recursos investidos em fundos de direitos creditórios e de crédito privado, modalidades mais arriscadas nas quais se enquadram os títulos do BVA.

Em relação ao total dos RPPS, o montante representa 5% dos investimentos em renda fixa. Os institutos de Manaus, Rolim de Moura (RO) e Senador Canedo (GO), por exemplo, investiram mais de 10% das carteiras no BVA.

Diversificação das aplicações é sempre recomendável, mas a prudência na gestão dos recursos de milhares de trabalhadores é essencial para o equilíbrio do sistema de previdência no longo prazo.

Texto publicado originalmente na edição de 19/01/2014 do jornal Folha de São Paulo

Se não afetar os mais pobres, rating do Brasil pode até cair

A entrevista exclusiva do secretário do Tesouro Arno Augustin ao Valor mostrou que, mesmo quando envolve aspectos mais técnicos de gestão das variáveis econômicas, a disputa política exerce um fator preponderante nas decisões do governo.

Indagado sobre a consistência do superavit primário do ano passado, o secretário não se esquivou de comparar os resultados atuais com os do governo Fernando Henrique, registrados há mais de dez anos. Para os investidores, é um sinal de alerta.

O grande tema do momento é a possibilidade de rebaixamento da classificação de risco do Brasil pelas agências internacionais de rating. Se o Brasil perder o grau de investimento, a captação de recursos externos pode ficar mais difícil em um momento crítico de financiamento das contas externas. A cotação do dólar e as taxas de juros locais podem subir.

Por enquanto, a possibilidade de rebaixamento do Brasil não está no radar. Marcio Guedes, diretor da Anbima, a associação que representa as instituições que atuam no mercado de capitais, resumiu bem o sentimento geral dos profissionais ao declarar que não conta com o corte do grau de risco, conforme apurou o repórter Vinicius Pinheiro, do Valor.

Todavia, dado o grau de politização das decisões sobre a condução da economia, passa a ser importante avaliar, também, o comportamento dos resultados das pesquisas eleitorais.

Segundo o Ibope Inteligência, 13% dos eleitores possuem renda familiar de até um salário mínimo (SM); 31% têm renda familiar acima de 1 SM até 2 SM; 44% acima de 2 SM até 5 SM e apenas 12% fazem parte de famílias com renda acima de 5 SM. A intenção de voto na presidente Dilma e a avaliação positiva do governo variam significativamente conforme as faixas de renda.

De acordo com a pesquisa de opinião do Ibope de outubro do ano passado, 56% dos eleitores com renda familiar de até 1 SM e 50% daqueles na faixa entre 1 e 2 SM pretendiam votar pela reeleição da presidente Dilma. Juntos, esses dois segmentos representam 44% do total dos eleitores.

É uma vantagem considerável para a candidata governista. A maior parte dos eleitores dessa faixa também avaliava o atual governo como ótimo ou bom.

Na faixa de renda entre 2 e 5 SM, a margem cai, mas ainda é grande. Segundo a pesquisa, 40% pretendem votar na presidente Dilma. Apenas entre os eleitores de famílias de renda mais alta, que representam apenas 12% do total, a intenção de voto na presidente e a aprovação do governo é mais baixa, conforme ilustram os gráficos abaixo.

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O panorama eleitoral tem tudo para definir as ações de política econômica do governo. E como a preocupação com um eventual rebaixamento da nota de crédito do Brasil é um tema discutido exclusivamente pelos eleitores de maior poder aquisitivo, um grupo que já possui uma maior aversão à possibilidade de reeleição da presidente Dilma, as respostas do governo para o assunto tendem a ser mais discretas.

A consequência esperada é o aumento da volatilidade do mercado local. O cenário de corte da nota de crédito do Brasil pelas agências internacionais de risco parece ser ainda remoto, mas as respostas políticas das autoridades a problemas econômicos de ordem prática tendem a continuar gerando incertezas.

Será preciso cautela para conviver com o sobe e desce dos ativos financeiros até o fim do período eleitoral.

CDI ou dólar, dos dois o maior

No passado, uma operação relativamente popular entre os investidores e empresas que tinham sobra de caixa era oferecida por bancos com perfil mais agressivo.

Na época em que o Brasil tinha taxa de câmbio controlada e administrada pelo governo, a promessa do investimento era garantir o valor das aplicações em dólar, sem abrir mão dos ganhos com os juros praticados no país, caso não houvesse necessidade de desvalorização da moeda para corrigir problemas no balanço de pagamentos.

O melhor dos dois mundos tinha um forte apelo entre os investidores. E a saída para os bancos evitarem o prejuízo certo era ajustar a taxa de correção da aplicação.

A remuneração do investimento ficava na faixa de algo como 80% do CDI ou 90% da desvalorização cambial. Com essas taxas o aplicador tinha, de fato, o maior rendimento entre o CDI e o dólar. Mas a instituição financeira tomadora dos recursos conseguia administrar o risco para obter lucro em qualquer cenário de juros e câmbio.

Os recentemente regulamentados Contratos de Operações Estruturadas (COE) são semelhantes às antigas operações “CDI ou dólar, dos dois o maior”. A principal diferença é que hoje, o atrativo é o “principal garantido”.

A maioria dos COEs oferece a possibilidade de investir na bolsa sem perdas. A contrapartida é abrir mão de uma pequena parcela da rentabilidade.

Como, no mercado financeiro, não existe a possibilidade de vantagens sem custo, é preciso que o investidor fique atento com as estruturas oferecidas. Os COEs são oferecidos nos principais centros financeiros mundiais e podem ser boas alternativas caso aumentem a diversificação da carteira e reduzam eventuais riscos que o investidor estiver correndo.

O importante é evitar entrar em uma aplicação cuja perda seja certa e que a remuneração, na verdade, seja do tipo “CDI ou dólar, dos dois sempre o menor”.

2014 tende a ser o ano da gestão ativa

Carnaval em março, copa do mundo em junho e eleições presidenciais em outubro parecem ser os ingredientes ideais para justificar o adiamento de todas as decisões no Brasil. No entanto, o ano de 2014 promete ser de muita ação para os investidores.

A recomendação mais frequente dos administradores de carteira é que uma faixa entre 40% a 60% dos investimentos esteja alocada em modalidades que envolvam algum tipo de gestão ativa dos recursos. Aplicações livres de imposto de renda com lastro em títulos privados, papéis públicos de longo prazo, fundos multimercados ou de ações e papéis negociados no exterior indexados ao dólar estão no topo da lista das principais sugestões.

Reportagem de Luciana Seabra, do Valor, mostrou o que pensam nove casas especializadas na gestão de patrimônio para pessoas físicas de alta renda. E apesar do tom preponderantemente conservador, a presença de ativos mais arriscados nas carteiras recomendadas é uma constante.

A tendência para 2014 é que o investidor aumente o leque das aplicações e diminua a participação nas modalidades mais tradicionais. A intenção é que a diversificação ajude a atravessar o período de incertezas previsto para o período e ajude a aumentar a rentabilidade total dos investimentos.

Mas é preciso cautela. A contrapartida do maior número de papéis diferentes na carteira é o aumento do risco, caso o mecanismo das novas modalidades não seja inteiramente compreendido.

É fundamental, antes de investir em alternativas desconhecidas, avaliar as características básicas do investimento para entender o que pode dar errado. Eventualmente as perdas potenciais estão além do que seria tolerável.

É praticamente certo que, para ter bons resultados em 2014, o investidor terá que caçar ativamente novas modalidades de aplicação dos recursos.

A estratégia de gestão ativa da carteira pode ser uma forma eficiente de aumentar a rentabilidade da carteira mesmo em momentos difíceis do mercado. Mas, para que o investidor tenha sucesso, o primeiro passo é ter a disposição e a dedicação necessárias para conhecer detalhadamente o funcionamento de cada nova modalidade disponível.

Um ano em que até as estrelas tiveram perdas

Os rankings de fundos de investimento privilegiam a consistência. Afinal, ao delegar seus recursos a um gestor profissional, o que o investidor mais deseja é ganhar sempre, independentemente das condições de mercado.

A esperança é que os administradores de carteira tenham habilidade para identificar oportunidades de lucro nos mais diversos cenários. Se não for possível acertar todas as apostas, que pelo menos consigam evitar perdas nos momentos difíceis.

O ano de 2013 foi um duro teste. Mesmo os fundos mais bem avaliados pela Standard & Poor’s (S&P) amargaram períodos com prejuízos relevantes em certos momentos.

A avaliação das carteiras é feita com exclusividade para o Valor. A relação completa com os melhores fundos foi publicada em caderno especial na edição de 10 de dezembro. Os critérios de classificação premiam a previsibilidade do desempenho.

Fundos que atingiram a maior relação entre retorno e risco em determinado intervalo de tempo recebem a qualificação de cinco estrelas. Carteiras com comportamento equivalente à média do setor ganham três estrelas. Se o retorno for muito baixo ou a oscilação da rentabilidade muito alta, a nota máxima é de apenas duas estrelas.

Para o investidor, o ranking oferece um instrumento para comparar, de maneira simples, as alternativas disponíveis. Com a ressalva de que, como em toda simplificação, alguns detalhes podem não ser integralmente computados na avaliação.

A despeito de eventuais críticas aos critérios da metodologia, a análise mais detalhada do desempenho dos fundos premiados neste ano evidencia os efeitos das turbulências enfrentadas pelos investidores. E pode ser um sinal de alerta para o padrão das oscilações das aplicações financeiras daqui para frente.

Uma medida para dimensionar o risco do investimento é dada pela perda máxima verificada em determinado intervalo. Além disso, depois do prejuízo contabilizado, interessa saber quanto tempo demorou até que o investimento voltasse ao terreno positivo.

Aplicações pouco arriscadas tendem a proporcionar perdas pequenas e recuperação rápida. Em contrapartida, o padrão das modalidades com risco elevado envolve diversos períodos com prejuízos altos e recuperação demorada.

Para o investidor que não conta com a calma necessária para esperar pela recuperação dos mercados, que tenha perdido a confiança no gestor ou que, simplesmente, precisa sacar os recursos imediatamente, perdas momentâneas elevadas podem significar prejuízos definitivos. Por isso, os gestores se esforçam para evitar perdas das cotas.

Nos fundos de investimento, uma estratégia para amortecer possíveis perdas com apostas erradas é concentrar a carteira em papéis atrelados aos juros de curto prazo. Essa maneira de gerir a carteira é eficaz quando a taxa Selic é alta.

Os juros elevados garantem um colchão para a rentabilidade mínima da carteira. Mesmo se alguns investimentos mais arriscados não proporcionarem o retorno esperado, as perdas não serão suficientes para afetar de modo significativo o desempenho da carteira global.

Estratégias desse tipo foram aprimoradas pelos administradores de recursos brasileiros. E, também, sempre garantiram ótima posição nos rankings que premiam a relação entre retorno e risco, tal como o elaborado pela S&P.

O juro baixo na primeira metade de 2013, no entanto, obrigou os gestores a adaptar as posições para tentar obter melhores resultados. Alongamento do prazo das aplicações, apostas em operações estruturadas e investimentos em ativos negociados no exterior são exemplos de transações que passaram a fazer parte do arsenal dos gestores locais.

A consequência foi o aumento do risco. Dos dez fundos com cinco estrelas mais rentáveis no ano até o dia 11 de dezembro de 2013, todos registraram algum período de perdas. É um fato raro comparando com os rankings anteriores.

Foram consideradas, nesse levantamento específico, apenas as carteiras potencialmente acessíveis aos investidores, com mais de 100 cotistas e patrimônio acima de R$ 100 milhões. Todas conseguiram superar a variação da taxa Selic no período, que foi de 7,70%.

As maiores perdas foram registradas pelos fundos de ações. Mas mesmo os fundos multimercados mais conservadores tiveram algum período com prejuízo. Todos os dez fundos conseguiram voltar ao terreno positivo após sofrerem as quedas.

Daqui para frente, a tendência é que os juros sejam menores do que foram no passado, mesmo com as turbulências visíveis no horizonte. Assim, inevitavelmente, para aumentar os ganhos, os investidores terão que arriscar mais.

Em um mercado instável e com muita incerteza, a saída é dedicar tempo para conhecer a estratégia de cada gestor e avaliar constantemente o desempenho do fundo.

Pirâmides financeiras e marketing multinível

Para Bill Ackman, gestor da Pershing Square, um “hedge fund” americano, Herbalife é uma transação para a vida.

Não que ele seja fã do modelo de negócios da empresa global de suplementos alimentares, muito pelo contrário. Ackman acredita que, no fundo, a Herbalife explora um esquema de pirâmide financeira e que, cedo ou tarde, a companhia irá à falência.

Ackman vendeu ações a descoberto da empresa, uma posição que garante lucros caso os papéis caiam de preço. Até agora, no entanto, o resultado do investimento tem sido péssimo. A estimativa é de que os investidores da Pershing Square estejam contabilizando prejuízos de US$ 500 milhões desde dezembro do ano passado com a aposta. Isso porque as ações da Herbalife subiram do patamar de US$ 30 para US$ 70 no período.

Mas Ackman continua determinado, mesmo com os rumores de que a empresa poderá levar adiante uma proposta para fechar o capital e recomprar todas as ações que estão em circulação no mercado. Se isso acontecer, ele declarou que pretende mudar a estratégia. Vai montar operações no mercado de derivativos de crédito para apostar na inadimplência da companhia e consequente desvalorização dos títulos de dívida emitidos para financiar o fechamento de capital.

A convicção do investidor ativista foi renovada a partir de um relatório recente da SEC, o órgão equivalente nos Estados Unidos à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O trabalho da SEC alertou para esquemas de pirâmides financeiras disfarçados de operações de marketing multinível.

A autoridade americana listou sete pontos que merecem a atenção dos potenciais aplicadores. Se o negócio envolver a ênfase no recrutamento, promessas de alto retorno em curto período de tempo, dinheiro fácil ou rendimento passivo e sem esforço, necessidade de compra de produtos para poder revendê-los, estruturas complexas para definir o valor das comissões, nenhum produto ou serviço efetivamente vendido para pessoas que não fazem parte da rede e, finalmente, se não existirem demonstrativos das vendas efetuadas no varejo, é um sinal de alerta.

Ackman viu semelhanças na operação da Herbalife com todos os pontos listados pela SEC. No entanto, a empresa, os revendedores da companhia e diversos investidores de peso refutam as acusações. George Soros, Carhl Icahn e William Stiritz são alguns dos renomados gestores de recursos que possuem ações da Herbalife e estão na posição contrária à da Pershing Square.

Também no Brasil a CVM tem a preocupação de previnir os aplicadores sobre esquemas que podem ser, na verdade, pirâmides financeiras disfarçadas. Segundo a autarquia, o seu serviço de atendimento ao cidadão (SAC) recebe diversas consultas de pessoas com dúvidas sobre a regularidade de propostas de participação em várias “oportunidades de negócios”. Muitas podem acabar lesando os participantes.

No site da CVM, na área de proteção e educação ao investidor, existe um item que reúne as publicações educacionais. Lá são agrupados diversos estudos, incluindo o boletim de proteção ao investidor/consumidor.

Os trabalhos são preparados conjuntamente pela CVM e Secretaria Nacional do Consumidor (Senacom), órgão do Ministério da Justiça. O tema do sexto boletim foram as possíveis relações e semelhanças entre o marketing multinível e as pirâmides financeiras.

Casos de investidores que buscam lucrar com a derrocada de uma determinada companhia são raros. Por isso a disputa com as ações da Herbalife vem chamando tamanha atenção. No entanto, golpes financeiros que envolvem a promessa de ganhos mirabolantes e com pouca explicação de como os lucros serão atingidos são relativamente comuns.

As informações disponibilizadas no site da CVM são fundamentais para esclarecer dúvidas sobre o funcionamento do marketing multinível e evitar cair em golpes, investindo ou participando de esquemas fraudulentos.

“Black Bank Friday”

Se pelo menos uma vez por ano todos pudessem ter um dia de folga para organizar a vida financeira, o conforto seria grande.

Pense na possibilidade de passar horas numa agência bancária, sem pressões ou culpa, e resolver todos os problemas que não são urgentes, mas exigem uma solução: encerrar contas inativas, cancelar cartões de crédito, negociar taxas de empréstimos mais favoráveis, abrir (ou fechar) uma caderneta de poupança ou fazer a portabilidade do plano de previdência.

Eventualmente o dia poderia se tornar realmente produtivo. Encontrar uma corretora com bons serviços e produtos ou descobrir um agente autônomo que dê acesso aos melhores fundos de investimentos teria o potencial de aumentar a rentabiliade das aplicações financeiras.

O momento poderia ser o ideal para reavaliar a carteira de investimentos e procurar novas oportunidades.  Por exemplo, ao conhecer os riscos e benefícios dos papéis isentos de Imposto de Renda ou organizar melhor a carteira de ações.

Também seria um dia para, finalmente, fazer as simulações e descobrir se a melhor opção no Tesouro Direto são os papéis indexados à inflação, prefixados ou atrelados à taxa Selic. Quem sabe sobrasse tempo para calcular se a alternativa mais indicada é comprar ou alugar um imóvel.

Dúvidas frequentes, tais como se é mais rentável comprar dólares hoje para garantir o custo da viagem de férias ou aplicar em um fundo cambial poderiam ser resolvidas. E, também, ponderar a decisão entre carregar um cartão de débito ou usar a praticidade o cartão de crédito nas viagens internacionais. Isso sem falar na decisão estratégica para utilização das milhas acumuladas.

Ainda estamos longe de esperar uma sexta-feira de desconto nas operações bancárias. Mas com o mínimo de dedicação já é possível reunir informações suficientes para negociar melhor as condições dos produtos e serviços financeiros. Os benefícios desse investimento são certos.