Recessão reduz expectativa de inflação e mercado reage

Os investidores com aplicações em títulos públicos com taxas prefixadas acumulam rendimento no ano ao redor de 8,57% até o dia 8 de abril de 2016. Esse é o ganho até o momento do IRF-M, índice que acompanha o desempenho de uma cesta de papéis prefixados emitidos pelo Tesouro Nacional.

No mesmo período, a variação acumulada das taxas dos Certificados de Depósitos Interfinanceiros (CDI) foi de 3,58%. Já a rentabilidade dos títulos públicos indexados ao IPCA foi de 5,61%, conforme o indicador IMA-B. O Ibovespa teve rendimento de 16,02% e o dólar registrou queda de 5,89%.

São números marcantes, pois o cenário base no começo do ano era de que o Banco Central (BC) iria continuar aumentando a taxa Selic para tentar reduzir a inflação. O aumento dos juros de curto prazo, na maior parte das vezes, implica prejuízo para os detentores de títulos prefixados de longo prazo.

Portanto, o maior rendimento das aplicações prefixadas surpreendeu, pois não era o que a maioria dos analistas e gestores de recursos projetava.

A deterioração da situação econômica brasileira, com queda acentuada da produção, redução do consumo e aumento rápido das taxas de desemprego foram os fatores que influenciaram o comportamento dos indicadores de mercado.

Em termos pragmáticos, houve diminuição da expectativa da inflação para 2016. O reflexo foi a interrupção dos reajustes para cima das projeções que vinham sendo feitas pelos analistas consultados pelo BC e divulgadas regularmente no boletim Focus.

Em agosto de 2015 a mediana das estimativas apontava que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficaria em 5,5% em 2016. No fim do ano, a projeção tinha aumentado para 6,8%.

Em fevereiro de 2016 ocorreu o ponto mais alto da série, quando a mediana das expectativas alcançou 7,62%. Desde então, em função do cenário ruim da economia, as projeções começaram a ser revistas e, hoje, apontam para inflação de 7,14% no ano.

Outra maneira de estimar a inflação futura é comparar a diferença entre as taxas de juros dos títulos prefixados com a parcela prefixada da remuneração dos papéis indexados ao IPCA.

No jargão do mercado brasileiro, o cálculo é chamado de inflação implícita. Para os operadores internacionais, o indicador é conhecido como ponto de equilíbrio da inflação.

O conceito parte da premissa de que os mercados são eficientes. Sendo assim, seria indiferente para o investidor aplicar no título prefixado ou no papel indexado à inflação, porque a remuneração final de ambos seria a mesma.

A explicação para o fato de a inflação implícita oscilar diariamente também é amparada por considerações teóricas. Isso ocorreria porque novas informações vão sendo incorporadas regularmente nas análises e, por isso, afetam as projeções de maneira constante.

Um exemplo prático pode ser obtido ao se contrapor a remuneração da Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em janeiro de 2019 e os juros da Nota do Tesouro Nacional da série B – Principal (NTNB-P) com resgate em maio de 2019. Essa diferença está ilustrada pela linha laranja do gráfico.

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A mediana das expectativas de inflação para 2016, conforme divulgadas pelo BC está indicada pela linha azul. Os dados abrangem o período desde janeiro de 2016.

No começo de 2016, a remuneração da LTN era de 15,77% ao ano. O rendimento da NTNB-P era de IPCA + 7,23% ao ano. A diferença, em termos de juros compostos, entre a taxa da LTN e da NTNB-P era de 7,96% ao ano.

Teoricamente, os números significam que o IPCA no período deveria ser de 7,96% ao ano para que a aplicação na NTNB-P tivesse o mesmo rendimento do investimento na LTN.

Na mesma data, a projeção dos analistas para a inflação em 2016 era menor, de 6,92%. Significa, então, que a expectativa dos operadores de mercado dada pelo cálculo da inflação implícita indicava que a inflação iria aumentar nos anos de 2017 e 2018.

Mais recentemente houve uma inversão. Os cálculos, agora, apontam para inflação implícita média de 6,79% ao ano até 2018. Os analistas, por sua vez, projetam IPCA de 7,14% para 2016.

Se o cenário de mercado for confirmado, a inflação em 2017 e 2018 será mais baixa do que a atual. O que, estrategicamente, favorece as aplicações em títulos prefixados.

No entanto, dado o ambiente político, é importante agir com prudência. Os conceitos de mercados eficientes que embasam os cálculos consideram um mínimo de estabilidade na governabilidade do país.

O efeito da persuasão nas propostas de investimentos

A alta recente do preço dos ativos brasileiros decorre da combinação de dois fatores. Por um lado, a esperança de uma eventual mudança no comando do governo que possa melhorar o atual ambiente econômico. E, por outro, um componente externo, representado pela valorização do petróleo no mercado internacional, que indicaria recuperação da economia mundial.

A consequência é que o investidor tem sido bombardeado com uma série de conselhos para aproveitar o momento da forma mais rentável possível. A recomendação padrão é aumentar o risco da carteira, investindo em bolsa e em títulos públicos de longo prazo.

Entretanto, é preciso cautela. O argumento de que o possível impeachment da presidente Dilma será uma ocasião única na história do país e, portanto, representará uma oportunidade rara para lucrar com determinadas posições no mercado financeiro parece exagerado.

O psicólogo social Robert B. Cialdini, autor de “O Poder da Persuasão”, estudou as ferramentas que podem ser utilizadas como armas de influência. Como regra geral, a persuasão é exercida por alguém interessado em vender um produto ou serviço.

Do ponto de vista pragmático, invariavelmente passamos por situações em que a sensação final foi a de termos comprado algo que, mais tarde, constatamos que não precisávamos. O objetivo da pesquisa de Cialdini foi tentar explicar as razões que nos levam a cair em algumas armadilhas.

Na definição do especialista, a influência acontece de seis maneiras diferentes: reciprocidade, compromisso e coerência, prova social, simpatia, autoridade e escassez. As técnicas de persuasão elencadas são usadas para concretizar a transação almejada. Conhecê-las ajuda a evitar arrependimentos.

A reciprocidade ocorre quando recebemos uma amostra de um produto e nos sentimos compelidos a comprá-lo. Pode acontecer no supermercado, quando degustamos um novo lançamento.

Compromisso e coerência são usados para vincular uma ação que praticamos regularmente com um determinado produto. Por exemplo, se viajamos de férias frequentemente, parece uma consequência natural participarmos de um programa de tempo compartilhado (“time sharing”) em hotéis.

A prova social está relacionada com a importância exercida sobre nossas decisões pelas preferências do grupo do qual fazemos parte. Por exemplo, se pessoas do nosso relacionamento recomendam um restaurante, fatalmente iremos visitá-lo.

O poder da simpatia pode ser sentido quando nos relacionamos com um bom vendedor. Uma pessoa que se coloca do nosso lado quando estamos negociando uma compra, barganhando descontos com seus superiores, será encarada de maneira positiva e nossa tendência é considerá-la como nossa parceira.

A autoridade se manifesta, sutilmente, quando uma celebridade indica que devemos adquirir certo produto. Ou quando seu chefe recomenda que você faça determinado curso de especialização.

Já a escassez ocorre quando sentimos que devemos aproveitar uma oportunidade única que está diante de nós. São ofertas do tipo é hoje ou nunca.

Especificamente no mercado financeiro, o risco de partir para estratégias de tudo ou nada para aproveitar oportunidades aparentemente históricas é perder boa parte da poupança acumulada ao longo de anos, caso o investimento dê errado. Isso sem contar com a possibilidade de cair em esquemas fraudulentos.

A melhor defesa, nesses casos, é avaliar as alternativas disponíveis de maneira fundamentada e buscar a diversificação das aplicações. O gráfico abaixo ilustra como é possível lucrar no ambiente atual, mantendo o risco controlado.

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A linha azul claro mostra a evolução mensal do cupom da Nota do Tesouro Nacional da série B Principal (NTNB-P) com vencimento em maio de 2019 negociada no Tesouro Direto, o sistema de venda de títulos públicos via internet administrado pelo Tesouro Nacional.

O cupom, nesse caso, é o ganho anual esperado, desde o momento da aquisição do título até o vencimento, que irá superar a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). É o juro real da aplicação.

Já a linha laranja indica a diferença entre a rentabilidade do certificado de depósito interfinanceiro (CDI) e a variação do IPCA no período móvel de 12 meses. É o ganho real efetivamente obtido no passado com uma aplicação indexada ao CDI.

A linha horizontal azul escuro mostra o ganho médio real anualizado do CDI no período entre janeiro de 2013 e fevereiro de 2016, que ficou em 2,4% ao ano.

Os dados mostram que existe uma perspectiva de rentabilidade maior com a aplicação na NTNB-P. Entretanto, o investimento no CDI não tem desapontado.

A despeito das potenciais oportunidades decorrentes da turbulência política e econômica, o investidor não deve se descuidar. Controlar os riscos e seguir um planejamento financeiro a longo prazo aumenta a probabilidade de obtenção de ganhos consistentes.

Mercado, agora, compra o discurso do BC

No começo do ano, a aposta predominante era que o Banco Central (BC) iria aumentar a taxa Selic para conter a inflação. Entretanto, na reunião do comitê de política monetária (Copom) de janeiro, a decisão foi manter os juros básicos inalterados.

Houve muitas críticas à atuação do BC. O reflexo foi sentido no aumento da taxa dos títulos prefixados de longo prazo. A expectativa era que a inflação fosse disparar, apesar da argumentação da maioria dos diretores do BC sobre os efeitos da recessão econômica no repasse de preços.

Agora no começo de março, ocorreu mais uma mudança. As taxas de todos os títulos prefixados emitidos pelo Tesouro estão em patamar abaixo do que estavam em janeiro. O gráfico abaixo ilustra esses três momentos.

Mudança de mão

Relação entre juros e prazo de vencimento das LTNs

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Fonte: Tesouro Nacional

A linha azul do gráfico mostra a curva de juros representada pelas taxas das Letras do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em 1/10/2016, 1/4/2018 e 1/1/2010 no dia 7 de janeiro deste ano.

A linha verde une os mesmos vencimentos de LTNs conforme as cotações do dia 21 de janeiro, um dia após a contestada decisão do BC. As taxas dos papéis com vencimento em abril de 2018 e janeiro de 2020 aumentaram. A taxa do título com prazo de outubro de 2016 caiu.

Já a linha vermelha indica as taxas praticadas no dia 3 de março, o dia seguinte da segunda reunião do Copom do ano. Todos os vencimentos estão com taxas mais baixas.

Para o investidor, a lição do episódio é que o mercado é volúvel. Portanto, opiniões embasadas apenas nas flutuações das cotações de mercado precisam ser encaradas com cautela.

O tamanho da recessão de 2015 atestada pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE) já estava no radar do BC, conforme indicava o índice IBC-BR. Para frente, vale a pena levar em conta os argumentos do Copom.

Mesmo com riscos, LTN 2018 é opção

Entre 2000 e 2015, a dívida pública mobiliária federal interna do Tesouro Nacional somada com as operações de mercado aberto do Banco Central (BC) cresceu no ritmo de 13,9% ao ano. Em dezembro de 2000 o valor era de R$ 507 bilhões e subiu para R$ 3,5 trilhões no fim de 2015.

Esse é o montante de recursos que o Tesouro e o BC tomam emprestado no mercado financeiro nacional para financiar os gastos do governo. Quando há déficit orçamentário, a diferença entre receitas e despesas acaba sendo incorporada ao estoque da dívida, assim como a parcela de juros que foi refinanciada.

O Tesouro vende títulos em leilões periódicos. Já o BC capta via negociações de curto prazo com instituições financeiras, usando papéis emitidos pelo Tesouro como lastro das operações.

Os grandes investidores podem comprar diretamente os títulos públicos participando dos leilões ou por meio da intermediação de bancos e corretoras. Para o pequeno investidor, a alternativa mais acessível é o Tesouro Direto, o sistema de negociação de títulos públicos via internet.

Indiretamente, os investidores podem aplicar nos papéis do governo comprando cotas de fundos de investimento. Segundo a Anbima, a associação que representa o setor, 67% do patrimônio das carteiras está investido em papéis do Tesouro ou operações compromissadas.

Os títulos públicos também representam parcela significativa dos ativos dos bancos. Ao comprar um Certificado de Depósito Bancário (CDB), Letra Financeira (LF) ou Letra de Crédito Imobiliário (LCI), o investidor está, indiretamente, contribuindo para financiar o governo.

O Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que funciona como uma espécie de avalista em alguns casos de liquidação ou intervenção em bancos, aplica a maior parte das reservas em títulos públicos. Também seguem essa estratégia as seguradoras que atuam nos variados ramos, tais como automóveis, saúde, vida e previdência.

A possibilidade de ampla inadimplência no sistema financeiro é um evento extremo. No filme A Grande Aposta, vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado, o principal temor dos personagens era um calote generalizado ocasionado pelo excesso de títulos hipotecários podres no balanço dos bancos.

Por ser a alternativa mais segura, é natural que investidores e instituições financeiras concentrem as aplicações em títulos emitidos pelo Tesouro. Entretanto, os governos também precisam demonstrar que mantém contas organizadas.

Um indicador para medir a solvência de um país é a relação entre dívida total e o valor nominal do Produto Interno Bruto (PIB). A ideia é que as receitas do governo, e portanto sua capacidade de pagamento da dívida, acompanhem o tamanho da economia.

No Brasil, entre 2000 e 2015, o PIB aumentou 11,4% ao ano, o que significou uma defasagem de 2,3% ao ano em relação ao crescimento da dívida no mesmo período. Como consequência, o grau de endividamento do Brasil subiu de 41% para 60% do PIB, considerando apenas a dívida mobiliária e as operações do BC.

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Se o ritmo for mantido, em 5 anos o endividamento será de 67% do PIB. É um nível elevado para países emergentes, apesar de confortável para economias desenvolvidas.

Nos últimos dois anos a situação foi mais crítica. O endividamento cresceu 18% ao ano, enquanto o PIB aumentou 7% ao ano. Nesse passo, o endividamento atingiria 80% do PIB em três anos.

Conceitualmente, o déficit do governo pode fomentar o aumento da demanda e provocar crescimento da economia. Para que esse mecanismo funcione, no entanto, a percepção deve ser de que as contas públicas continuarão equilibradas.

Caso contrário, o déficit de hoje é encarado como indicação de mais impostos no futuro. Consumidores e empresários, então, antecipam esse ciclo e reduzem os gastos e investimentos imediatamente.

A falta de credibilidade do atual governo pode ter sido a razão para que, nos últimos dois anos, a economia brasileira tenha encolhido em termos reais, descontada a inflação. Isso ocorreu apesar do déficit fiscal expressivo.

Como a política econômica sinaliza que irá continuar na mesma toada, as projeções são de um ambiente muito ruim até meados de 2018, ano de uma nova disputa eleitoral.

Em um cenário de baixa atividade econômica, a inflação poderia cair, apesar do efeito negativo provocado pela indexação dos contratos. A aposta mais rentável, nesse ambiente, seria nos papéis prefixados.

Nos leilões recentes de títulos públicos, o destaque tem sido a Letra do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em abril de 2018. Em janeiro, a taxa média do papel estava acima de 16% ao ano. Em fevereiro, caiu para pouco menos de 15% ao ano.

É uma alternativa para quem acredita que o pior da crise tem prazo para terminar.

As difíceis escolhas para o ano de 2016

O ano começou com queda no preço das commodities, dúvidas em relação ao crescimento das principais economias do mundo e aumento global do custo do crédito.

No Brasil, continuam as incertezas ocasionadas pela frágil situação política do governo, o desequilíbrio das contas públicas e as previsões de mais um ano de forte retração econômica. O cenário para as aplicações financeiras em 2016 é desanimador.

Nesse ambiente, parece natural a fuga e a consequente desvalorização das opções mais arriscadas. A preferência tem sido pelos investimentos de renda fixa indexados tanto aos juros de curto prazo quanto à inflação e ao dólar.

A demanda por papéis prefixados é baixa e o próprio Tesouro Nacional, sensível ao clima geral de aversão a riscos, adequou a estratégia nos leilões de títulos da dívida pública. Concretamente, houve um aumento da venda de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), papéis vinculados à taxa básica de juros (Selic).

Na renda variável, a esperança é que a cotação das ações das companhias brasileiras tenham chegado a preços tão depreciados que justificariam compras especulativas. Entretanto, aceitar essa aposta implica conviver com variações extremas no valor de mercado do investimento.

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Para enfrentar a turbulência, as alternativas mais seguras continuam sendo os títulos públicos federais ou papéis emitidos por bancos de primeira linha. A contrapartida são os maiores custos e comissões, que acabam afetando a rentabilidade final da aplicação.

Investimentos em papéis de bancos de segunda linha, mesmo que dentro do limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), devem ser encarados com cautela. O excesso de remuneração em relação às opções mais conservadoras pode não ser suficientemente elevado para compensar os riscos envolvidos.

Em relação aos indexadores, a escolha da variação do certificado de depósitos interfinanceiros (CDI) continua sendo a mais pragmática. Em que pese o encolhimento do mercado interbancário, o CDI ainda é o mais relevante índice de correção dos ativos financeiros.

A diferença entre o indexador e a Selic é acompanhada com lupa pelas autoridades e profissionais do mercado. Apesar de possível, não é provável que seja tolerado uma diferença muito grande entre as duas taxas sem que haja algum tipo de correção de rumo.

Uma opção a ser considerada é a indexação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação. Houve recentemente um aumento da demanda por esses títulos, que trouxe como reflexo a redução da parcela prefixada da taxa, o chamado cupom.

Para exemplificar, considere a Nota do Tesouro Nacional da série B (NTN-B) com vencimento em 15 de maio de 2019. O papel está disponível para compra no Tesouro Direto, o sistema de negociação de títulos públicos via internet administrado pelo Tesouro Nacional.

Em meados de dezembro do ano passado, o título era negociado com taxa de IPCA mais 7,6% ao ano. No fim de janeiro a taxa caiu para IPCA mais 6,2% ao ano.

O comportamento reflete a redução da diferença entre o CDI e a inflação. A expectativa anterior era de que o Banco Central continuaria subindo a taxa básica de juros para forçar uma queda mais acentuada dos índices de preço. A nova sinalização do Comitê de Política Econômica (Copom) é de que isso não irá acontecer.

A variação do CDI nos últimos 12 meses foi de 13,34%. Se nada mudar, a tendência é que a taxa se aproxime do patamar atual da Selic, congelada em 14,25% ao ano.

A inflação em 12 meses, por sua vez, está em 10,67%. A previsão atual dos analistas é de que caia para perto de 8% ao ano. O resultado é que a diferença esperada entre uma aplicação indexada ao CDI e a expectativa do IPCA é de 5,8% ao ano.

Ao escolher a NTN-B, o investidor garante remuneração da inflação e pouco mais de 6% ao ano. A contrapartida é a necessidade de alongar a aplicação até 2019.

Um risco pouco provável, mas que começa a preocupar certos investidores, é a possibilidade de algum tipo de alteração mais radical nas regras das aplicações financeiras. O argumento é que, para equilibrar as contas governamentais, será inevitável alguma espécie de redução compulsória no valor da dívida pública.

O fato de as estatísticas mais recentes apontarem para um crescimento expressivo da dívida bruta do setor público alimentam esse tipo de especulação. A esperança, no entanto, é que as autoridades tenham um mínimo de habilidade para encaminhar a resolução deste problema.

Por enquanto, o único consenso é que, fora os fundos de investimento que cobram mais de 4% ao ano de taxa de administração, a caderneta de poupança manterá o posto de pior aplicação na renda fixa.

Copom afeta estrutura de juros

Em termos concretos, a decisão do comitê de política monetária do Banco Central (Copom) de manter a taxa Selic em 14,25% ao ano ocasionou um aumento da diferença entre as taxas de juros de longo e curto prazo. No jargão, houve aumento da inclinação da curva de juros.

Para visualizar, considere o gráfico abaixo. Os três pontos assinalados na linha azul correspondem à taxa de juros (medida no eixo vertical) e o vencimento (medido no eixo horizontal) das LTNs vendidas pelo Tesouro Nacional no dia 10 de dezembro de 2015.

Os quadrados na linha vermelha do gráfico mostram as LTNs vendidas em 7 de janeiro de 2016. E as marcas na linha verde sinalizam as taxas do leilão do Tesouro ocorrido no dia 21 de janeiro de 2016, após o Copom.

É possível visualizar que a linha verde é mais inclinada, em relação ao eixo horizontal, do que a linha azul.

Inclinação da curva

Relação entre juros e prazo de vencimento das LTNs

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Fonte: Tesouro Nacional

Outra maneira de avaliar a inclinação da curva de juros é calcular a diferença entre a taxa da LTN mais longa e a da mais curta, conforme indicado no gráfico abaixo.

Tamanho da inclinação

Diferença de taxas entre vencimentos diferentes

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Fonte: Tesouro Nacional

No dia 21 de janeiro o rendimento da LTN mais longa era de 16,81% ao ano e a mais curta tinha taxa de 14,54% ao ano. No dia 10 de dezembro, a LTN longa rendia 15,96% ao ano e a curta 15,42% ao ano.

O fato em si de a curva de juros estar mais ou menos inclinada não tem tanta importância. O ruim são as alterações frequentes, porque implica perdas e ganhos elevados nas diferentes posições detidas pelos participantes do mercado financeiro.

O investidor deve interpretar a atual estrutura de juros como um aumento do risco. Apostar em papéis prefixados de longo prazo pode proporcionar ganhos maiores em relação aos de curto prazo. Mas é preciso que, de fato, a inflação convirja para a meta, conforme o esperado pelo Banco Central.

Jogando a rede no mercado financeiro

No mundo ideal, você contaria com um assessor financeiro capaz de avaliar seus investimentos de forma afinada com as suas necessidades. Como consequência, as recomendações do especialista levariam em conta apenas os objetivos que foram estabelecidos no seu planejamento pessoal.

Na prática, entretanto, essa situação é um luxo ao alcance de poucos. Na maioria das vezes, o investidor é obrigado a negociar solitariamente e enfrentar circunstâncias em que ocorrem conflitos de interesse.

Nas operações financeiras, de forma geral, quanto melhor para o cliente, pior para a instituição. Isso porque o padrão de remuneração é a diferença entre o custo do dinheiro e a taxa de repasse das operações. É o chamado “spread” bancário.

Por exemplo, considere a remuneração de um certificado de depósito bancário (CDB) que paga 97% da variação diária dos certificados de depósitos interfinanceiros (CDI). Se o banco conseguir repassar os recursos captados à taxa de 100% do CDI, terá lucro.

Se a remuneração do CDB for aumentada para 101% do CDI, o banco será obrigado a encontrar tomadores dispostos a pagar mais do que isso para ter ganho. Caso contrário, não haverá interesse em emitir o título.

Nos fundos de investimento, a remuneração do gestor está associada à taxa de administração da carteira e, nas corretoras, à taxa de corretagem para intermediação dos negócios. Também nesses casos, quanto maior o custo, pior para o investidor.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e demais órgãos reguladores buscam estabelecer padrões mínimos de conduta para evitar que o cliente seja prejudicado. A premissa é que na relação entre especialistas e investidores os últimos são a parte mais fraca em termos de capacidade de negociação.

As situações de conflito decorrentes das estruturas de remuneração dos produtos financeiros não são novidades. Além da proteção dos reguladores, o investidor tem a possibilidade de comparar alternativas para minimizar possíveis prejuízos.

Quanto mais amplo e transparente for o mercado, mais fácil será identificar boas oportunidades e evitar as armadilhas. No entanto, nem sempre as coisas funcionam conforme o esperado.

Usando diversos exemplos pitorescos de situações do dia a dia, dois vencedores do Prêmio Nobel de economia lançaram, recentemente, um livro sobre a economia da manipulação e do logro. A ideia desenvolvida pelos economistas, George Akerlof e Robert Shiller em “Phishing for Phools” (sem tradução para o português) é que o mercado nem sempre converge para uma situação ideal de equilíbrio.

Os autores usaram uma analogia com os “emails” que recebemos solicitando clicar em determinado “link” para, por exemplo, atualizar os dados cadastrais da conta bancária. O objetivo dessas mensagens é roubar dados pessoais.

Em inglês, o nome dessa atividade é “phishing”, termo que busca passar a ideia de uma pescaria mal-intencionada. Akerlof e Shiller desenvolveram o conceito de “phishing equilibrium”.

Trata-se de uma situação de mercado perfeitamente legal e dentro das regras econômicas, mas com potencial de causar prejuízos aos desavisados.

Considere a oferta de cartões de crédito sem custos de manutenção. Muitos verão a alternativa como uma oportunidade para reduzir os gastos com tarifas bancárias. Outros, entusiasmados com a possibilidade de conseguir mais crédito, podem ser tentados a se endividar no crédito rotativo e acabar pagando juros elevados.

O equilíbrio financeiro da empresa de cartões de crédito ocorre porque os ganhos decorrentes dos juros cobrados no financiamento dos gastos excessivos de alguns que usarão o crédito rotativo irão compensar os custos operacionais dos cartões daqueles que não se endividam.

Nesse equilíbrio, os mais gastadores subsidiam os mais controlados. A empresa de cartões consegue “pescar” alguns mais desavisados para financiar a expansão da participação no mercado.

No mundo de investimentos, se você tem R$ 5 mil para aplicar, nos bancos de varejo provavelmente terá acesso apenas a fundos com taxa de administração de 2,5% ao ano. Com R$ 1 milhão, conseguirá taxas muito mais baixas.

Ou, se desejar investir em títulos públicos com tarifas mais baixas, provavelmente terá que abrir mão da estrutura do Tesouro Direto e adquirir os papéis diretamente da carteira da corretora. Talvez a conta chegue quando você precisar vender os títulos, antes do vencimento.

O conceito de equilíbrio desenvolvido pelos autores não chega a ser revolucionário. No entanto, a sistematização das situações em que essa “pescaria” pode ocorrer ajuda na preparação para os momentos de decisão.

Da mesma forma que, hoje, conseguimos detectar as mensagens eletrônicas potencialmente perigosas, os conceitos desenvolvidos no livro de Akerlof e Shiller podem evitar perdas no mercado financeiro.

Afinal, no longo prazo, um ganho adicional de 2% ao ano pode fazer uma grande diferença no patrimônio acumulado para a aposentadoria. É essencial saber onde estão os conflitos, para não fazer papel de bobo.

Phishing

Sair do dólar para apostar no prefixado

Para muitos investidores, a dúvida do momento é abandonar as posições em dólar e migrar para alternativas vinculadas aos juros prefixados. O motivo é embolsar os ganhos obtidos com a desvalorização do real e reposicionar os investimentos para lucrar com a possível queda das taxas de juros de longo prazo.

As aplicações em fundos de investimento dos clientes do segmento Personnalité do Itaú ilustram o tamanho da dificuldade.

Desde o começo do ano, a quantidade de cotistas no fundo Itaú Personnalíté Dólar subiu de pouco menos de 3,5 mil para mais de 6 mil. Em contrapartida, o total de clientes no Itaú Personnalité Pré fez o caminho oposto e caiu de pouco mais de 7 mil para menos de 5,5 mil. O gráfico abaixo mostra essa evolução.

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O fundo Personnalité Dólar acompanha a variação cambial e o Personnalité Pré segue de perto o IRF-M, um indicador que acompanha a rentabilidade dos títulos prefixados emitidos pelo Tesouro.

O gráfico abaixo ilustra o desempenho de uma aplicação hipotética de R$ 10 mil nas duas alternativas desde o começo do ano. A linha verde mostra o valor corrigido pela variação cambial e a linha azul representa a correção pelo IRF-M.

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A aplicação atrelada ao dólar rendeu mais de 50% no período. Já o investimento no IRF-M teve ganho de 5%. Esse resultado justifica a opção dos clientes do Personnalité.

Existe uma percepção de que as taxas de juros no Brasil estão exageradamente elevadas. Além disso, a esperança é que a cotação do dólar se estabilize.

Acertar o momento certo para mudar as aplicações financeiras é sempre uma tarefa difícil. De todo o modo, vale a pena acompanhar o que os outros estão fazendo.

Entre a aposta no dólar e a segurança do CDI

O preocupante descontrole na condução da política econômica do país já vai provocando reflexos nas aplicações dos investidores de varejo. Desde o começo de agosto até o dia 18 de setembro, o total de cotistas com posições nos principais fundos cambiais oferecidos pelos bancos de rede subiu de 13 mil para 17 mil aplicadores.

BB, Caixa, Itaú e Santander lideram o segmento de carteiras indexadas ao dólar. Bradesco e Safra, assim como distribuidores independentes, tais como XP e Guide, também possuem produtos acessíveis aos pequenos poupadores.

O aumento do interesse dos investidores precisa ser avaliado em perspectiva. O maior fundo cambial, em quantidade de cotistas, é o Itaú Personnalité Cambial Dólar, com cerca de 6 mil aplicadores. O fundo DI mais popular do segmento Personnalité do Itaú  reúne 110 mil cotistas.

A comparação sugere que, atualmente, apenas uma fração pequena dos clientes possui aplicações em fundos cambiais. Essa proporção é semelhante nas demais instituições.

A tendência dos números, entretanto, chama a atenção. O crescimento médio de 30% na quantidade de cotistas dos fundos cambiais em período tão curto não encontra paralelo em carteiras das demais categorias.

Mesmo com a alta expressiva nos últimos meses, os investidores continuam buscando ativamente proteção para a desvalorização do real. A decisão pode fazer sentido, visto que a perspectiva é que a oferta de dólares caia na contramão da demanda pela moeda.

A perda do grau de investimento do país tem o potencial de reduzir o fluxo de entrada de investimentos estrangeiros direto, já alertava o ministro Joaquim Levy em 29 de abril, em apresentação na Câmara dos Deputados. E a vigência da instrução CVM 555 a partir de outubro tende a facilitar o acesso dos brasileiros aos produtos oferecidos no mercado internacional.

Além disso, conforme mostrou o repórter Fernando Torres, do Valor, considerando a diferença histórica entre a inflação no Brasil e nos Estados Unidos desde outubro de 2002 – até então cotação recorde na história do Plano Real –, o dólar, em termos reais, equivaleria hoje a R$ 6,83 – o que significa que há espaço para valorizações adicionais.

A despeito da razão para o investimento em ativos atrelados ao dólar, é importante ter em conta que a aplicação oscila acentuadamente. Nos últimos 15 anos, a variação cambial ocorrida em intervalos móveis 12 meses foi sempre elevada. E em metade das vezes foi negativa.

O pior momento para investir em dólar ocorreu entre janeiro e dezembro de 2009, quando a moeda americana caiu 25% em relação ao real e a cotação diminuiu de R$ 2,32 para R$ 1,74. O dólar continuou em baixa até atingir a mínima de R$ 1,56 em julho de 2011. A partir de então a moeda começou a trajetória de alta, até atingir as máximas históricas recentes.

A alternativa para fugir da volatilidade do dólar é manter as aplicações vinculadas à variação do Certificado de Depósitos Interfinanceiro (CDI), que guarda estreita relação com a taxa Selic. A vantagem é que, com o histórico de juros elevados no Brasil, em poucas ocasiões a estratégia produz arrependimento.

O gráfico abaixo compara a diferença entre a variação cambial e o CDI em períodos móveis de 12 meses desde setembro de 2000. As barras azuis indicam os momentos em que a variação cambial superou o CDI. As barras vermelhas mostram quando a rentabilidade do dólar foi menor do que o indicador da renda fixa.

DolarCDI

A quantidade de barras vermelhas é cerca de duas vezes superior ao número de barras azuis. Significa que, no passado, foi mais comum ganhar com a aplicação em CDI do que com o investimento em dólares.

Uma terceira opção é buscar o equilíbrio entre o custo de oportunidade do CDI e a proteção contra a desvalorização do real. A forma de implementar essa estratégia é por meio de operações estruturadas.

No atual ambiente de oscilações extremas do dólar, a oferta deste tipo de alternativa tem se multiplicado. O BNP Paribas, por exemplo, lançou recentemente o fundo Momentum FX Range.

O objetivo da aplicação é proporcionar uma remuneração de cerca de 160% da taxa prefixada desde que a cotação do dólar não ultrapasse um intervalo de aproximadamente 5% para cima ou para baixo em relação à data do início da operação.

Para cada dia em que a taxa de câmbio termine fora do patamar especificado, a rentabilidade do fundo cai. No pior cenário, o rendimento é nulo.

A XP, por sua vez, oferece aos clientes que já possuem dólares, e lucraram com a alta, a possibilidade de assegurar o ganho sem vender a moeda. Por meio de operações no mercado de derivativos, o objetivo da estratégia é comprar, sem custos, um seguro contra a queda do dólar. A contrapartida da estrutura é abrir mão de parte do ganho, caso a moeda estrangeira continue subindo.

Especialmente no momento atual, as decisões devem considerar os riscos e os objetivos do investimento. O maior impacto da crise que atravessamos é o aumento da complexidade dos fatores que precisam ser levados em conta antes de decidir pela melhor aplicação financeira.

O ponto positivo é que existem uma série de produtos financeiros disponíveis para a diversificação dos investimentos. Entretanto, uma avaliação criteriosa das alternativas é essencial para evitar decisões equivocadas.

Aumenta a demanda por fundos cambiais no varejo

O cada vez mais preocupante descontrole na condução da política econômica do país já vai provocando reflexos nas aplicações dos investidores de varejo. Do começo de agosto ao dia 18 de setembro, o total de cotistas com posições nos principais fundos cambiais oferecidos pelos bancos de rede subiu de 13 mil para 17 mil.

BB, Caixa Itaú e Santander lideram o segmento de carteiras indexadas ao dólar. No entanto, Bradesco e Safra, bem como distribuidores independentes, tais como XP e Gradual, também possuem produtos acessíveis aos pequenos poupadores.

O gráfico abaixo compara a evolução da quantidade de cotistas de quatro importantes fundos cambiais. Todos possuem comportamento semelhante.

FundosCambiais

O eixo vertical indica a quantidade de cotistas de cada fundo. O eixo horizontal marca o tempo. A queda brusca ocorrida em 31 de agosto é decorrente de erro na divulgação das informações que deverá ser corrigido posteriormente.

Após um primeiro salto entre fevereiro e março deste ano, a quantidade de cotistas ficou relativamente estável. Mais recentemente o interesse dos aplicadores foi renovado.

O cenário vai ficando cada vez mais complexo para a gestão dos investimentos. Em contrapartida, os instrumentos de proteção para as aplicações estão cada vez mais disponíveis.